FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA 2018

March 27, 2018

Acompanhe aqui as resenhas de Ruy Filho sobre o festival.

 

 

__GIRA

 

Grupo Corpo

Teatro Guaíra

 

 

Nada começa sem passar por Exu. Nem este texto. Ou Èṣù, se quisermos estar mais próximos da origem. Se por aqui criou-se o estigma dele ser a representação do Diabo católico, na África o termo significa esfera, movimento, circularidade. Assim, cabe-lhe a transitoriedade do indivíduo em seus diversos níveis na história e estória, o que se traduziu simbolicamente na realidade como sendo as encruzilhadas. Não necessariamente pelo cruzamento, portanto, e sim pela condição de escolha que essa exige ao andarilho, pela qual os destinos são determinados a cada opção escolhida. Exu, então, está longe de ser o inimigo em busca de almas. É a essência inquieta que sustenta a própria qualidade humana ao indivíduo e que se revela desde a curiosidade infantil até ao desafiar de ordens impositivas. Exu é o rito de descobrimento da liberdade, sem o qual nada mais será possível. Sem ele, sem a escolha, sem o movimento em busca do próprio destino, o homem impede as transições e transformações e a vida se limita estável e conduzivel. Saudar Exu é abrir os ritos pela libertação da própria identidade diante ao que lhe é mais singular e especial. E para cada um o especial se manifesta de um jeito.

Após quatro décadas, o Grupo Corpo realiza, enfim, a ritualização de sua identidade dançando em Gira o arquétipo e corpo de Exu. Todavia, o que poderia ser uma óbvia transposição ao palco dos gestuais próprios dos terreiros ganha narrativa física reinventada ao ser construída em poética e cumplicidade. Das torções e malemolências aos pés em ponta, Rodrigo Pederneiras subverte o sentido do que seja o lírico e popular. Muitos dos gestos mais comuns e ordinários aos corpos são descobertos como imagens novas, pelas quais o popular, ainda tão distante de ser vocabulário aceito, ocupa nosso real contexto erudito, enquanto a clássica coreografia imediatamente é reconhecida como se fosse um alfabeto popular. Gira provoca o deslocamento entre essas classificações embaralhando e aproximando-as até diluir as distâncias, ao ponto de não importarem mais se reconhecemos ou não os movimentos como próprios da dança ou do cotidiano, ainda que cresça, minuto a minuto, a sensação de uma fala plausível.

O surgimento desse outro corpo, essa fisicalidade híbrida, é a constatação fundamental daquilo que se pode entender por brasileiro, e por ele o espetáculo alcança a identidade maior de ser sobretudo sobre nós. O Grupo Corpo, então, é o corpo de um grupo que supera o específico de um particular evidente para ser a afirmação de um coletivo ao qual pertencemos: indivíduo misturado, saudavelmente vira-lata, negro, índio, branco, latino, europeu e asiático e, acima de tudo, africano. Um povo que, quando capaz de se compreender como tal, talvez sirva-se à função de ser o èṣù a outro projeto civilizatório, uma vez que atingimos uma inquieta e assustadora encruzilhada que agora exige da humanidade tomadas de decisões fundamentais.

Gira é também festa: de aniversário, de resistência, de permanência, de convívio, de encontro, de convite. É festa para nos querermos brasileiros. É festa ao caminho em busca de outro movimento. É festa de Exu.

O Grupo Corpo dança individualmente seu coletivo como que de mãos dadas, em uma única respiração, e a dimensão uníssona da arte desse e nesse Corpo de fato impressiona em poesia. Ali estão o tempo todo, mesmo quando fora do centro. Dançam em espera, na bela solução cênica de uma coxia atemporal inventada por Paulo Pederneiras: aqueles que não participam, sentam nas laterais e se cobrem como tecidos negros, tornando-se parte da escuridão ao redor. Quando retornam, o impacto visual dos corpos ocorre primeiro pelo surgimento das peles em seus diversos tons. É o humano que grita presença, como se a própria existência fosse um acontecimento estético transformador.

