Satyrianas 2021 _ por Ruy Filho















__ As cartas que eu não mando

Texto e direção: Daniel de Mello

Direção musical: Renan Francioni

Elenco: Carol Leipelt e Marcelo Alvim

(Youtube)

02.12.21


O amor romântico define não apenas os momentos das pessoas, também da história civilizatória e estética. Explorado à exaustão, sua estrutura tem sido simplificada, pois continua, ao mais básico de algo a ser absorvido. Dessa maneira, o romantismo tomou uma forma imediata e reconhecível ao cumprimento de um mercado voltado ao sentimentalismo prosaico. Perdeu poética e profundidade, ganhou a facilidade de ser apenas a busca do amor reconhecido no outro. E nenhuma outra linguagem foi mais ousada em transformar essas simplificações ao mundo do que o universo pop. Um pop que se camufla pelo interior dos mais variados estilos musicais, cinematográficos, literários e, não seria diferente, cênicos. Aos poucos os teatros musicais deixaram de compor obras grandiosas, sobretudo no que se refere à complexidade de harmonias e cantos, e têm assumido uma especial vocação ao encontro rápido com o romantismo. Mas é preciso esclarecer que tal entendimento não diz respeito ao romântico como estrutura de compreensão do viver, em seus aspectos mais filosóficos, como já fora, e sim no que se pode ler como juvenil, anterior à própria maturidade enquanto estrutura, pelo qual personagens e enredos são condicionados a habitarem um espectro extremamente limitado de manifestação do indivíduo e do mundo. Até por isso, faz sucesso. Não por qualquer deficiência do público ou artistas, mas pela capacidade imediata de comunicar. No simples todos encontramos algo possível de ser comum, uma vez lhe faltar algo maior para suportar sua capacidade de não ser superficial. É nesse comum transferido ao objeto artístico que a suposta profundidade não manifesta se esconde. Ela deve estar ali, e se não está visível é evidente que é mais grandiosa do que imaginaríamos. Em As Cartas que eu não mando, a escolha por substituir as falas dos personagens por músicas pop românticas explora os princípios dessa lógica de simplificação sem correr riscos efetivos nem na dramaturgia nem na musicalidade. Permanece o tom romântico de folhetim com sabor de modernidade, só que sem se ater o moderno ser uma consequência do romântico que, em sua condição, ressignificou desde a arte até o entendimento da realidade. É possível ir muito mais longe e surpreendente no universo romântico. O caminho atual dado ao romantismo, o que inclui com precisão os musicais, como já apontou um dos principais escritores ingleses pop, Nick Hornby, invade a alma e constroi pessoas incapazes de superar o sentimentalismo sob qual se afundam no excesso de melodrama, enquanto explora com capacidade poucas vezes vista, mantendo-as eternamente sonhadoras e inertes à uma fantasia que não faz mais qualquer sentido. Só que, ainda assim, são escolhas. Perder-se nessa jovialidade ficcional insistente pelo amor romântico ou seguir adiante. Também o teatro é feito por escolhas. E cada um sabe e sonha o que melhor lhe convier.




__ Seu texto, meu corpo

De Patricia Galleto

(Youtube)

