Satyrianas 2019


PROJETO DIÁLOGOS faz parte do Satyrianas desde 2010

CRÍTICA IMEDIATA: as resenhas são escritas imediatamente após o término dos espetáculos

__ Pequenos Perversos Polimorfos

De: Helder Parra

Direção: Higor Lemo

Elenco: Carla Roeher, Gabriela Fazuna, Helder Parra, Higor Lemo, Paula Barros.

Espetáculo SP Escola de Teatro

Logo de início, os atores nos lembram de não ser possível vivermos em constante manifesto. De fato é preciso mais ao indivíduo para superar as insistências imposta por um cotidiano que tanto nos requer assim e, por conseguinte, nos limita a esse estado de existência. Por serem muitas as maneiras de existirmos, inclui-se a alguns também a condição do ser artista perante a complexidade da própria época. É nesse entrucamento que o espetáculo inicia seu processo de aproximação com o espectador: revelando-se manifesto, em paradoxal discurso sobre quem se é e o momento. Se não cabemos manifestos todo o tempo, o mesmo pode ser dito à arte enquanto manifestação. Mas como erigir uma experiência diferente ao outro se a própria ação é iniciada por discursos?

Construída por textos e cenas independentes, a colagem não necessariamente prejudica o andamento do espetáculo e poderia ser uma boa estratégia trazida junto a direção. A fragilidade – ainda que os textos sejam em sua maioria interessante – é a desconexão entre as partes fazendo com a estrutura não atinja uma totalidade, salvo a quem acompanhar na colagem uma espécie de sobreposição de ideias e sensações. Novamente as ideias são essenciais ao entendimento do que se quer atingir. E ideias trazem sempre o risco inevitável de se portarem manifestos. O que pode confundir a estratégia do espetáculo é o próprio entendimento do que seriam manifestos. Ao se atribuir qualidades poéticas a um instante, não lhe retira a possibilidade de acontecer ao outro por tal perspectiva. Ao contrário. O questionamento da realidade ou das imposições políticas, culturais, sociais e outras condiz com a subversão de sua experienciação pelo parâmetro inverso. Não mais a crueldade e violência, e sim a docilidade, o convite e o toque gentil de um abraço que metaforiza um beijo entre pessoas e não apenas corpos e o que neles são vistos ou determinados.

Reconhecer o outro como alguém presente é a dimensão mais ampla apresentada pelo espetáculo, só que é necessário assumi-lo enquanto manifesto, por mais que isso possa parecer estranho. São os dilemas desse momento aos quais criar argumentos e contradições exigem dos artistas uma imensa capacidade de subversão. Durante toda a apresentação é exatamente esse o tom que falta para que manifestação e contraponto se coloquem em fundamentais confusões: subversões. O exercício estético dialoga com eficiência aos códigos das emoções quais quer atingir e construir. No entanto, há tanta precisão e controle no minimalismo de cada momento, presença, entrada, saída, canção, fala, iluminação que a própria emoção, se alcançada, determina sua potência como manifesto, ainda que em busca da humanidade do espectador.

Não fosse o primeiro instante, em que se coloca em dúvida o argumento qual acabará sendo utilizado a seguir, tanto como conceito quanto estratégia, o espetáculo seria um apelo intuitivo a favor dos convites e não apenas das vontades. Como apresentado, Pequenos Perversos Polimorfos traz artistas com vontades e sinceridades grandiosas, nada perversas e muito bem definidas em seus ideais. Um pouco de caos e perigo ajudaria a duvidarmos se suas próprias manifestações.

É preciso terminar observando algo inesperado: poucas são os espetáculos recentes com canções tão belas em voz tão íntima. Um cantar q, tanto mais do que um abraço coreografado, esse sim beija o público como um sopro de um manifesto poético inclassificável.

POR RUY FILHO

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__ Entre o trem e a plataforma

Texto: Utópica Cia Teatral e finalização dramatúrgica de Daniela Carinhanha e Diego Lima

Direção: Diego Lima

Elenco: Bianca Oliveira, Daniela Carinhanha, Diego Lima, Nathalia Della Fuente e Vinicius Secco.