Ora, eis aqui outra vez Exu, aquele que reinicia o presente atribuindo-lhe a perspectiva de outra possibilidade ao convívio. Entrar e sair, desaparecer e ressurgir, reunir-se e isolar-se, agregar-se e individualizar-se, e ser tantas vezes um pouco disso, ao ponto dos dançarinos se confundirem e se desdobrarem em múltiplos. O Grupo Corpo é a multidimensionalização de um único corpo que se revela pleno pela soma de seus muitos participantes. A mitologia africana já nos avisava sobre isso: Ojixé, Obá, Élébó, Agbo, Bara, Olodu, Elepo; qualidades de Exu, arquétipos que identificam ao inteiro partes e dimensões de sua representação. São muitas outras, como são muitos os dançarinos do Grupo Corpo no palco. São, porém, um único movimento em busca da afirmação da identidade a partir de sua realidade enquanto dança.

O espetáculo apresentado na noite de abertura abre os caminhos para o novo Festival de Curitiba iniciado pela aproximação de Guilherme Weber e Márcio Abreu como curadores; é também o movimento esférico de reinvenção de uma das mais importantes e singulares companhias de dança do país. A gargalhada de Exu, tão típica nos rituais, surgiu no sorriso dos espectadores que ovacionou os artistas ao final, no batuque das mãos que tomaram o Teatro Guaíra por um ruidoso aplauso merecido. Algumas das grandes características de Exu são os encantamento e sedução daquele que com ele se encontrar nas encruzilhadas. Bom, o Grupo Corpo foi capaz de em um único dia seduzir e encantar uma multidão. A gira está aberta. E o futuro parece melhor após esse encontro. Laroyê, meus caros.

 

foto José Luiz Pederneiras

 

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__DOMÍNIO PÚBLICO

 

Espetáculo de Wagner Schwartz, Renata Carvalho, Maikon K. e Elisabete Finger 

Teatro da Reitoria

por Ruy Filho

fotos Humberto Araujo, Annelize Tozetto e Patrícia Cividanes 

 

clique na imagem abaixo para ler nosso especial sobre o espetáculo na ED.16

 

 

 

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__INSETOS

 

Cia. dos Atores

Teatro da Reitoria

1/3

Eles chegaram aos 30 anos. Iniciaram a Cia. dos Atores, tinha eu 15, e nunca havia ido ao teatro. Demoraria um tanto ainda pra entrar em algum, e eles e elas já estavam mudando a cena teatral brasileira. Quando me encantei de vez com o teatro, compreendendo-o uma das artes mais arriscadas às certezas e discursos, pois sendo presencial e incontrolável tudo dela pode surgir e acontecer, já os tinha como referência por outros. Então os assisti. Melhor, os devorei. Aos poucos, o convívio com espetáculos e pessoas, criações e personalidades, artes e ideias estruturou outra qualidade de como percebê-la. A companhia de fato instituiu perspectivas próprias que se espalham por todos os cantos do país, ecoando suas investigações estéticas e modus operandi a jovens criadores no sul, sudeste e nordeste brasileiros, pra me ater apenas aos que conheço. Em suas investigações, a estrutura de uma prosódia própria, a liberdade de uma fala que reinventa a presença em cena como se não houvesse cena e tampouco se limita ao naturalismo. O teatro é incessantemente assumido, ao mais divertido do que talvez Brecht poderia ter sugerido (o que é bom até aos interesses do alemão), em jogos de exposições das estruturas teatrais que se completam com especiais momentos de introspecções. Assim, seus espetáculos vão aos espectadores e os atraem à cena sem precisarmos de qualquer outro instrumento, apenas os imaginativo e dialógico. Não é nada fácil. O que pode ser percebido junto aos desdobramentos por companhias mais jovens, quando, tornado apenas técnico, o jogo se artificializa e esgota quase de imediato. Propuseram mais: a instauração definitiva ao teatro brasileiro do objeto em cena em sua capacidade de existir vocabulário, ampliando o reconhecimento da presença do performer por sua condição de corpo-objeto e do objeto mesmo como sendo presença narrativa. Elaboradas e intrincadas estruturas simbólicas são sobrepostas na movimentação e readequação dos elementos, algumas vezes dando pistas falsas, outras acumulando percurso até sua intenção final. Mesmo já sendo tudo isso muito ao invento teatral, há uma indiscutível particularidade na construção de suas dramaturgias, sejam a partir de textos clássicos ou contemporâneos: nunca limitam-se aos dizeres, olham mais aos interesses ao que é dito e o quanto neles permanece verbo no presente. Portanto, nunca há outro tempo, mas o presente, instante de urgência e compreensão do agora ser sempre o agora, mesmo quando Shakespeare ou Jô Bilac. Bom, são 30 anos, e esse parágrafo, aparentemente grande, serve somente de respiro inicial à potência do que ofereceram. Quer dizer, oferecem... Permanecem sob a radicalidade do Presente e em ação, mas com uma outra relação.
Antes, imagine que era final dos anos 1980. Longe para mim, então fui à Wikipédia. Sim, os críticos também fazem isso, só fingem que não. Alguns acontecimentos na vida daqueles jovens: fim oficial da censura, promulgação da Nova Constituição Brasileira, Sarney presidente, assassinato de Chico Mendes, primeira medalha olímpica brasileira no judô, primeiro título de Airton Sena, primeiro Hollywood Rock no Rio de Janeiro. E falando sobre o Rio, o então prefeito Saturnino Braga, antes de abandonar o cargo veio a público e decretou falência do município. O colapso financeiro se juntaria, no futuro bem próximo, ao inesquecível fracasso do Plano Cruzado. Moreira Franco era o Governador. O mesmo cara que agora o PSOL tenta juridicamente afastar do Ministério das Minas e Energias para impedir que privatize a Eletrobrás, nomeado ao cargo às pressas para ganhar foro privilegiado, após citado por delatores na Lava Jato, e denunciado pela PGR por organização criminosa e obstrução de justiça, além de ser investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. Um turbilhão, portanto, de sentimentos aos cariocas. Da euforia ao desprezo, dos prazeres às revoltas. Nascia, ali, a Cia. dos Atores. Até chegarmos aqui, aconteceu de tudo. Cabral e seu recorde de 23 acusações (é bem provável que esse número esteja desatualizado, quando ler essa resenha); Cunha, um cara ali, perdido nas estruturas da máquina pública, se tornou quem se tornou; os neopentecostais chegaram definitivamente ao poder provocando o desmonte da estrutura cultural carioca; a milícia divide os morros com traficantes e as ruas não separam mais os disfarces burgueses; o Exército ocupa a cidade em intervenção oficial; Marielle foi assassinada... A lista não caberia aqui. O Rio, que ganhou de presente uma Olimpíada e outra Copa do Mundo, descobriu que espírito esportivo não faz parte da Política. A ex-capital do Império descobriu esconder um novo império de corrupção. E segue o projeto em eficiente desumanização dos seus cidadão.

