A Casa de Bernarda Alba

Direção: Fernando Pivotto. Teatro Viga, SP É preciso dizer que a cena sempre ganha com a chegada dos grupos que pensam os clássicos em cena. O tempo que transforma todo amor em quase nada, como vaticinou Roberto Carlos, transforma também todo clássico em quase museu - e é preciso resistir com materiais. É preciso montar e deixar em cartaz para que se revele o corpo da obra. Lorca é um autor expressivo não apenas historicamente. Sua densidade dramatúrgica atravessou o tempo e na boca do grupo parece atual. Entretanto! Sinto que apenas a sintática poética sobreviveu ao tema e a forma. Se tudo em Lorca parece vivo no papel, curiosamente não é assim que encontramos na cena. Ainda que se faça pre

Siete Grande Hotel

Texto e direção: Rudrifran Almeida Pompeu Espaço Redimunho, SP A rua entra, a cena sai, fica o teatro entre o mundo e a vida. Um jornal dramático. De pronto estamos entre a criação e a utopia, entre o possível e o acontecido. Império da cena em delírio visual, em versos talvez não complexos como é complexa uma tese, mas sinceros e articulados como o que de fato é - um acordo grupal. Uma frase acerca da periferia do mundo hegemônico. Resistência não só daquelas vidas, mas daqueles que resistem para além da vida e que deixam no mundo sua marca. Sua o-cu-pa-ção. Aprendi com a Júlia D'Hellemes que a arte é dêitico, aquilo que mostra, quase uma representação virtual da vida, portanto, nunca trato

Os Famintos

Ocupação Decolonialidades: Poéticas da Resistência. Fricção Coletiva Teatro de Arena. Vanessa Garcia é o ponto de conexão entre os atributos da montagem. Sua estabilidade e domínio de cena organizam o que talvez não funcionasse no texto ou na direção. Vanessa estabelece um vetor narrativo dentro da própria narrativa. Sua intensidade é capaz de criar uma curiosa modulação de nuances frente à Natália Xavier que espelha a personagem com Vanessa. A dupla de atrizes resulta numa uniforme coesão que é sim a situação mais potente da montagem. É natural que elencos reduzidos optem pelo narrativo ou que textos narrativos busquem elencos reduzidos. Isto dá-se porque a dinâmica do drama em geral cobrar

Sobre as Baleias

Ocupação Desconialidade: Poéticas da Resistência Coletiva Vulva da Vovó. Teatro de Arena, SP Todos já pensamos um pouco a vida segundo os versos de Gente, de Caetano Veloso. Reclamar justiça tem sido nosso eterno retorno. E o teatro, em justa medida, a constante garganta para mediar os gritos dos oprimidos. Formalmente, a cena organiza-se de maneira episódica; impondo assim uma personagem que parece cercada sempre por estruturas surdas ao seu grito particular, isto funciona enquanto exposição da gênese e da sinopse. Tudo parece querer inviabilizar o luto daquela parcela da sociedade. A cor. O gênero. Sua força ancestral segue viagem e aqui surge o conflito. A cabeça que não abaixa. A resistê

Cachorro Enterrado Vivo

Direção: Marcelo Fonseca SP Escola de Teatro, SP Pertinente atuação que de forma racional atrai cada uma das instância ao redor de seu corpo. Interpretar, ao contrário de atuar, é a qualidade que alguns atores demonstram ao entender as ideologias criativas ao seu redor e, sem uma recusa, transformá-las em ação através de sua atmosfera. O bom ator é aquele capaz de redimir toda uma produção, não que neste caso houvesse redenção em suspenso, mas, como exemplo, vale recordarmos que um texto, na boca de um ator descomprometido com as possibilidades que sua função carrega, morre. Uma boa direção, sem um ator que a execute, naufraga. Leonardo Fernandes é um destes raros atores que nos faz retomar

L.A Dance Project

De Benjamin Millepied Teatro Alfa, SP As quatro coreografias são capazes de devolver ao público algo há muito perdido no processo evolutivo do capitalismo - a capacidade de contemplação. Antônio Cândido via como uma das maiores agressões ao humano a frase " tempo é dinheiro". Afinal, quando o tempo estabelece a possibilidade da conquista de um valor financeiro e quando o tempo deixa de ser o tecido aonde se pode bordar experiências, como é que alguém pode ter a coragem de "perder" este valioso bem? Investir seu tempo justamente em perder tempo é uma liberdade que o capital "desinventou". Contemplar é deixar que o raciocínio prático diga adeus e deixe que a assimilação instintiva tome o coman

Nós

Grupo Galpão Sesc Pompéia, SP “O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.” Federico Garcia Lorca Entre uma caipirinha para amansar a percepção e uma sopa ilegítima para colocar a consciência e a autocrítica no lugar, Nós

FCD - 2017

Acompanhe aqui as resenhas de Ruy Filho sobre o festival. __(sem título) De Jordi Galí Teatro Sérgio Cardoso, SP Ao não ter o cenário para a apresentação de abertura do Festival Contemporâneo de Dança - retido por uma greve no aeroporto -, Jordi Galí precisou decidir como agir. Um dia e meio, o tempo disponível para resolver o quê e como fazer. Partindo de princípios que estão no espetáculo original (que ocorrerá amanhã, sábado), cria outra obra. O que para ele é um improviso, algo dentro do possível, para o espectador é encantador e completo, como se fosse esse mesmo o trazido ao festival. Ganhamos, assim, dois espetáculos seus. E, aos que estiveram na Sala Paschoal Carlos Magno, a certeza

Madalena Bêbada de Blues

Texto e Direção: Léo Lama Teatro Sérgio Cardoso, SP Se Paulo Vanzolini, o cientista, criou um eu-lírico para fundar a mais notável ronda da música popular brasileira, Léo Lama, o dramaturgo místico, sorveu o procedimento e colocou-se em absoluto risco. Então, aquilo que na mpb nos parece natural ao canto, no teatro, atualmente, nos parece uma ruptura radical. Ou, na pior e mais rasteira das hipóteses, o extermínio do "lugar de fala". Esquecem que a obra se faz nos corpos, e os corpos ali carregam o lugar de fala, dão lugar à fala e, finalmente, através da poética da interpretação: Falam.O século XXI não convidou Madalena Bêbada de Blues, mas, com rara ousadia e pertinente consciência, como u

SATYRIANAS 2017

Acompanhe aqui as resenhas sobre o festival. __O Assassinato do presidente Direção: Paulo Faria Elenco: Leona Jhovs e Paulo Faria Texto: Paulo Faria Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP O colapso de uma relação familiar produz desejos que vislumbram qualquer direção. Sodomizar a cria. Matar o presidente. Cada coisa no seu não-lugar. Pensar a vida política atravancada pela esfera particular parece enredar as motivações de cada uma das personagens. O presidente figura como efeito imaginário, como um vulto do poder, como uma assombração na vida dos “mortais”. A impossibilidade de torná-lo real o torna poderoso. Matar o presidente poderia ser o motor, mas surge como as placas qu

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