Festival Música de Câmara 2018

December 23, 2018

Acompanhe aqui as resenhas de Ruy Filho sobre o festival.

 

__Andreas Borregaard e Quarteto Camargo Guarnieri 

 

Dinamarca / Brasil

Sesc Bom Retiro, SP

 

 

A corda do violoncelo arrebenta. Acontece. O quarteto Camargo Guarnieri para a execução da música, e é preciso ocupar o público durante a espera. Então a pergunta: quem acha que é ou que não é musica o que ouvimos antes? O antes se destina às obras criadas para acordeon, nessa noite dedicada a compositores dinamarqueses. Per Nørgård e Simon Steen-Andersen olham ao instrumento também em sua capacidade plástica. Assim, Andreas Borregaard não apenas o toca, aceita os desafios em desconstrui-lo, encontrando outras possibilidades sonoras ao ir além das teclas. É exatamente o uso do instrumento ressignificado enquanto recurso sonoro que leva a espectadora a responder com um enfático “não”, definindo as duas composições por não sendo músicas, ou não como esperava ouvir. O incômodo é compreensível. Convivemos pouco com as desconstruções plásticas na música erudita, ainda que as estéticas estejam mais assimiladas e aceitas. Todavia, a resposta é também sobre a ausência do acordeon nas escolhas de repertórios, concertos e festivais. Ao tempo em que não é tão estranho o piano ser tratado como instrumento percussivo, aceitando sua capacidade plástica - seja com músico e músicos dedilhando diretamente as cordas e não as teclas brancas e negras, seja interagindo com a madeira estrutural -, descobrir o acordeon instrumento de sopro, pois movido pelo deslocamento de ar, e que portanto pode ter o próprio movimento do ar por sonoridade, é informação demais. Ainda assim, o que no inusitado desse gesto não cabe no reconhecimento da música? Ritmos, densidades, andamentos, compassos, melodias, harmonias, timbres, nuances e outras características fazem parte do argumento dado ao instrumento, a fim de construírem sonoridades específicas. E se não mais pelos timbres aguardados e acostumados, existem ali pelo sons revelados e as compreensões do que estes podem vir a ser. Argumentado a favor dos compositores de forma simplória, e já me desculpo por isso, reconhecemos os sons ao escutá-los e temos por música formas sonoras organizadas com propósitos estéticos. Se não, vejamos por outros momentos. Reconhecemos um canto em idioma desconhecido mesmo quando não compreendida sua estrutura melódica. Ainda estranho, o canto se afirma como tal por sua proposição existir subentendida. Ao quê se canta, não saberemos; se profano ou religioso, se formalista ou folclórico, e não importa saber a priori. As obras que experimentaram o acordeon como plasticidade sonora possuem interesses claros: encontrar sons, tornar o instrumento instrumental em um universo pleno e não somente enquanto mecanismo. Esses interesses deveriam bastar, ainda que não reconheçamos seu idioma e estrutura. Esperar a percepção de tanto em paralelo à insistência racional seria demasiadamente ingênuo diante os ouvidos acostumados e ansiosos pelas tradições. Há que se respeitá-los portanto. O pensamento se conflitua ao inesperado, essa materialidade plástica trazida ao registro dos sons, e os instintos protegem-se afastando e simplificando o experienciar diante o irreconhecível. Contudo, a propriedade da música é ocorrer por uma condição subjetiva. Ao reagir, o espectador já está inconscientemente alertado e, em outro momento, não mais plenamente inesperado ou surpreendido, experiências semelhantes se afirmarão na qualidade de serem principalmente músicas. Ainda que sejam “aquele tipo de música”. Ou algo mais. De tudo ser provável de ser música. Ruídos, sobreposições, falas e silêncios. Ao responder enfaticamente não ser uma composição ou música os sons do fole tirados do acordeon, a espectadora, sem nem imaginar, acaba por se abrir ao mundo ampliando sua percepção sonora. Não me lembro mais quando isso ocorrera comigo. Mas daria tudo para ter outra vez a chance de passar por esse delicioso processo de embate e descoberta. Em sua terceira edição, o Festival Sesc de Música de Câmara comprova ser um dos mais interessantes acontecimentos que temos por aqui.

 

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__Berlin Conterpoint e Leonardo Martinelli 

 

Alemanha / Brasil

Sesc Bom Retiro

 

 

Após Paul Juon e Mozart, o Berlin Conterpoint salta ao presente. Allegro Scorrevole, de Leonardo Martinelli, surge com densidade e torna a excelente apresentação em um acontecimento especial. Ofertando espaço ao solo de cada instrumento, a composição realiza uma narrativa peculiar que percorre não apenas seus valores, também suas presenças e particularidades, determinando com isso um movimento físico no interior do sexteto. Se a presença é explicitada pelos protagonismos, a particularidade ocorre na busca por evidenciar qualidades sonoras especiais, cuja soma determina o reconhecimento singular dessa escrita musical. Os sons não surgem para estabelecer uma paisagem precisa, mas acontecem como se fossem propositadamente foscos às sensações. Leonardo não quer apenas se contrapor ao passado, quer reinventá-lo, pois sua linguagem exige-nos perceber os anteriores a partir das perspectivas trazidas. O que se evidencia ainda mais quando Poulenc é o compositor final. É como se Allegro Scorrevole existisse anterior a ele mesmo, nas entrelinhas das partituras clássicas, no entre notas dos compositores dos séculos anteriores. Talvez seja essa a qualidade mais instigante de sua obra: seu aspecto narrativo cênico, porém não teatral ou dramático, que nos convida a interagir com os espaços encontrados, os preenchidos, as distâncias. Instrumento a instrumento, o corpo necessita recolocar-se aos timbres para reacomodar seu estado sensível. Não se escuta a composição de Leonardo, descobre a música na qualidade de um percurso e possibilidade. E, por mais que ao leigo (como eu) seja a elaboração técnica e estilística acadêmica e profunda para além do evidente, acontece também por sua sugestão filosófica ao mundo. Por propõe o diferente sobre o mesmo, isso é revigorante, tanto quanto descobrir que o mundo pode ser outro se observado por suas brechas. É quando a experiência musical importa menos em sua capacidade intelectual ao público, pois dá-se ao ouvido pela qualidade de uma transposição do real à uma nova condição. Esse ruído, tal com definiu o biofísico Henri Atlan, é o especial para tornar o vivido em experiência radicalmente individualizadora. Cada um , diante o reinventar do real a partir de sua outra experienciação estética, criará sua percepção do instante. Alguns diziam ao fim: não entendi o que ouvi, mas não era estranho. O confuso é exatamente a resposta emocional à sua individualização. A experiência não teria como ser traduzida ao outro, pois depende exclusivamente daquele que a vivenciou, de seu estado físico, da vivenciação da música em seu corpo. Leonardo olhou ao ontem, propôs o hoje, reinventou o passado, ampliou o agora e fez da música o ruído sensível para reinterpretação do próprio sujeito. Ou, em outras palavras, tornou a música um encontro profundo e provocativo. E como tal, não cabe interpretações, classificações, apenas tentativas, ao ser apreciada, de se reconhecer e encontrar outro diante o belo estado de se ver então desconhecido.

 

 

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