A esse ponto, você deve estar se perguntando se vim falar de teatro ou política. Respondo com outra questão: é possível ao Rio de Janeiro não tratar os assuntos como iguais? Talvez o mais cruel seja exatamente isso: o de impedir a arte de ser a reinvenção do humano, outras possibilidades de se criar o civilizatório, de oferecer ao espectador devaneios poéticos e sensibilizações inesperadas. A política reagiu às Artes, que agora reagem por gritos sufocados em desespero de atingir surdos. Chegou assim, a Cia. dos Atores, ao hoje. Reinventando-se, redescobrindo-se, atualizando-se, inquieta. Trouxe para dentro aqueles das gerações seguintes buscando ares do presente. Sempre o Presente. O dramaturgo Jô Bilac é já parceiro inestimável e indiscutível à companhia. Juntou-se para a comemoração, o jovem e talentoso diretor Rodrigo Portella. E a reunião desses tantos, ao lados dos atores fundadores Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcelo Valle (em Curitiba substituído) e Susana Ribeiro é um acerto especial. Continuam cúmplices em cena, e continuam divertidamente singulares, com especial atenção ao trabalho físico de Olinto e sua inesgotável capacidade em erguer vocabulários estéticos pelo corpo.Como falar do agora, sobre o que está acontecimento, tomar partido e ainda assim desconfiar do próprio lado qual se está, como dizer e apontar sem nomear, ser simbolicamente explícito e superar o mero gesto acusativo, como investigar o quanto por aqui as estruturas de poder são sistêmicas e inerentes ao social qual criamos? Insetos.

