Bienal Sesc de Dança 2019

September 15, 2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acompanhe aqui as resenhas de Ruy Filho sobre o festival.

 

__Daimón

 

De Luis Garay e Maia Chigioni

Cis Guanabara, Armazém

 

 

Todas as metáforas sobre lutar cabem em Daimón. Maia Chigioni dança uma batalha de box com ela mesma. Por não haver oponente, compete contra si. Dança a luta por tempo suficiente e em ritmo impressionante para levar o espectador a um desgaste físico-mental naquilo sobre o qual se projeta. Seu corpo em batalha ou trabalho amplia o do observador inerte até o esgotamento máximo de ambos. No entanto, é nesse excesso de si mesmo que surge a sedução profundamente singular. É impossível não assisti-la para descobrir qual o ponto de seu limite, tanto quanto o próprio nessa espera. E Garay utiliza-se de um artifício hipnótico fundamental ao trabalho: a luz que reimprime uma rotina sempre nova e a ser descoberta, ambientando corpo e instantes com iguais sensibilidades. O ringue-palco é sobretudo o reconhecimento de nossa condição. Ao problematizar quando os contextos naturais se modificam em culturais a partir do treinamento do corpo, o coreógrafo provoca a reflexão também sobre algo mais profundo: o que em nós, espectadores, permanece ainda natural ou acabara de se revelar construído? Primeiro, é necessário perceber que o próprio olhar se realiza como insistência ao outro. E por permanecer direcionado a uma única imagem, agora os olhos pertencem a ela. Deixaram de ser daquele que observa, para serem a qualidade maior de alguém observado. É a inversão da perspectiva de sujeito, tal qual propõe Zizek, em que, por sujeito, se define aquele que se sujeita ao outro, cuja ação lhe exige participação. Portanto, os olhos do espectador são agora respostas ao corpo em mutação, e a eles cabem redefinir o contexto durante suas leituras dessa dança-luta, especialmente a partir de parâmetros éticos e, inevitavelmente, próprios. Em outras palavras, ao decidir sobre o quê de fato se assiste, o espectador determina ao corpo da performer a qualidade de sua presença. Segundo, olhar, então, seria uma experiência própria ou construída a partir do convite trazido pelo espetáculo? Esse é o ponto em que a iluminação, ao dançar possibilidades narrativas, leva o espectador a querer insistir. Não apenas assistir, mas participar na formulação de uma narrativa inexistente, porém real às necessidades inconscientes de nos protegermos das experiências simbólicas não objetivas ou traduzíveis. É como se nos avisasse que olhamos à cena como quem passa por um processo de disciplina da visão, provocando-nos a percebê-lo a cada nova transição, mudança de ritmo, variação luminosa, discurso do corpo nunca igual. Também nisso existe um projeto profundamente ético, pois, ao reconhecermos os limites impostos pelo racionalismo, o mesmo ocorre na descoberta da condição cultural que nos obriga a resolver e finalizar as experiências poéticas. E é importante perceber o quanto o corpo é, sobretudo, a dimensão ética de uma humanidade reconhecível apenas a partir do outro. Garay realiza um espetáculo sucinto e amplo em que os sujeitos se invertem e subvertem, as presenças se confrontam e se alimentam, as dinâmicas estéticas se confundem em narrativas, as narrativas se amplificam como provocações aos limites. E Maia domina com qualidade o percurso em todos os seus labirintos. A união entre os dois artistas é forte como poucas vezes pode ser.

 

foto milaercoli.ph

 

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__Eclipse: Mundo 

 

De Paz Rojo

Sesc Galpão

 

 