03.12.21

A experiência do outro deve ser um estado de contemplação sobre como ele se realiza ou afirma a partir de si. No caso de Patrícia Galleto, em si, em seu corpo, gestos, escolhas e traduções das vozes que lhe enviaram por escrito sugestões para a criação de suas 15 cenas curtas. Há dois aspectos nessa coleção: o primeiro se refere ao como a artista escolhe traduzir, em performances ora íntimas e subjetivas ora tipificadas pelo recurso de personagens mais evidentes e narrativas mais literais. Das 15, o segundo grupo é o menos interessante e o menos presente. Enquanto as cenas mais introspectivas possuem a capacidade de aguçar o espectador ao que teria movido a artista nas direções e escolhas apresentadas e quem seriam aqueles que lhe conduziram, mesmo que apenas pelo encontro com sua sensibilidade. De fato, esse grupo maior de performances diz respeito a algo que supera o exercício, pois revela no intraduzível dos materiais originais a tradução não mais do outro, e sim da própria artista. Suas escolhas fundamentam a ela mesma em uma espécie de poética do reconhecimento, na qual seu corpo ambiciona ser o outro sem necessariamente precisar deixar de ser quem é. O segundo aspecto que a coleção provoca ao ser apresentado em sequência é de uma suposta acumulação cuja qualidade final está em revelar-se narrativa. Nos interiores das cenas cabem imagens e informações que a artista parece querer oferecer. Isso se faz especialmente nos poucos momentos em que a consciência antecede o gesto e é perceptível o raciocinar sobre qual o próximo gesto, deslocamento, torção, inversão etc. No surgir espontâneo da consciência ou no seu escapar ao vídeo, dado que talvez não fossem tão perceptíveis se não estivessem em primeiro plano aos olhos de quem a assiste, a artista demonstra dominar estruturas planejadas. Por isso parece querer algo específico, e por isso o específico se configura a associação entre dizes que, em suma, se formalizam na potência de uma narrativa. Com o passar das cenas, a narrativa deixa de ser apenas dela e das vozes que lhe provocaram tais estados para ser de todos. Todavia, corpos não são iguais, e por sorte temos a oportunidade de ter no corpo de Patrícia o estímulo a nossa performatização daquilo que apreendemos. O espectador repete, então, o processo da artista. Deve ser uma experiência profundamente mais radical aos que lhe deram os textos e recebem agora seu corpo como tradução. Só não há como saber, não sendo um deles, se a tradução ao se formular narrativa pelo conjunto da coleção fora capaz de suspender aquilo que se conhecia e dar aos escritores uma nova compreensão deles mesmos. Se sim, algo ainda mais interessante se descobre na arquitetura construída por Patrícia.



__ Vermelho Noir

de Clara Averbuck

(Transmissão ao vivo)

03.12.21


A literatura atual tem articulado uma qualidade de escrita que prima pela agilidade a partir de construções diretas e sem rodeios. E não apenas no Brasil. Mas aqui também é possível encontrar livros e textos impressionantes que se utilizam desse recurso. No entanto, as frases curtas impõem à escrita o risco de se perderem em efeitos ou tentativas de. Requerem agilidade no uso das palavras e no como dar ao pensamento do leitor igual velocidade de sensações, descrições, acontecimentos e vozes. Uma vez escrito, torna-se materialidade de leitura. Ou melhor, leituras. Em silêncio individual, audível, mesmo em solidão, e a outros. Tornar a escrita um acontecimento público é um dilema: como materializar um texto sem retirar-lhe toda complexidade das interpretações subjetivas? Se esse não é necessariamente um assunto da literatura, o é para a dramaturgia, e um dos pontos nevrálgicos de diferenciação entre os dois estilos de escrita. São linguagens com finalidades distintas e isso é fundamental ao sucesso ou não da intenção. Ao ser lido, um livro convida ao leitor uma convivência performativa entre seu corpo adaptado ao objeto em mãos, sua imaginação e a palavra como colocada sobre o papel. Ao ser dita, uma dramaturgia convida quem a traz à cena a performatizar em seu corpo as imaginações possíveis daquilo que considera relevante tanto nas palavras quanto no não dito. O teatro, especialmente, é o espaço também do não dizer, daquilo que na palavra se esconde. E esse é o problema da cena-leitura apresentada por Clara Averbuck. Não sobra espaço para o público adentrar ao interior das palavras, como quem vai mais a fundo em busca da personagem ou mesmo da escritora. E isso não por consequência das frases curtas, em verbos fortes e violentos, por vezes apenas uma palavra seguida de ponto definitivo. O problema não está no estilo. Contudo, quando trazidas ao palco, as frases não suportam os efeitos quais planejam aos espectadores, e a intenção se esvai na espera pelo desfecho que lhe resta, sem muito o que participar e incluir da própria imaginação. A questão, então, é a apresentação dar ao espectador algo que não lhe exija a ação de imaginar. Diante o assertivo, só lhe resta a contemplação. Vermelho Noir conta uma trajetória de brutalidades e horrores, mas, em nenhum momento, avança sobre essas sensações na estética de como as apresenta. Mesmo que apenas uma leitura, a voz e o corpo são partes da cena e precisam ser a dimensão mais plena ao encontro com o que se oferece. Não é o caso. Pode ser que na literatura apenas dizer algo seja estruturante posto que as palavras determinam o percurso a seguir. No teatro, dizer alguma coisa é uma parte mínima do que lhe é possível e, como o contemporâneo tem provocado e comprovado por muitas vertentes estéticas e performativas, inclusive as palestras performativas e leituras, às vezes o dizer nem mesmo é necessário. Porque cabe mesmo tudo em um palco; só que ele se vinga.



