Montagem

De Elisabete Finger e Alessa Camarinha CCSP | SP | 26/11/16 Entre a dança e o som revê-la a existência por um estado performático que soma corpo e cognição. É preciso revelar a dança como o movimento coreográfico, o que não significa necessariamente dançar aos moldes clássicos e modernos. A dança se revela na soma entre ritmo, movimento, desenho sobre o espaço, diagonais, planos e a presença como construção de sistemas narrativos sígnicos. Já o som, ainda que indiscutível, seja ruído, melódico, música, tem sua face mais direta, o que torna o preceito de uma coreografia sonora um tanto mais complexa. Se levado o som ao movimento, então estará limitado a uma composição. Em Montagem, Elisabete

Hubbub

Jazz nos Fundos | SP | 24/11/16 Cinco homens. Cada qual com seu instrumento. Sopros, piano, bateria, guitarra. Parecia simples, e restava aguardar o que a banda francesa tocaria nessa primeira vez por aqui. Nada disso. Se o festival se chama de música estranha, agora faz jus e da maneira mais brilhante. Nenhum dos instrumentos no palco é tocado como se espera, e de todos muitos sons imprevistos surgem compondo uma melodia delicada, cuja radicalidade está na potência dos músicas em improvisar seus ruídos. Dos mínimos e suas exigências à atenção, aos máximos repentinos em uma única nota estridente e fundamental. A estranheza não se esgota e se sustenta sem dificuldade, impondo uma curiosidade

Michael Schmid + Al Revés

Jazz nos Fundos | SP | 24/11/16 Eles informam, tudo partirá da citação de Iyengar: A respiração é o rei da mente. E o concerto acontece assim, a partir da respiração. Se em um primeiro momento é ela que traz ritmo ao tempo de escuta, aos poucos o convívio com os sons produzidos pelos corpos, flauta e eletrônicos produz um efeito reverso na plateia, tornando o tempo estendido uma espécie de ritmo à presença. E é sobre a qualidade de ambas as presenças, artistas e ouvintes, portanto, que ao final surgem as perguntas. Quanto neles se modificou durante esse processo de respirar e para daí ser também composição? O que em nós se revela à entrega desse outro ritmo de assimilação sonora? O que se in

Leila

Jazz nos Fundos | SP | 24/11/16 A proposta é simples como procedimento, uma colagem rítmica sobre a qual se improvisa. Um na guitarra, outro na bateria, na maioria do tempo. E a música se faz a partir de clássicos egípcios e libaneses. Ainda que não se conheça as composições, a especificidade melódica é capaz de sugerir suas localizações, com mais ou menos precisão, dependendo de cada um. Na soma entre os dois excelentes instrumentistas encontros e distâncias surgem propositadamente, o que permite evidenciar diferenças e estratégias. Enquanto a guitarra é quem nos aproxima mais rapidamente das melodias de um regionalismo que caminha entre o Oriente Médio e norte africano, aos imaginários dos

Café: o Oriente encontra o Ocidente

com Pera Ensemble (Alemanha/Turquia) Sesc Consolação | SP | 22/11/16 A história do café não é tão simples. Surge em Paris apenas no início da segunda metade do século XXVII, pelas mãos do embaixador turco. Em sua chegada, tentou-se proibição papal, mas não deu; provocou conflitos culturais e políticos na capital francesa, dentre os quais o que levou Molière a escrever O Burguês Fidalgo. A bebida conquistou não só a França, aos poucos, toda a Europa, definindo novos comportamentos e modos de convivência ao Ocidente. Parte desse início, o concerto do Pera Ensemble, cujo nome nada tem com a fruta, mas com o bairro de Istambul de onde é originário. Fosse apenas trazer a nós o Ato Turco que inici