Espetáculo

Giostri Livraria Teatro

É sobre o abismo entre o trem e a plataforma, sobre o vão, vala diante de seus pés que o texto da leitura dramática de "Entre o trem e a plataforma" se adensa. Há um abismo que precisamos cruzar cotidianamente nas grandes cidades. O olhar atento precisa deixar os pés em estado de prontidão ou então você é sugado para esse espaço oco em que seguem os trilhos. É nesse espaço entre, meio, nesse espaço vazio, onde a poesia do texto ganha contornos. O vão é o espaço que separa quem fica, quem está, o presente (plataforma) de quem vai, de quem segue, o futuro (o trem). Nesse sentido, a poesia traças linhas mais concretas ao trazer a naturalização da paternidade ausente e não assistida. Segundo o IBGE, existem no Brasil 5,5 milhões de crianças sem pai no registro. Em um Brasil sem pai, o termo mãe solo tenta dar conta da infinda quantidade de mulheres que precisam criar seus filhos sozinhas e de forma autônoma. O texto expande a metáfora, a poesia e os dados reais para criar inúmeras imagens para as cidades “Alegra”, onde só quem vive são mães, mulheres e filhos abandonados pelos pais; “Progresso” e “Tortura” – cidades inventadas que bebem na poética de Ítalo Calvino. O texto aponta para um tanto de possibilidades imagéticas que estão enraizadas nesse nosso imaginário que naturaliza a paternidade ausente criando paralelos entre os antônimos "ir" e "ficar" e toda a dor e delícia que os alimentam. As duas palavras precisam ser sempre compreendidas conforme o ponto de referência, mas por que estamos acostumados a lidar com a imagem da mulher que fica e do homem que vai? Da puta que pare e do pai que parte? O texto “Entre o trem e a plataforma" nos convida a refletir sobre a plataforma como a mãe que acolhe e ali está sempre presente para ser seu chão; o trem como o pai que seu fluxo natural é seguir, passar, ir em frente; e o vão como a criança que vive nesse espaço-meio, na busca por conectar-se a um dos lados. Nessa busca, a esperança é alimento para quem desconhece o outro. As crianças crescem em “Alegra” sob o julgo do abandono de seus pais que, assim que ouvem o apito do trem, são tomados pelo desejo súbito de seguir, sem olhar para trás, sem compreender que a vida tem passado e presente e não apenas futuro. Elas crescem no estigma de que a vida se repita, assim como se repetiu com sua mãe, sua avó, sua bisavó. A esperança dura o tempo da chegada de um novo trem e da partida de um novo pai. Como romper esse imaginário reproduzido, como construir fugas e novas rotas de vida?