Entre Louva-deus e baratas, joaninhas trans e um panteão arquetípico de outros personagens redefinem as estruturas de representação, participação e pertencimento sociais brasileiros. Se estão os políticos em seus domínios; também nós, os insetos comuns, surgem nessa sociedade em golpe, confronto e manipulação. E o que parece de fora, na segurança da poltrona, ser apenas uma maneira alegórica de instituir valores a cada parte dos acontecimentos, em cena é mais complexo: o tempo todo o espectador é provocado a se reconhecer em insetos diversos e em lados diferentes. Somos um tanto de cada sem a pureza qual justificamos ao mundo, mas na complexidade de possuirmos muitos interesses; somos o paradoxo à deriva de insetos multifacetados em busca de uma melhor definição. Em meio a pneus, os atores reinventam o palco a cada movimento da fábula por uma fisicalidade esgotante que se revela também por seus corpos e estados reais. É como se atores e direção precisassem tornar visível o cansaço quais estamos submetidos diante às decepções, descobertas, confirmações, perdas, agressões, destruições, ilusões. Aquilo que nos é psicológico, em cena é também concreto. Assistimos, por conseguinte, a materialização dos nossos próprios esgotamentos transferidos ao excesso do corpo do outro e pela quantidade de pneus em cena. Não se trata mais, porém, do excesso como amplitude, mas como estrutura de isolamento e anulação. Os insetos são apenas insetos em um mundo de pneus tão maiores do que eles; são pequenas partes de uma ambiência que os protege e produz. E de quem será a culpa por haver tantos insetos, deles mesmos por se reproduzirem em um meio disponível ou de quem não se preocupou durante séculos em esvaziar as águas dos pneus? Por falar do Rio do Janeiro, sobretudo, a Cia. dos Atores escancara a face do Brasil. Desde os primórdios, a Guanabara antecipa o que seremos. Hoje isso é aterrorizante. Os Louva-deus estão mais próximos de reinar do que os Gafanhotos. Escolha complexa, quando se sabe o quanto gafanhotos são destrutivos e incessantemente devoradores. Um Besouro Titan, então. Será ele uma possível solução? Seu casco duro e militarizado a força reativa?

Entramos em uma encruzilhada complexa que nos aponta quaisquer das ruas como riscos efetivos. A ambiência tomada por insetos está doente, adoecida, apodrecida. Ou, por estar assim, foi tomada por eles. Não há mais como descobrir, não há tempo. É o que nos avisa a Cia. dos Atores. E aqueles que, até então, viveram o Presente como estado pleno de suas presenças e pensamentos, pela primeira vez olham ao futuro sustentando suas verdades mínimas aos resquícios do passado. Um bote, um palco oceano, o equilíbrio coletivo, um segura a perda de outro que apoia o braço de alguém, enquanto as cantigas dos espetáculos passados reativam o léxico humano dos artistas, não mais dos personagens. O sutil reencontro entre eles, entre pessoas, entre aquelas pessoas, faz do futuro o norte novo. A Cia. dos Atores aceita a condição do desconhecido por vir e projeta o movimento de ida, seja para onde for. Sem dúvida o momento mais íntimo e belo do espetáculo.

No reinvento poético desse gesto, na proposição ousada da escrita única de Jô Bilac em que palavras se fundem enquanto correm por sentidos, os atores tateiam outras tentativas de dizer e existirem, e tudo indica alcançarão muito em breve. Por hora, ainda há mistérios a ser encontrados nos tempos que não cabem à naturalidade (e não naturalismo, enfatizo) de sempre. Há nisso um dilema interessante: o quanto a naturalidade, tal como a projetávamos em nós mesmos, perdeu-se diante tempos complexos que nos requerem posições e posturas constantes. Como sermos, quando destituíram nosso direito de apenas sermos? E como representar essa outra condição de naturalidade? A questão ecoa, inevitavelmente, em quais os códigos ainda cabem às narrativas dadas aos objetos, qual presença o simbólico é capaz de oferecer? Se há respostas dependerá do tempo, pois precisam ser experimentadas a fim de reinventarem os atributos próprios do teatro. Poucos se voltam a isso, enquanto permanecem insistentes nas soluções de ontem. A Cia. dos Atores, por sua vez, ousa mais, reativa por meio de seus espetáculos recentes a possibilidade dos próximos 30 anos exigirem perguntas e invenções. Como disse, em encontro público qual mediei, durante o Festival de Curitiba, a companhia, antes de ser de atores, parece-me mais uma companhia de artistas. E artistas, ao contrário de apenas bons profissionais, são a expansão máxima das inquietações urgentes. Ah, esse inquieto e fundamental teatro feito por artistas.

 

fotos Lina Sumizono

 

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Ruy Filho e Patrícia Cividanes viajam a convite do festival.

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