Depois do Nada

Texto e Direção: Gabriela Mellão Elenco: Luciana Ramanzini, Mauro Shames, Reinaldo Soares, Ester Laccava, Aline Abovsky e Antônio Salvador dramamix SP Escola de Teatro | 15/11/16 | 20h30 Angelica Liddell é uma das vozes mais peculiares do teatro contemporâneo. Com qualidade ímpar, suas falas transitam entre a acusação e a autorreferência para insurgir contra valores, sistemas, estruturas e certezas. Por isso, e pela eficácia de uma estética igualmente reconhecível, valer-se de seus discursos e imagens torna o exercício teatral desafiador e quase inalcançável. Quase. Porque em Depois do Nada, tendo o amor como perspectiva a ser investigada por diversos ângulos, do niilismo ao patétitco, conqu

Prefiro Cinema

Texto e direção: Hugo Possolo Elenco: Sandra Corveloni, Camila Turim, Ivo Muller e Geraldo Rodrigues Dramamix SP Escola de Teatro | 15/11/16 | 21h30 Atenção, que este texto tem risco de spoiler. A dramaturgia do texto sugere a lógica de um roteiro de cinema escrito após o episódio a ser apresentado. São quatro personagens: pastor, esposa, cineasta e travesti, cujas histórias são emaranhadas na kitnet dessa última. O humor, em si, é o que vemos nas ruas, na boca do povo, porém amarrado numa história de forma que não fique tão vulgar. Mas os temas já são “clássicos”: pastor broxa condena homossexualidade e trai a esposa com um travesti; o cara que tenta “curar” o travestismo tem no fundo uma v

Apocalipisis 3:16

de Nicolas Spinosa (Argentina) Praça das Artes | SP | 15/11/16 “Nosso fígado resistira a tantas coxinhas?”. Com uma projeção na parede com esses dizeres Spinosa propõe uma aliteração entre coxinhas e cositas e vai além: trabalha a semântica das duas palavras, ultrapassando com sagacidade o obstáculo da língua, já que é argentino. Ele enfileira coxinhas e vai colocando uma a uma na boca. Precisa comer, vai tentando engolir, num desespero. Ou tenta, mas não suporta. Força a coxinha na boca, que se espatifa sujando a barba, caindo no chão. Força mais goela abaixo aquela massa amorfa que deixou de se parecer com coxinha. Engasga, regurgita, fagocita o que restou, vomita. Porque não consegue supo

Exercícios para construção de narcisismos

de Raphael Couto (Rio de Janeiro) Praça das Artes | SP | 15/11/16 Ele convida as pessoas a realizarem registros dele mesmo e, juntas, darem a ele a exata noção de como é visto. O narcisista é auto-referente e se preocupa com a imagem que o outro tem dele. Só por isso é narciso. Se fosse uma auto-preocupação representaria uma avaliação dele para ele. O paradoxo do narciso é justamente esse: ele diz que se basta, mas depende da avaliação do outro, de como o outro o enxerga para que viva em paz. E a performance propicia exatamente o exercício desse paradoxo. Ao dar ao outro a liberdade irrestrita para definir em imagem como ele é, o performer admite ser exposto ao papel de ridículo. Mas a neces

Sem título | Mauricio Vargas

de Mauricio Vargas (Chile) Praça das Artes | SP | 15/11/16 Um compasso. O umbigo está no centro. Ele marca no chão com gesso a imagem a partir do comprimento dos seus braços. Um círculo inscrito e os dizeres: Pasaje Infinita. Mais literal impossível, já que, tão óbvio se desenvolve o discurso, de que um círculo não tem começo nem fim. Ele simplesmente é. O artista se levanta e segue até dois sacos de cal. Ergue e quase como um resignado segue entornando o pó no chão. Uma parte ao tocar o chão se dissipa. A outra permanece. A cal degenera a carne e, nessa perspectiva, pode ser considerada um elemento transformador. Algumas pegadas ficam marcadas na cal espalhada no chão em linhas, formando um