__ A crise do discurso como substantivo masculino

Núcleo de Pesquisa do Grupo XIX de Teatro

Orientação: Juliana Sanches.

Artistas/criadoras: Daniela Schitini, Danielle Lima, Drica Czech, Giovanna Paiva, Heloisa Nogueira, Jéssica Faria, Maria da Guia, Maria Lúcia Branco, Patricia Sampaio, Rosinha Canuto, Rudá, Sabrina L B e Silvia Diaz

(Zoom)

03.12.21

Desnudar-se, substituir o rosto com materiais diversos, enrolar-se em plástico-bolha, substituir a fala por papéis sulfite são algumas das performances que compõem o vídeo gravado apresentado pelo Zoom, resposta ao encontro de diversas artistas com o Grupo XIX de Teatro, cujo aspecto central é problematizar o discurso que se constitui sobretudo pelo masculino como estrutura de organização de visões e ideias. Entre gestos cotidianos do fazer doméstico, mulheres de diversas idades surgem confundindo propositadamente a identidade coletiva às individuais. Faz parte de serem um grupo, ao qual se quer reconhecimento como tal, e isso é importante. Por ser apresentado em sua versão editada, explorando as possibilidades de composição com imagens simultâneas, a obra também se apresenta pelo viés de aproximação com a vídeo-arte. Partes do corpo em closes, falas simultâneas, trechos coloridos e não, telas múltiplas com repetições da mesma cena e telas que colocam em diálogo performers e cenas distintas. O vídeo final trata-se de uma investigação sobre os corpos, enquanto suportes simbólicos como pede a performance, e as novas aberturas trazidas pelas plataformas digitais, sob as quais o vídeo ganha propriedade performativa com igual corporalidade. No entanto, é preciso assistir com mais atenção quais são as performances executadas e quais os recursos visuais trazidos pelas câmeras caseiras e celulares. E são esses os problemas mais complexos ali. Vamos em partes. As performances criadas partem de recursos físicos, materiais e estéticos há muito requisitado, repetindo procedimentos gastos e previsíveis. Assim como a performatização da tela, ainda que nova, excessivamente igual a tantas outras mais. Entre os corpos e imagens, técnicas e recursos a obra parece já superada pelas próprias decisões. Que o tema ainda precisa ser expandido em milhares de outras possibilidades de percepção sobre como o masculino configura ao mundo um equívoco inquestionável, ao tempo em que o feminino se reativa como nova estrutura de pensar a vida e o sujeito, não há dúvida. Mas é preciso alcançar outro dispositivo lógico estético e retórico se se quer formular novos signos e representação aos conceitos. Sob quais bases, o núcleo de pesquisa fundamentou as escolhas para que terminassem sendo as mesmas de sempre? Basta reunir referências incontornáveis para que uma criação de fato supere o risco da obviedade? Ou seriam Tarsila do Amaral, Frida Kahlo, Francesca Woodman, Vivian Maier, Adriana Varejão, referências muito próximas as que sempre são trazidas? Por fim, o tom dramático dado aos textos confronta a performatividade pretendida e inverte aquilo que poderia ser uma ação de investigação a um ensaio minuciosamente elaborado à construções de personagens de si mesmas e não a performatização de uma identidade que teria como maior interesse seu estado singular ao como a ação é vivida e respondida. Na soma do apresentado falta maior amplitude e verticalidade aos vocabulários escolhidos, por isso os mesmos. Talvez o primeiro exercício ao núcleo precise ser investigar as amarrações que os impede de ir além.




__ Primavera. Um verbo

De Lucas Moura.

Direção: Janaína Castro.

Elenco: Millena Conceição e Nicole Sampaio.

(Zoom)

