FCD 2018

October 22, 2018

Acompanhe aqui as resenhas de Ruy Filho sobre o festival.

 

 

__Partituur 

 

De Ivana Müller

Croácia/França

CCBB.SP

 

 

Algo em espetáculos interativos me incomoda. Um pouco é consequência a minha própria timidez pública, e imaginar me expor de maneiras pelas quais não me sinto seguro é dos momentos mais invasivos à minha intimidade. Não sou uma pessoa que dança, sobretudo em público. Mas Partituur, além de acontecer e abrir o Festival Contemporâneo de Dança de São Paulo, logo nos avisa: vocês receberão orientações pelos fones de ouvidos. Outro aspecto é preferir assistir aos espetáculos, principalmente quando escreverei sobre. Interagir me distrai, de certo modo, pois me tira parte da atenção que é olhar também aos espectadores. Não se acessa uma obra apenas como objeto isolado, não vejo assim o papel da crítica, e sim, pela capacidade em encontrar os diálogos propostos aos conquistados e o quanto se realizou coerente ao pretendido. Por isso, o outro, o espectador, é parte de algo maior do que o objeto: o acontecimento. Dito isso, o primeiro movimento foi receber meu fone, trocar o nome pelo trazido na etiqueta dada e esperar a inevitável interação. Subimos todos ao palco, não era possível assistir distante. Subimos e, dentre homens e mulheres de diversas idades, algumas crianças. Partituur se dirige a elas. E foi a elas que me peguei durante o jogo cênico qual participávamos. Aqui, um outro parêntese: tenho receio de espetáculos que instituam jogos de catalogações e sistematizações dos espectadores. São tantos e, quase sempre, tão óbvios em seus procedimentos, que pouco oferecem como experiências para além do próprio jogo. Muitos me trazem a sensação de ser o mais importante o jogo e não o jogador, e o espectador utilizado apenas como mero recurso apelativo ao desenvolvimento do jogo, que, por si, não é nada maior ao teatro ou dança. Ainda assim, as primeiras ordens vinham aos ouvidos. Alguns se mantinham atentos, outros se distraiam observando ao redor; as crianças se encantavam como que imediatamente transferidas a um universo novo. E sorriam. Surpreendiam-se a cada sugestão. Pois lhes era confiado o direito de não fazer, de burlar, de dizer não. E também de escolher, de incluir, de pensar e repensar. Entre um salto e uma corria, encontrar e tocar alguém, trocar de lado e achar um número, o lúdico reavivou em todos as experiências de uma infância que nos exigiu reencontrar a ingenuidade e os primeiros sentimentos de se escolher algo. E não só. Se você prefere uma presidenta faça isso, se prefere um rei, aquilo. Um país que era o desenho do seu próprio corpo no chão. Você quer trocar de país (ou corpo)?, nade ou voe para outro. Quer voltar? As perguntas oportunas e incômodas sobre as verdades mais íntimas eram apenas outras possibilidades de brincar às crianças. O quanto levamos a sério demais as ordens que nos são trazidas? O quanto somos excessivamente obedientes? O quanto nos esquecemos de simplesmente sermos? Qual a matemática envolvida no ritmo dessas e tantas outras equações? Assistir as crianças descobrindo e fugindo do personagem-monstro que invadira o palco era como perceber nas entrelinhas nossos próprios monstros publicamente expostos. Ivana Müller supera os dilemas comuns ao interativo atribuindo pela participação o lúdico como descoberta aos pequenos e reflexão aos grandes. Uma soma preciosa em tempos complexos. Pois é na valorização do lúdico, da percepção do ingênuo, do íntimo, do sensível, que o belo resiste por outra possibilidade ao humano. Um humano esperançoso de futuros. Um belo próprio do afeto, do sentir, do sentir-se. Um belo próprio da arte em sua qualidade máxima de ser um especial jogo de revelação sobre ainda estarmos vivos. O Festival Contemporâneo de Dança, sob Direção Artística de Adriana Grenchi, Direção Geral de Amaury Cacciacarro Filho e Cocuradoria Internacional de Rui Silveira começa convidando o público a se reconhecer e experienciar outro. Um ótimo início, mais uma vez, e agora a partir de um argumento urgente e fundamental a todos nós, tenhamos a idade que for.