Sem título | Sakiko Yamaoka

de Sakiko Yamaoka Praça das Artes | SP | 15/11/16 Uma bandeja no centro de uma mesa retangular com quatro cadeiras dispostas uma em cada um dos quatro lados. Os três blocos de manteiga estão empilhados. A matéria transpira. Quase é possível sentir que respira. De sólido um dia vai virar líquido. Uma mulher impõe as mãos sobre aquele bloco de manteiga. Ela quer acelerar os processos. A vigília da manteiga. Não se pode deixá-la sozinha. Ela quer ser observada, até por isso está exposta. Quer se deixar. As mudanças de estados acontecem a partir da ação do ambiente. E isso está sujeito às mais diversas intempéries. Tem algo de estar exposto, mas longe de ser inerte. Quando liquefeita não servir

O leitor

de Alexandre de Angeli (São Paulo) Praça das Artes | SP | 15/11/16 Considerações sobre o tempo. E as palavras no tempo. Um Graciliano aparece. Tem Vidas Secas. A obra tem vida, mas a contagem do tempo, em uma ampulheta, é seca. Uma Hilda Hilst aparece. Ele abre a página, como num golpe de sorte, gira a ampulheta e se põe a ler. A fluidez da leitura é muito particular. É dele e não é afetada pelo tempo que corre. A areia na ampulheta suga o tempo que se tem a dedicar àquelas letras, àquela página. Contudo, não é o leitor que decide, mas a ampulheta que determina até que ponto a leitura deve seguir. São fragmentos que, no todo, formam uma história. A areia grafitada esconde os livros que dispo

Lençóis

Direção: Luciano Maza. Texto: Zen Salles. Elenco: Fábio Penna e Lorena Garrido. Dramamix SP Escola de Teatro | 15/11/16 | 19h30 Três tempos ou três camadas da realidade modulam personagens que em comum tem o fato de tocarem aquilo que não pode ser contido nas mãos. Um campeão desencontrado de sua disputa está diante de uma entidade assassina. Uma mulher adentra conversa com um morador de rua até intuir que participa de um diálogo mesmo estando morta. Por fim, um dramaturgo tenta concluir seu texto enquanto uma das personagens cobra um desfecho rápido. Ambos não sabem que mais adiante esta personagem cometerá suicídio. O texto desenvolve revanches no argumento. As figuras secundárias inver

Ih, ah lá!

Direção: Rafael Ferreira Texto: Kire Zul e Rafael Ferreira Parlapatões | 15/11/16 | 17h Um trabalho corporal extremamente intenso, que desde a comédia transita entre o grotesco, e uma pesquisa corporal no nível da mímica. Com uma trilha sonora quase irônica e o corpo cênico respondendo a cada uma dessas intervenções. Se por um lado, o ator cria uma atmosfera onde apresenta até mesmo um bebê imaginário para os espectadores, o cheiro e o sabor pode ser sentido por conta do corpo cênico. Cantarolando músicas de fácil reconhecimento de qual a origem, e com a experiência de um pai que tenta não só decidir como alimentar, dar banho, e outras atividades com o neném. Sem exceção a critica das fezes

Círculo de Ofensas

Direção: Mauricio de Castro Texto: Marcio Aquiles Dramamix Sp escola de teatro | 15/11/16 | 18h30 O diretor, começa se explicando e dizendo que não vê diferença alguma entre leitura, espetáculo e performance, deixa claro também o fato de que não há diferença entre palco ou ambiente qualquer, pouco tempo, texto bom e o lugar onde ocorre, o próprio papel, o ator e o ambiente em si, capaz de criar em qualquer canto um lugar teatral. Deixa claro também, que se não for possível entender, eles podem repetir e que é importante que todos estejam à vontade. A atriz inicia a cena se maquiando, o radio fala incessantemente do tempo, da chuva e ofendendo cada vez com mais capacidade os que estão ouvindo