04.12.21


O início traz o aviso: esta é uma peça para jovens. Mas Lucas, o dramaturgo, está equivocado. Esta é uma peça para o que ainda nos resta de humanidade e serve e diz sobre todos. Ao tratar a memória como futuro, em uma espécie de saudade ao que virá, Primavera, um verbo faz das ocupações estudantis (2017) o espaço ao surgimento do político de do amor. Há algo em comum, e nem sempre é obvio. Antes, porém, o futuro qual se reconhece acontecido costura o arcabouço de quem são aquelas que conversam. A inteligência de um texto ágil que não recusa o poético é algo extremamente complexo de alcançar. Só que Lucas o faz parecer fácil e simples. A maneira como articula as informações no interior das emoções descritas conduz o espectador a um mergulho na história sem se queira retornar. É preciso ir junto e descobrir instante após instante as duas almas, seus medos, seus desejos, suas descobertas, seus finais. Ou novos inícios. Portanto, de fato tudo ali diz respeito ao tempo. Tanto como estado de percepção do eu, quanto política de presença ao mundo. Se para Lucas a peça traz uma configuração juvenil é porque, como demonstra, a juventude é a melhor possibilidade de tornar a percepção o movimento absoluto de consciência sobre tudo. Por não lhe caber explicações banais, a consciência requer encontrar algo que lhe conduza ao outro pela condição da própria descoberta. E o que melhor do que se apaixonar do que isso? Faz sentido, então, a escolha pela ação das escolas ocupadas ser desdobrada de um poema, pois no interior deste não estão apenas anseios e tentativas e sim outra dinâmica de se colocar à realidade que exige alguma radicalidade de movimento em sua reconfiguração. Escrever um poema não é tão distante do saltar muros; ambos quererem invadir e encontrar. Poemas são invasões aos afetos; ocupações são invasões das regras. Poemas encontram sonhos; ocupações encontram vozes. Tudo, portanto, é escolha de ação, gesto, verbo. Também as paixões florescem aos afetos verbos comuns. Flor da pele, como explicam. Flores pretas que ocupam a pele como resistência a um existir cuja ocupação de suas memórias só pode ocorrer se idealizado outro futuro. No tempo do instante em que presente e futuro se tocam, a leitura sem disfarce, textos em mãos, acerta na escolha do elenco. Milena Conceição traz uma maturidade que reconhece o trajeto qual virá, com sua interpretação segura e objetiva; enquanto Nicole Sampaio encanta com uma doçura inesperada que cativa mais e mais, minuto após minuto, na expectativa da atriz que certamente será imensa, e que, por ora, é gentil o suficiente para ter a idade que tem e em nada ingênua. A soma entre as duas é arrebatadora. A sensação é de que poderia ouvir Lucas e assistir as atrizes por muitas horas mais. E que, verdadeiramente, eu preciso que isso aconteça. Para além de todas as mensagens políticas, sociais, culturais que o texto sabe costurar com rara competência, Primavera, um verbo, em direção limpa de Janaína Castro, optando por registrar as atrizes sob fundo branco, com pequena angulação das câmeras e sem esconder os textos em mãos, faz o teatro ser novamente apaixonante como arte de desvelamento do humano. Nesse sábado de muitos espetáculos, preciso de uma pausa. Vou escolher assistir ao pôr-do-sol e tentar encontrar minhas memórias de amanhã. Para quem sabe assim, lembrar um pouco que, apesar do mundo e do horrível que nele insiste aos corpos e ideias, talvez haja sim caminhos de voltarmos a ser apenas o comum de um ao outro.



__ Ferrugem ou A praga de vossas hortas

De e com Alice Rocha.

Direção e cenografia: Lili Fernandes

(Zoom)

04.12.21

Quem se é no intervalo que se forma entre aquele que se idealiza ser e que se forma pelos acontecimentos? Na composição de uma identidade evasiva situa-se uma presença que o próprio indivíduo desconhece. Um outro de si mesmo, que não diferente por existir distante, mas por surpreender ao aguardar escondido a necessidade de existir. Alice Rocha constrói a narrativa de uma mulher que todos conhecemos. A figura da mãe e esposa cuja identidade deixa de ser própria para ser uma combinação confusa e cruel de suas funções sociais. Por trás, a gama infinita de sensações e valores que ora assumem as responsabilidades impostas pelo patriarcado, ora se transfigura em fera pronta a explodir as grades mentais. Ferrugem poderia ser mais uma abordagem dessa narrativa, como tantas vezes vemos encenada. No entanto, as artistas encontram um caminho profundamente simbólico e próprio para superar o conhecido. Na escolha pelo registro em preto e branco, o narrado assume a potência de haver ali um mistério. Não somente pela falta de cor. O principal é como a iluminação acesa, porém focada sobre a lâmpada suspensa, desenvolve com a presença da atriz uma estrutura estética própria. Intercalando escuro e claro, o preto e branco também se faz contraste multidimensional da personagem. Nem sempre ela está consciente quando a sala está clara; ou em tormento envolto pela escuridão. As nuances entre o indivíduo e o meio são extremamente mais fragmentadas e a lógica reinante deixa de ser o eu, o estar, o que é dito, onde se está, a quem se fala, sobre o que, para ser sobre que se descobre ser e o quanto o entorno é uma ilusão incapaz de fornecer qualquer estabilidade, ainda que se mantenha em uma assustadora calma ou espera. Por optarem em não dar o eu como plano primeiro, são as mãos, os gestuais, seus excessos de movimentos em contraposição ao corpo sereno e, quase sempre, tom de voz sutil e amigável, o mais perto do espectador. Numa espécie de apelo por vida, como se estivessem aprisionadas a um corpo inerte, as mãos ambicionam para si os gritos e desesperos. Eles escapam como uma esperança de lucidez diante uma solenidade artificializada pela morte do sentir. As mãos são, em todo o espetáculo, as personagens que movem o indivíduo à tragédia e às sobras dessa identidade seus últimos respiros de existência. Alice Rocha atua como a precisão de quem sabe como gostaria de alcançar cada uma das palavras por ela escrita. Na sobreposição entre a dramaturga e a atriz, há a profundidade de uma artista capaz de surpreender sem precisar ir longe demais ou inventar demais, consciente, desde sempre, em dialogar com o público a partir de si.



