Os Famintos

November 29, 2017

Ocupação Decolonialidades: Poéticas da Resistência.

Fricção Coletiva

Teatro de Arena.

 

 

Vanessa Garcia é o ponto de conexão entre os atributos da montagem. Sua estabilidade e domínio de cena organizam o que talvez não funcionasse no texto ou na direção. Vanessa estabelece um vetor narrativo dentro da própria narrativa. Sua intensidade é capaz de criar uma curiosa modulação de nuances frente à Natália Xavier que espelha a personagem com Vanessa. A dupla de atrizes resulta numa uniforme coesão que é sim a situação mais potente da montagem. É natural que elencos reduzidos optem pelo narrativo ou que textos narrativos busquem elencos reduzidos. Isto dá-se porque a dinâmica do drama em geral cobrará movimento da cena, e jovens artistas ainda não lidam com autoridade quando o assunto é “convenções teatrais”. Assim, a narrativa surge como uma forma de situar o tempo e o espaço no verbo, isto porque a convenção do épico é sempre mais natural do que as convenções do drama. O épico é uma saída que a técnica nos apresenta, mas que talvez a estética possa resistir. Este modelo de encenação torna-se carente por em dado instante revisar em cena suas próprias marcas. O teatro torna-se uma partitura que termina por equalizar as camadas e assim o texto e sua objetividade podem encontrar confusão adiante. E aqui está a força de Vanessa Garcia e Natália Xavier como interpretes que recriam o texto em seus corpos. Vanessa demonstra um curioso descompasso. Interpreta como se fosse uma atriz que comenta outros trabalhos, embora seja a primeira montagem do coletivo. Claro que esta qualidade pode ter surgido em outras encenações externas ao contexto do grupo. Mas, então, me parece pertinente que toda a ideologia estética do grupo se volte ao trabalho de Vanessa e busque nesta especificidade novos traços para a linguagem do grupo. Tematicamente o grupo ainda não impressiona. Dramaturgicamente aponta-se algo que parece esbarrar em sua própria época, sendo filiada à uma forma bastante utilizada especialmente no teatro paulistano. Embora exista na palavra de Natália uma chama que pode vir a tornar-se mais autoral e mais aguda, o que Os Famintos por ora apresenta é ainda um exercício técnico pautado por ideologias pertinentes e ainda pouca radicalidade nas áreas. Entretanto, tratando-se de um primeiro trabalho, talvez tenha sido importante o pautamento da cena segundo a técnica. Isto fez com que a montagem mantivesse uniformidade e um recuo frente ao teatro menos pensado. Tudo é bastante pensado e é clara a preocupação em dar acabamento para cada vértice da montagem. Esperamos que se mantenha o rigor e que em breve apareça também a singularidade destas artistas. Todo grupo que surge ilumina um pouco mais o teatro brasileiro. Estou ansioso. 

 

(crédito fotográfico não encontrado)

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