1200 clownlorias

Direção: Joana Pegorani Palco via Roosevelt | 15/11/16 | 16h Na nossa sociedade como afinal cada um de nós sente o peso... do corpo, e como se faz para ficar mais leve... O olhar de uma palhaça que muda de perspectiva e percebe que através de outros afetos é possível construir uma rede de relações. A trilha sonora bem precisa e em cima da cena, tira da manga e da mala um tanto de segredos e de perspectivas que devem ser medidas. O cachorro permanece rodopiando em torno do próprio corpo, e a palhaça insatisfeita com o próprio corpo, está a fazer exatamente o mesmo... A relação que podemos estabelecer com isso que coloca a palhaça Songa e nos mostra uma fatia de sonhos não realizados e a difer

Trabalhadores de Domingo

Texto e direção: Vinícius Piedade Elenco: Gabriela Veiga, Julio Aracack, Marcos Lemes, Rose D’Agostino e Taynã Azevedo Dramamix SP Escola de Teatro|15/11/16 | 00h30 Uma jornalista, um boxeador, uma prostituta e um corretor de imóveis do turno alternativo. Quatro monólogos expondo fragmentos de vida, suas histórias, pontos de vista, e algumas vezes os motivos de suas escolhas (suas profissões de domingo). Além do período, em comum os quatro apresentam, na dramaturgia, a exposição de algumas fragilidades que se revelam conforme os fatos narrados tangenciam (ou penetram) a zona de perigo de seus sentimentos -- ora de forma escatológica e orgulhosa, ora tocada por um impropério raivoso etc. Em c

Fragmentos de uma partida

Texto: Paula Autran Direção e Elenco: Stella Tobar dramamix SP Escola de Teatro | 14/11/16 | 22h30 Três das diversas cartas que constituem esse texto, por conta desse caminho feminino e seus diversos motivos de fuga. Parte constituinte de um texto denominado Nos países de nomes impronunciáveis... Se por um lado uma filha pode sair de casa por conta de uma mãe medrosa e repressora, por outro, uma mulher pode abandonar um amor para se achar, bem como, uma mãe pode abandonar um filho para se encontrar. De que conteúdo as cartas saltam aos olhos e ao coração... Não sei direito de que força... Somos feitos, tanto para ir quanto para ficar, mas emociona e arrepia sabermos que sempre há uma possibi

A história do cachorro

Texto: Edward Albee e Vana Medeiros Direção: Cynthia Falabella Elenco: Tássia Dur e Roberta Araújo Espaço dos Parlapatões | 14/11/16 | 23h Duas mulheres no palco, cada uma, vendendo em si o seu próprio pedaço de verdade, perante a própria vida a ser vivida. Engraçado pensar, que não somos o que pensamos ser, somos, na verdade o que vivemos e com isso, nos encaixamos em um tanto de rótulos que quem acaba determinando é sempre outro, seja lá quem for esse outro. Se por um lado são duas as histórias que determinam o fato de que há uma narrativa clara da peça, a história fatídica da relação com um cão e a relação com a forma como os animais se relacionam entre si, os humanos com os bichos e os b

Transcuba

Texto: Alessandro Toller Direção: Luciano Gentile Elenco: Obsessiva Cia: Isabela Delambert e José Motta dramamix SP Escola de Teatro | 14/11/16 | 23h30 Faço cortes para aliviar a tensão, escancara Buck Angel. Faz-me lembrar que vivo bem com alguns deles, o que me ferem são as cicatrizes. Essa coisa com textura que me rememora a todo o momento uma lembrança costurada. Ora pela cerca de arame farpado que foi necessário enfrentar, ora pelos encurralamentos. Indiscutivelmente, as escolhas mutilam. Em “Transcuba”, revela-se o manifesto de corpos trans, que, sem dúvidas, são as encenações mais reais de si. Somos todos mutantes biológicos e estéticos. O que nos impede de ser tudo? Através de cartas

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