__ Cinzas em Berlim

Texto e direção: Paula Autran. Elenco: Marcos Suchara e Luisa Helene

(Transmissão ao vivo)

04.12.21


Um último encontro; o corpo que agora é cinzas. Nesse encontro, memórias e pensamentos se intercalam durante o tempo em que a percepção dos fatos de outrora e do instante se confrontam. E para isso, Paula Autran deixa em cena o corpo do homem que não mais está. E está. Ali, no interior de uma caixa que deve ir ao mar daqueles jovens quando amantes. O recurso dramático e cênico trata de uma estratégia comum ao teatro: dar corpo à voz e dar presente a quem permaneceu no passado. Tal arquitetura quase sempre serve ao desenhar dos próprios personagens, que ora comentam sobre eles mesmos ora explicam um ao outro endereçando os comentários ao espectador. Então são quatro em cena: ela, ele em cinzas, ele em voz e o público. A narrativa decorre das intersecções entre todas essas presenças. No entanto, o próprio dispositivo impõe limites à narrativa que se faz descritiva e explicativa, enquanto a ação se resume a um momento quase sempre trazido como conclusão. Não é diferente em Cinzas em Berlim. O texto se esgota logo que o compreendemos, mas ainda é necessário chegar ao fim. O que poderia dar espaço a desdobramentos inesperados sobre os personagens acaba aprisionando-os também por não lhes caber outra realidade que não a de executar o último acontecimento. É um labirinto complexo que a autora se coloca e nem sempre superável sob óticas dramáticas. Seria importante tudo aquilo que circunscreve para além do momento habitar os corpos e os silêncios, em uma não-tradução da literalidade de suas emoções. Seria mais inquieto se o momento fosse algo para além de um desvio da história, pois em verdade essa seguirá o caminho a partir dali. No contexto de uma normalidade friccionada pelo inesperado, a memória pode ocupar um espaço de desestabilidade e não de suporte às certezas, descobertas e tentativas. Quem seriam os personagens se tudo aquilo que deveriam ser ruíssem? E o que, de fato, lhes importaria para seguir? E eles estariam interessados em seguir mesmo assim? Há ecos de respostas possíveis de serem recuperadas no texto como está, contudo, não com a potência capaz de torná-lo um ambiente irrespirável. Cinzas em Berlim realiza a linearidade de sua narrativa pontuando os espaços que nela devem ser preenchidos pelos personagens ausentes e presentes, só que retira o espectador, convidado desde o início a integrar esse diálogo entre suas vozes, da arquitetura em si. Fica o paradoxo de ser o espectador uma espécie de ouvido necessário aos que estão em cena, enquanto não tão necessários assim aos esconderijos produzidos pela própria cena. Mais do que personagens e um acontecimento, o teatro pode ser especialmente a chance de duvidar de tudo. E em Cinzas em Berlim, as certezas são excessivamente corretas demais, inclusive sobre aquilo que acredita ter espaço para duvidar.



__ Eco

De Carol Pitzer e Malu Frizzo Orientação artística: Lubi Marques Elenco: Malu Frizzo

(Zoom)

04.12.21