POR ANA CAROLINA MARINHO

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__ Entrevista compulsória

De Fábio Brandi Torres

Direção: Fernando Haro

Elenco: José Netho e Keila Taschini

Dramamix

SP Escola de Teatro

Um jornalista escreve uma matéria sobre escritores reclusos e acaba divulgando o endereço de algumas casas. Fãs começam a invadir as casas dos escritores reclusos. Uma das escritoras arma uma armadilha de urso em seu jardim. Um fã cai na armadilha. A escritora, apesar de alegar que a armadilha era parte de sua pesquisa para a escrita de um livro, é condenada a pagar cestas básicas e a fazer uma entrevista compulsória. O jornalista que faz a entrevista é o mesmo que fez uma matéria onde seu endereço acabou sendo divulgado. Nessa sequência de causas e efeitos, a dramaturgia dessa cena curta é construída. Os atores brincam e jogam com com os personagens que ora se sentem acuados, ora se sentem poderosos. O poder que cabe a cada resposta é a sacada que conduz o emaranhado da dramaturgia. A rapidez das perguntas não supera a sagacidade das respostas. A curiosidade é a armadilha de urso, instiga e captura o olhar desatento. É exatamente isso que nos instiga: esmiuçar a dor até ver o outro pelo avesso ou até encontrarmos algo que o incrimine de vez. É assim que “Entrevista Compulsória” se desenrola, aproximando-se de estratégias próprias da televisão em que ficamos absortos diante de entrevistas com suspeitos de crimes hediondos. O Fantástico é sagaz nisso. Arma uma entrevista antes mesmo da prisão do suspeito. A televisão constrói o tribunal, o entrevistador é ora promotor ora advogado de defesa, o entrevistado o réu e o telespectador o júri popular que deve definir se o entrevistado é culpado ou inocente. Em “Entrevista Compulsória” a entrevistada porém não nega que armou a armadilha de urso, a finalidade é que fica em aberto, abrindo um leque de possibilidades e de conclusões sobre o ocorrido. A um dos personagens cabe apenas perguntar e ao outro responder. Cada pergunta, porém, é repleta de supostas respostas e de condenações. As respostas por sua vez abrem infindas portas. Nesse jogo de desvender as motivações e compreender a entrevistada/réu somos absorvidos pela sua mente. Ela arma inúmeras outras armadilhas em sua casa e em suas respostas. Para sair ileso, é preciso relembrar exatamente o caminho feito para chegar. Mas você lembra? Provavelmente seremos capturados pela nossa ansiedade e curiosidade em chegar logo sem notar o percurso, sem prever os obstáculos.

POR ANA CAROLINA MARINHO

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__ Vida que segue

Texto: José Simões

Direção: Hamilton Sbrana

Elenco: Maria Helena Barbosa e Júçio Scandolo

Dramamix

SP Escola de Teatro

“Sempre nos acostumamos com as repetições”.O diálogo acontece enquanto as caixas de mais uma mudança são empacotadas. No corpo, sinal do tempo. Velhas memórias de uma vida que caminha mais próxima do fim do que do início.Com uma abordagem delicada e envolvente, um pequeno frame na vida desse casal nos leva a refletir sobre vida, morte, perdas e nos faz indagar sobre as mudanças naturais e propositais da vida.Questionamentos profundos e necessários.Quantas vezes será que eu mudei?Mudei de forma, de lugar, de opinião, de gosto, de um grupo para outro, de trabalho, de casa.O que foi consciente e o que simplesmente aconteceu? Onde as minhas escolhas me levaram? O que foi deixado ou perdido pelo caminho? Desde simples objetos até a infância. A troca da boneca pelo salto alto, o adeus às pessoas que amei, àquelas que me desvencilhei. Os lugares que nunca retornarei. A juventude que passou como um sopro. A idade adulta que levou meus melhores anos com todas as responsabilidades, a idade madura em que sinto que faço hora extra.“Sempre nos acostumamos com as repetições”.E quando nos cansamos? Em que momento esta dádiva deixa de ser?A preparação para uma vida inteira que termina em morte. Esta última também requer preparo.Podemos escolher quando partir? O que deixar para trás? Mesmo que esta escolha seja deixar o corpo para trás?Momentos sensíveis e sinceros.Ao final, somente o “eu” é dono das memórias, das lembranças, das escolhas e do elemento principal, chamado existência.A cada mudança mais leves e livres nos tornamos. A liberdade é um direito e pode ser sim também uma escolha.

POR RENATA ADMIRAL

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__ Uma vida qualquer

De Rodrigo Soares

Direção: Thiago Brianti

Elenco: Cibele Gonçalves, Dani Bavoso, Roberson Lima, Stephanie Lourenço, Tales Ordakji