 

foto Gerco de Vroeg

 

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__Blanc 

 

De Vania Vaneau

Brasil/França

CCBB.SP

 

 

Em algum momento se rascunhou a ideia de ser o corpo nossa primeira veste (talvez, Freud); a pele como camada inicial que, por ser como é, também estrutura aspectos da individualidade, a partir de seu reconhecimento cultural. Se branco ou preto, o corpo veste-se de argumentos exteriores a ele pelos quais formula-se a sugestão de sua identidade, agora não mais cultura e sim histórico-social. Mudar de pele seria artificializar a própria face social atribuindo-se outras relações e valores culturais, portanto. Por não ser possível, desenvolveu-se a representação da veste como informação dessa outra pele: a que se escolhe e tenta pertencer. O gesto de vestir-se é mais objetivamente decifrado ao homem moderno, a partir de sua compreensão estético-narrativa, ou seja, por aquilo compreendido por moda. Todavia, vestir-se pode ser uma busca por outra narrativa, a simbólica, e, diferente em sua tentativa, não apenas representar o indivíduo em seu reflexo social, como também atribuir ao gesto a confirmação de um ritualização rumo ao mítico. Ambos os trajetos narrativos se configuram ficcionalizações do indivíduo, um como sujeito social, outro como agente cultural, e cada civilização e cultura emprega suas escolhas ao mais próprio de suas representações. Por vezes são texturas, tecidos, estruturas, ornamentos, interferências; por outras, cores, luminosidades, contraposições, acúmulos. De todo modo, as peles que ressignificam e narram a pele original adequam ao corpo a condição de ser um sistema complexo de representações e respostas. São, por conseguinte, transformações deterministas, ainda que subjetivas, pois, mesmo que não compreendidas, afirmam radicalmente aquilo que não são. O corpo, por fim, é a dimensão utópica da afirmação do existir social e cultural cuja instabilidade e adaptabilidade constrói ao indivíduo a representação de seu percurso na história. Por ser aberto ao subjetivo, o corpo requer o contexto dado pelo entorno. É pelo ambiente que os sistemas simbólicos-narrativos se traduzem, e não apenas por suas supostas verdades. Desse modo, a pele complexa é acessada pela percepção de sua presença ao ambiente e capacidade em ser ela mesma a ambiência ao outro. A arte serve-se exatamente dessa qualidade, e desde sempre esteve atenta ao corpo na qualidade de linguagem de reinvenção da ambiência. Basta aproximar a pele complexa ao ambiente e este se transmuta em ficcional, cênico, performativo, poético, estabelecendo à narrativa imediato afastamento do real. Vania Vaneau provoca o espectador a uma qualidade específica de afastamento ao conduzi-lo à sugestão de um mítico enigmático e universal pelo uso de elementos, cores, texturas, adereços etc., aparentemente comuns e banais, suficiente para desconfiarmos de suas simbologias pop. Ao acumular como sua própria pele tantos, a performer usa do gesto, do vertir-se, do transformar-se para apresentar a mitologia que reafirma outra condição, outra possibilidade, talvez outra cosmogonia do ser pré-sociedade ou cultura. O imaginário como mitologia de um absoluto infinito e intransferível. Há nessa figura-corpo certos orientalismos em sua mitologia que se remetem ao hinduísmo, indianos e também primitivismo andinos. No entanto, uma ou outra são interpretações sugestionadas pelos repertórios de cada observador e podem simplesmente não aparecerem. Ainda assim, de nada interferirá no percurso mítico de sua observação. Se para a física, a união de todas as cores resulta em branco, Goethe demonstrou que à química a resposta é o preto. Ambos estão certo. E ambos dialogam com Vania. A ótica de percebê-la, ao término, a luminosidade do todo tornado corpo e pele; o enigma do desconhecido sobre uma mitologia recém descoberta ao gesto e som. Vania nos provoca a dançar o desconhecido como que nos convidando a construir uma outra pela, e dessa vez, biologicamente, pelo comum.

 

foto Gilles Aguilar

 

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