Ao entrarmos em um espetáculo, o comum é o encontro se dar com um espetáculo, naquilo que se compreende como acontecimento. Todavia, o contemporâneo tem aberto novos dispositivos aos artistas possibilitando-lhes desconstruir as escolhas seguras, o que tem sido ótimo. Então não é incomum encontrarmos, no lugar de um espetáculo tradicional, a utilização do espectador como presença cúmplice de uma investigação mais íntima e processual. Na dança não é diferente. Há algumas décadas, coreógrafos reinventam a linguagem naquilo que pode lhe ser essencial. Não existe uma única regra para tanto, mas possibilidades de distorcer as expectativas da dança enquanto manifestação previsível. Vale mais experienciar a potência no querer dançar, o entendimento da dança ser muito mais do que mero material coreografado. O que não é fácil ao público, é verdade, pois lhe exige intuir os interesses do artista acima do apresentado, e sendo radicalmente uma leitura subjetiva permite pouco ao racional, paralelamente ao quanto amplia de potência conceitual. Escolher tal caminho demanda do artista a consciência desse encontro com o outro, portanto, sem o qual, esvazia-se os próprios interesses trazidos à experienciação da dança, sumindo tudo em um limbo de improvisação e casualidade desprovido de sentido maior. Em Eclipse: Mundo, Paz Rojo propõe uma dança criada no presente, não mais uma coreografia para ser somente executada, tal como nos informa. É o que denomina por Lacuna Performativa. Todavia, o tempo real supera o simbólico e o espectador se confronta com dançarinos aparentemente improvisando um estar juntos, ainda que dancem isoladamente sem qualquer relevância mais consequencial por ter aquele ao lado. Não são grandes performances individuais, o que coloca em dúvida o quanto assisti-las se faz mesmo relevante; e não sobram espaços para desconfiarmos se há nisso algo de proposital, o que poderia ser interessante em seu contexto de provocação. Apenas dançam, cada qual em seu repertório, e isso não parece ser suficiente para sustentar um interesse mais duradouro. A lacuna pretendida, por conseguinte, não ocorre no palco, mas no espectador, agora em estado de latência e espera mornas que nada lhe modificam. Tampouco a performatividade pretendida, visto mais se parecer um dia comum de sala de ensaio, em que se colocam em exercício de investigação de movimentos e ritmos, do que algo já tornado ampliado de avançar ao palco e público. Não se compreende a necessidade do som que pouco amplia a experiência ao vir em fones de ouvido, questionam muitos ao sair do espetáculo. Assim como não se compreende a tamanha relevância na obra para encerrar uma bienal internacional de dança com tantos outros bons momentos. Eclipse: Mundo não se aproxima de nenhum de seus objetivos. Se por demasiadamente tentar existir grandioso ou pelas próprias escolhas, não se sabe. O que se assiste é apenas o que se tem e em espera. E, nesse sentido, a fala em cena do gesto, das presenças, das escolhas é muda, monocórdica, cansativa, previsível. A conversa com o público é inexistente. Ao não querer dar um espetáculo ao público que esperaria um, Paz Rojo acabou não oferecendo muito. Na verdade, quase nada. 

 

foto Juliana Hilal

 

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__Bola de Fogo 

 

De Fábio Osório

Estação Cultura

 

 

De quem é o corpo que carrega o corpo? A pergunta, aparentemente óbvia, explode em complexidades ao confrontar as respostas fáceis com questões sociais, políticas, culturais, antropológicas, históricas e muitas outras. De tal modo que o corpo é massa própria de alguém e a dimensão transversal daquilo oferecido e permitido ser por esses muitos atravessamentos. Fábio Osório descobriu o quanto o óbvio é amplo fazendo do trajeto uma revelação compartilhada de sua verdade. E como nem sempre a verdade é o esperado pelo comum, Osório nos conta quando se tornou uma legítima baiana de acarajé, enquanto nos mostra o registro oficial. Mais do que profissão, ser baiana é ampliar a dimensão de sua identidade: existir baiana performatiza o corpo em códigos que não os permitidos, atribuindo-lhe outra presença diante o real, requerendo-lhe renascimento. Como se dançasse entre quem se é e quem se revela, o artista reinventa sua possibilidade de estar no real pelo encontro narrativo com público e a simbologia de sua história, ampliando a qualidade humana do convívio, o emotivo da descoberta, o divertido do reinvento. Explica-nos o acarajé ser sobretudo corpo daquele que o faz, é gesto, mãos, boca, olhos, tanto quanto em um dançarino. Se outrora as baianas desviavam as comidas de santo, levando-as às ruas, para possibilitar o financiamento da ritualização da própria fé, em uma espécie de Fita de Moebius, sem mais início ou fim, profanação ou dogma; em Bola de Fogo, Osório faz, pela ritualização de sua persona, o mesmo com a dança ao coreografar novas possibilidades de existir seu corpo sociocultural. Ao fim somos convidados a esse corpo, a devorá-lo, a antropofagia-lo não apenas como simbolismo, mas como realidade. Tabuleiro posto, venda aberta, a rua que fora palco se retorna rua e somos nós, os clientes e não mais espectadores, os artistas de uma comunhão com o presente. As Fitas de Moebius se amplificam nos múltiplos desdobramentos das relações. Ninguém é apenas a si, e nem somente um. Todos, tal qual o artista, somos a multidimensionalidade do tempo que nos percorre, dos ancestrais que nos esquecemos, dos próximos que não chegaram, dos corpos que se invisibilizam e carregam em suas tentativas a história de um povo e de instantes. Osório é a oferenda às artes da qual comunhamos em busca de liberdade para sermos quem quisermos ser. Bastasse isso. Há mais. Há Cíntia Santos. Durante toda a performance, a intérprete de libras acompanha as falas e músicas como um díptico do próprio trabalho. É como se Osório tivesse ao seu lado uma rainha ancestral que resume em seu próprio corpo, sorriso, olhos fortes e cor a essência de sua transformação. E da nossa. Pois só sendo também Cíntia seremos de fato alguém, teremos um corpo, acharemos um outro nesse nós que nos foi imposto ser. Suas mãos dançam o silêncio de um corpo que não fala pela voz e conseguem mais ainda do que se lhe fosse permitido dizer. Subvertendo o jogo de uma sociedade cruel, Cíntia reinventa tudo ao estar, e faz o encontro no meio da rua ser da rua inteira. É lindo e emocionante descobri-la e imaginar quantas vezes mais isso pode ocorrer. Mas as coisas ainda dependem de muita gente. Gente que não sabe ser acarajé. Gente que não quer experimentar se apimentar. Gente que teme a saia rodada branca no corpo de um homem. Gente que prefere as calçadas vazias de tabuleiros. Gente que não dança. Osório dança. E dança com coragem e convite. Já Cíntia... Como explicar? Cíntia faz da dança trazida por Osório a performance de descoberta do humano quando possível de ser divino. Os raios de Oyá caem enquanto as bolas de fogo de Osório e Cíntia nos queimam por dentro levando nossas almas a dançarem.