Espetáculo

Estação Satyros

30 minutos, uma leitura dramática e a certeza de ver um ótimo texto na boca de ótimos atores. “Uma vida qualquer” mergulha nas reverberações de um atropelamento na vida das pessoas que o presenciam, mas não se trata de compaixão e alteridade, ao contrário, refere-se ao descaso, ao desamor e a morbidez que brota quando nos deparamos com um obstáculo, um impropério ou quando lucramos com um evento triste. Não se trata de culpa ou ressentimento, ao contrário, apenas refere-se a como se sair bem diante de uma situação, por mais traumática que ela seja. Não se trata tampouco de resiliência, visto que os corpos das personagens (com exceção da mulher do morto) não reconhecem o choque, o trauma, apenas olham para a situação e buscam saídas que os presenteiem com algum tipo de promoção social, emocional, financeira... Impossível não refletir sobre o que é falado dentro de um vagão do trem quando o motorista avisa que o trem está parado devido a usuário na via, vulgo acidente ou suicídio. Retiradas as exceções raríssimas, o que se ouve é “precisava se matar e atrapalhar a vida de tanta gente?” ou “logo agora alguém decide se jogar?” ou ainda “agora conseguiu atenção”. “Uma vida qualquer” traz à cena um humor mórbido, com um ritmo que nos presenteia com frases inesperadas, quebras de expectativas e risadas desconcertantes diante de personagens que apesar de arquetípicos encontramos correspondências reais com o nosso cotidiano, provoca no espectador uma sensação ambivalente entre a risada perante o inescrupuloso e o distanciamento diante da compaixão forçada. Corpos estão estendidos no chão, corpos comuns, desconhecidos ou sem nomes, e comumente travamos duas saídas possíveis: ficar e filmar ou seguir e esquecer. Talvez até lembremos por alguns instantes, até que precisaremos, logo mais, atravessar um novo corpo estendido e seguir, afinal não dá pra sofrer ou se compadecer toda vez. Entre a virtualidade e o desamor, seguimos atravessando corações e vidas inteiras expostos no asfalto quente das grandes cidades. Somos as ervas daninhas crescendo nas fissuras das calçadas.

POR ANA CAROLINA MARINHO

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__ No Coração da Civilização

Texto: Flávio Goldman

Direção: Hugo Coelho

Elenco: Décio Pinto, Marcelo Marathony e Patrícia Gordo

Dramamix

SP Escola de Teatro

Representar o presente a partir do teatro não é incomum e tampouco desimportante. O aspecto cronista faz da cena um encontro com o imediatismo do instante e dos acontecimentos enquanto oferece maior aproximação do público a uma leitura mais incisiva de sua realidade. Ainda que isso seja menos instigante enquanto projeto artístico, ao dramaturgo requer um profundo olhar sobre a realidade, afim de traduzi-la por ângulos inesperados e fundamentais. Dessa maneira, o dramaturgo cronista utiliza-se da linguagem teatral para contemplar a realidade e desta como material de desvelamento de seu tempo. Encenar tais espetáculos não exigem, todavia, a mesma utilização do real, da realidade ou da verossimilhança. Os melhores exemplos em nossa própria história são mesmo os espetáculos em que encenadores subverteram a lógica realista das crônicas retirando-lhe o aspecto hiper-representativo para criarem linguagens próprias. Mas há um vício que estabelece a maneira de representar o real e ele não vem necessariamente da prática teatral e sim do nosso convívio com o televisivo. A confusão é ainda maior, quando se passa ao caricato ou construções de tipo, como quem quer, por tais recursos, afastar do televisivo e afirmar qualidade teatral.Muitos desses labirintos são explícitos em No Coração da Civilização. Ao tempo em que a dramaturgia de Flávio busca instituir tipos e acontecimentos para traduzir e representar o presente, a direção de Hugo intensifica ainda mais a tipificação ao escolher atuações exageradas. A consequência é o achatamento dos personagens que deixam de dialogar ao presente pela qualidade de arquétipos para se apresentarem recortes limitados. No contexto atual, escolher tais caminhos parece um facilitador à realização do trabalho. Uma vez imediato o entendimento de personagens e narrativa, sobra ao espectador acompanhar o desenrolar até sua conclusão. O teatro, por sua vez, deixa de existir como acontecimento à experienciação do mundo, do civilizatório, do humano, para servir ao cumprimento de revelações. Mas quais, já que o assistido é exatamente o esteriótipo da realidade reconhecida? É preciso que o espetáculo, em suas diversas estruturas, elabore um jogo ainda maior sobre o real - não apenas por metáforas ou informações a serem descobertas, tal como se insiste no entendimento do dramático – afim de colocar o próprio real em desconfiança diante o que dele se reconhece. Por isso a importância de uma direção que recuse o literal ou caricato a partir do proposto pelo texto. Um espetáculo cujo valor esteja na dimensão de sustentar a realidade a partir da ampliação de suas dúvidas e não obviedades. Somente assim, tornado o teatro um exercício de pensamento dialético e simbólico se atingirá a realidade em seu dinamismo e mutabilidade. Como está, pouco supera do próprio querer estar em cena, o que é sempre um bom estímulo para fazer teatro, correndo o risco da importância ser mais própria do que coletiva.

POR RUY FILHO

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__ Trinta

Texto: Renato Andrade

Direção: Renato Andrade e Tatiana Ribeiro

Elenco: Alberto Pereira Jr, Alex Huszar, Angelina Trevisan, Cintia Takeda, Di Pimenta, Drica Czech, Erica Massis, Francisco Costa, Fernanda Estapafúrdia, Gabi Costa, Gabriela Lois, Gerson Almoster, Gui Conceição, Gustavo Barbiero, Iona Damiana, Letícia Tozelli, Maira Cardoso, Maíra Machado, Mari Morena, Maria Raro, Marília Viana, Marlene Prado, Michelle Gabriolli, Osmar Pereira, Patrícia Vieira Costa, Rejane Souza, Renan Lucena, Renan Suto, Roberta Figueira, Rony Álvares, Sandra Lira, Stephanie Degreas, Tatiana Ribeiro, Vicente Hugo Pereira e Warner Borges.

Dramamix

SP Escola de Teatro

O clima é de festa e somos convidados a participar e, quem sabe, nos permitir embarcar nesta proposta coletiva. Festa de quem e para quem?As rodas de conversa são estabelecidas pelos anfitriões. Monólogos políticos, sociais, culturais. Histórias. Mais importante do que a fala é a interação das pessoas dentro deste movimento.A possibilidade da escuta. A tentativa. A troca ocorre, vezes interessada, por muitas vezes desinteressada. Confusão de sons. Vozes dissonantes.Entre tantas, uma frase me chama a atenção: “o que se diz quando está precisando morrer”.O que se diz, como se diz? Como ganhar a atenção do outro? Como se fazer ouvido? Compreendido? Como estabelecer esta relação na vida, no palco, a dois, em grupo?O sentimento que fica é que o ser humano está surdo em relação ao outro, em relação ao que é diferente, em relação ao que é incômodo.A festa gera desconforto. O exercício de calar e escutar.

POR RENATA ADMIRAL

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__ A todos os homens que nunca me amaram

De Carol Caldas e Amanda Cristie

Direção: Carol Caldas

Elenco: Amanda Cristie

Espetáculo

SP Escola de Teatro

Gatilho certo para que meu coração amoleça: é sobre a minha vida, diz a atriz. O público é disposto como quiser, ocupando o espaço vazio, não fosse o corpo da atriz em pé presente e inteiro, convocando a escuta e o olhar atentos. Parte do público sofre da condição que eu: baseados em fatos reais é um convite para olhar com mais compaixão para a obra; outra parte se distancia, acessa o celular como para fugir do que presencia. Será o cansaço de ver tantas histórias dolorosas sobre abusos e violências contra a mulher? Será a forma como se fala sobre o assunto que desagrada? O que será? Como olhar para o outro que se oferta em estado físico e em realidade e se desviar da presença? A atriz Amanda Criestie revela algumas experiências traumáticas que marcaram sua infância e que seguirão consigo, estão inscritas em sua história, em seus medos e temores, em seus amores. “A todos os homens que nunca me amaram” provoca, desde o título, o perfil de seu interlocutor, convoca os homens a dialogar, a olhar para suas ausências em presença, a olhar para a violência de seus desejos e gestos, a perceber as mágoas e traumas que suas liberdades excessivas causam. As mulheres por sua vez seguem em comunhão com a atriz, ainda mais quando suas presenças são convocadas em ações interativas. O olhar de Amanda Cristie nos conduz com bravura e serenidade, sua fala é certeira quando olha para o público e dialoga, reconhecendo a presença dos distintos corpos que compõe a plateia. É nesse momento que o texto brinca entre a poesia e a concretude, entre o cotidiano e as palavras que vivem nos sonhos. É quando a presença da atriz se expande em partilha. É, porém, quando ela se afasta em momentos mais dramáticos e encenados que aquela distância provocada em algumas pessoas da plateia se apresenta com mais força. Uma mulher pega o celular, ri sozinha e bufa. O que o espetáculo provocou dentro dela para que seu corpo reagisse dessa maneira? Por mais que nesse momento seja um pouco mais difícil de ouvir, dada a disposição do público, não consigo parar de pensar que o espectador é também cruel com os gritos e sofrimentos da personagem, ainda mais quando ela se apresenta como real. “A todos os homens que nunca me amaram” provoca ao transitar entre o depoimento e a encenação de forma simples. Que as nossas falas sigam, cada vez mais, convocando homens e mulheres para o diálogo, com a inteligência da ternura, e que os desconfortos também nos mostrem caminhos para refletir.