 

foto Beto Assem

 

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__Rir - Intervenção Segundo Movimento 

 

De Key Sawao e Rizardo Iazzetta – Key Zetta e Cia.

Largo do Rosário

 

 

Logo pela manhã, pois 10h é cedo ainda para mim, seguimos à praça para rir. A proposta é essa mesma, ocuparmos o espaço público junto aos dançarinos e entregar o corpo ao riso. Rir - Intervenção em Segundo Movimento. Segundo, pois o espetáculo surgiu pensado para sala de espetáculo. Agora, avança pela rua e encontra o outro radicalmente diferente, em uma espécie de convite que produz descontrole e intromissão ao que amplifica o acontecimento. Rir, e apenas isso, pode ser simples demais a quem não esteve na praça. Mas quais os espaços para rirmos nos dias de hoje? A libertação física, sonora, é também outra qualidade de confrontamento às instâncias que nos endurecem, por isso o trabalho interessa tanto a quem está e quem o assiste. Não é preciso rir para perceber os dois estados abrindo os indivíduos a uma coletividade inesperada e estética. Enquanto os movimentos oferecem pistas aos transeuntes de ser tudo algo mais, ainda que não percebida sua coreografia, estão nas faces as melhores respostas ao espetáculo e em um estado de espera que se instaura entre os observadores. Demora a percepção de ser somente isso mesmo. Como se um espetáculo tivesse a obrigação de expor suas estruturas narrativas todo o tempo para, então, apresentar sua finalidade. Rir é especialmente dança, e o mais complexo é tornar a própria finalidade a manifestação estética de sua construção. Assim, não se dança e ri, mas dança-se o riso; não se ri ao dançar, mas faz-se do rir o gesto de um corpo poético. Nada importa, ao fim. O público insiste, cada qual ao seu tempo de interesse, entrega-se ao riso conjunto ou desconfia, e a dimensão coletiva se funda exatamente nas temperaturas e disponibilidades de cada um, levando a uma massa sempre renovada, inquieta, desconfiada e divertida. Ao trazer o novo movimento ao espaço público, Key Sawao, Ricardo Iazzetta, Beatriz Sano, Carolina Minozzi e Mauricio Florez Raigoza reinventam seu próprio argumento. Agora não mais o riso como dispositivo afirmativo de presença, e sim o rir enquanto capacidade de reinvento quando nos colocamos juntos.

 

foto Juliana Hilal

 

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Ruy Filho e Patrícia Cividanes viajam a convite do festival.

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