POR ANA CAROLINA MARINHO

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__ Um Homem: Síndrome

Texto, direção e elenco: Nathalia Lorda, Rubens Rewald e Thaís Almeida Prado

Dramamix

SP Escola de Teatro

Poucos projetos em dramaturgia se colocaram tão abertos ao experimentalismo como Um Homem, de Rubens Rewald e Thaís Almeida Prado. A partir de uma dramaturgia em quatro atos curtos, ano a ano, os artistas aproveitaram o Dramamix para erguer e colocar em cena cada parte. Convidando o público ao convívio com o work in progress dessa escrita, o tempo passou e agora o trabalho aponta ao mais próximo de sua conclusão. Ao menos no que se refere ao enredo dramático. Uma mulher muda-se para São Paulo e, enquanto convive com a festa dada pelo homem com quem divide um apartamento reflete sobre como foi chegar ali, ao término depara-se com o corpo de um morto em sua cama. Os atos buscam conduzir o espetáculo por meio do percurso reverso nessa trajetória, levando o espectador e aguardar o próximo momento para decifrar melhor o todo, nessa espécie de perspectiva cinematográfica que pouco se explica se proposital ou casual. São cenas de memória ou recortes de edição. Tanto faz. O efeito tem a mesma eficiência de produzir curiosidade à narrativa e ao desfecho, sobretudo sobre a personagem central.Na edição desse ano, incluiu-se ao projeto Nathalia Lorda. Não mais apresentado como cena em processo, o texto foi pela primeira vez lido integralmente por ela e Thaís sem que fosse acrescida qualquer outra personagem. Desviando do risco de tornar a voz solo em um espelho sobre si mesma, as atrizes conduziram as falas e pensamentos a uma desconstrução plena. Por manterem seus próprios estímulos ao lido, a personagem renasceu dúbia sobretudo em sua lucidez. Em qual das vozes manifesta sua existência passou a ser um jogo muito mais complexo ao espectador. O que se deve, e muito, a fuga de permitir a afirmação da fala na forma de um jogral banal. Não foram poucos os momentos em que uma era a vírgula da outra e que pausas se travestiam como esperas.Nesse novo experimentar o texto, dessa vez duplicado sobre sua própria voz, Rubens encontra um caminho mais próprio ao teatro do que ao cinema, e o que é tão evidente na escrita e nos momentos, agora passa a articular uma teatralidade mais pautada na presença. A narrativa deixa de ser o centro fundamental à existência da personagem para ter na presença o argumento necessário ao deslocamento da ação até o surgimento de uma narrativa. Tanto quanto se discute na contemporaneidade a urgência de deslocarmos o Sujeito a novos modelos de pertencimento histórico, Um Homem: Síndrome parece querer revelar ao Sujeito o seu não pertencimento a história, salvo quando esta existir a partir de suas dinâmicas mais desestruturantes ao ser.Em um processo que leva já alguns anos de trabalho, pesquisa, envolvimento e tentativa, enfim o teatro assume a possibilidade de ser novamente estruturante. Se o cinema tem influenciado e muito a maneira de contar histórias, com seus recursos múltiplos e técnicos, quem sabe o teatro não venha a influenciar o cinema na dimensão do risco processual que lhe é tão próprio? Rubens segue tentando e afirmando, ainda que indiretamente, ser possível sim.

POR RUY FILHO

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__ ContrAção

Texto: Suelen Alencar

Direção: Clodoaldo Arruda e Paulo França

Elenco: Clarinda Castro, Ézero Obathe, Fabiola Karen, Lucas Layon, Jone Sayd, Sebastian Dantas, Suelen Alencar e Wender de Almeida

Dramamix

SP Escola de Teatro

O risco que marca o corpo no chão não deve ser apenas um traço. Ele recorta o corpo do ator, mas de imediato nos conduz a tantos outros corpos que desconhecemos. Ou até conhecemos. Sobretudo, é o corpo ausente, de uma morte programada por um sistema de anulação e desaparecimento do outro que ter tornado o contemporâneo um mistério diante sua animalização. O corpo que falta, o que permanece no entre do espaço desenhado, é mais profunda representação daquilo que nos tornam. Começa assim o espetáculo ContrAção: convidando o público a preencher o chão com os corpos de suas memórias e as memórias de seus corpos. Se a cena inicial já identifica o que será assistido, logo surgem outros corpos. Agora, retirados dos plásticos, escorrem nos braços dos atores transparentes e transparecendo o horror. Mas dessa vez, carregado, existe o encontro, ainda que pelo fim. Os atores ali estão. E os corpos películas são conduzidos, pouco importa para onde; são e isso significa estar próximo a alguém. Já é um movimento revolucionário se dispor a estar ali. E, por mais inesperado que possa parecer a alguns, apenas de não ser, igualmente revolucionário estar no teatro outra vez. Jovens. Todos eles e elas são jovens. O palco pulsa a urgência de quem se quer mais do que um traço do presente ou uma pele descartável. São coletivamente corpos que, unidos, agora são a condição de insurreição ao próprio medo do desaparecimento.Como se espera, por ser próprio da descoberta do teatro, o coletivo se traduz em cenas com palavras de ordem e agrupamentos de forças. Nada há de problema nisso. Nesse instante interessa a dimensão com que esses jovens artistas conferem a esse estado grupal. É nesse sentido que o espetáculo supera o que poderia ser previsível. Propondo cenas sem a preocupação de convencer a plateia, o elenco atribui ao palco a perspectiva de sua rebelião. A contra ação, ora mais contrária do que propositiva, dialoga com a urgência de existir em ato e grito como quem clama pela arte o papel de sua humanidade. Pois trata-se radicalmente disso, do quanto nossa humanização tornou-se ativo biopolítico aos poderes dominantes, como se o corpo fosse um fóssil vivo ou meramente um subproduto da civilização.Corpos são corpos. São presenças. São, cada um, a totalidade do inteiro. Não é possível definir alguém como algo, por algo, com algo. Somos a condição atribuída a todos e é ela que precisa ser compreendida se quisermos algo diferente. A condição da biopolítica, no sentido trazido da necropolítica, expande a possibilidade de espetacularização do humano, portanto, de seu uso, de sua morte. O espetáculo se apropria de sua própria espetacularização para compor um ambiente próprio, uma ambiência que pode mesmo sugerir um estado onírico ao pensamento. Ao não ser literal ou realista, acaba por representar o estado inconsciente de morte imposto ao indivíduo pela necropolítica, que o leva a aceitar e conviver com seu próprio desaparecimento como inevitável.Está na transposição ao palco o que ainda pode ser mais investigado no espetáculo Como representar o coletivo sem caracterizá-lo tão objetivamente, afim de fazê-lo existir em cena com iguais potências simbólicas narrativas? Não há um caminho seguro para isso, somente tentativas. Mas o grupo já mostra o quanto é capazes de tentar e de ser questão de tempo descobrir a grandeza dos desvios durante o trajeto. Grandezas que, quando encontradas, não apenas reinventam o discurso e os argumentos, tamb