Nós

November 29, 2017

Grupo Galpão

Sesc Pompéia, SP

 

 

“O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou a sua decadência (…) Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo; como o teatro que não recolhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama das suas gentes e a cor genuína da sua paisagem e do seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro, mas sala de jogo ou sítio para essa coisa horrível que se chama matar o tempo.” Federico Garcia Lorca Entre uma caipirinha para amansar a percepção e uma sopa ilegítima para colocar a consciência e a autocrítica no lugar, Nós organiza um tipo de estrutura que, bem parafusada por ligas internas, faz com que a plateia não possa intuir a camada seguinte. Temos criado um ciclo de contradições imprevisíveis.Ao revelar o macro-político do país, sem abafar o discurso estético, através de engenhosa partitura de palavras (que nem sempre são dramatúrgicas) e cenas (que nem sempre parecem teatro), a direção provoca os significados que uma obra pode vir a ter quando aceita incorrer segundo a parcela mais contemporânea do contemporâneo. É um teatro que essencialmente acontece no outro. Como um jornal que necessita do leitor para que o fato seja notícia; neste trabalho, a cena carece do sentido do outro para significar-se no mundo. Assim, sendo acertada a teoria que afirma ser o espetáculo sempre composto em grande parte pela assimilação dos conteúdos pela plateia, aqui está a prova vitoriosa e irrefutável para este teorema.Nós, este brilhante ponto fora da curva do Grupo Galpão, visita a performatividade com um grau de autoridade e simpatia que, hoje, ao menos pontuando sobre o teatro que acesso, poucos grupos são capazes de elaborar. A pertinente reinvenção e a integridade da tradição aparecem dosadas como eficiente remédio ao tempo que confundiu "invenção" com “falta de filiação”.Agora, voltando ao incrível das marcações que o público não pode rastrear. Elas, as marcas, trazem um tom de possibilidade infinita. Explico; quando não somos capazes de imaginar a teatralidade que dá vida àquele teatro, neste instante tudo aquilo deixa de ser cena ensaiada para parecer vida "real", ou ainda para tornar-se um singular mistério cênico que dissimula sua aparição diante do expectador. O mecanismo, de tanto esconder-se, termina por fundir-se à própria ilusão do teatro.E, ainda que as repetições façam denúncia do procedimento ali guardado, por haver naturalidade e uma rede de sentidos ao redor de cada desconstrução, ainda assim, à luz da sopa feita em tempo real e dos legumes picados ao vivo, resta a imensa percepção de que tudo aquilo, como fosse uma peça de teatro, só poderia acontecer daquela forma, naquele instante e diante de determinada plateia. Aqui a radicalidade da performatividade surge como soma ao processo de representação. Não é um combate de formas mediado por uma dramaturgia que buscou apartar o conflito das arestas."Nós, a gente. Nós, aqueles que atam duas pontas ou partes. Os Nós que também calculam a velocidade náutica de algo".A impressão que fica é que o grupo e a direção trataram o momento da cena com o rigor com que os cientistas desenvolvem suas análises. Afinal, trabalhar segundo um texto inexistente, e do um conflito da criação em sala contra o vazio da realidade ser capaz de extrair uma síntese pertinente, exige que as improvisações sejam sempre catalogadas e comparadas em um futuro próximo. A realidade em forma bruta pode ser relacionada ao grande pedaço de rocha que o escultor precisa limpar até encontrar afinal sua outrora projetada escultura.E outra! O grau de relação dos interpretes com seus solos, ou com suas falas que pululam da confusão premeditada, também torna explícito o grau de propriedade da equipe com o material. Isto faz parecer natural a autoridade com a qual a ruptura se estabelece como proposta responsável e íntegra. A obra nos instiga a pensar seu fazimento e falar do que ela produz em nós enquanto efeito simbólico. Em geral, quando transmitimos os nossos símbolos para outros leitores da mesma obra, nas oportunidades em que a obra mais provoca do que diz ou posiciona-se, com o tipo de clareza que cega novas e outras possibilidades de análise, o que se revela é a pobreza do material. Com o Grupo Galpão a história é outra. Cada novo meio de estabelecer leitura faz surgir uma nova lupa direcionada ao que outrora não se havia percebido, é uma obra com nível internacional por dinamizar as suas camadas para muito além de sua pulsão geográfica. Está posto o humano e sua zona de constante enfrentamento das práticas sociais e das fórmulas de convívio e representação. Este belo trabalho, que perde o controle para assim tomar nas mãos a urgência de sua própria forma, não fosse a magnitude de suas proposições, poderia apenas elaborar uma tela de pintor em delírio e fazer rir apenas pelo atabalhoado de cores expressivas lançadas no tecido. Entretanto, e aqui dá-se o nó mais poderoso, o que está posto através da sofisticação, como fosse o teatro, finalmente, uma máquina de colocar o passado em atrito com o presente e assim elaborar um possível futuro, mantém não só o rigor, bem como, dignamente mantém também a pulsão de vida sempre natural às obras de vanguarda que produzem responsáveis homenagens à tradição... Elenco fantástico. Instrumentalizado e na medida entre a técnica e o rasgar das emoções em prol da efetiva catarse.Se me fosse dado o direito de dizer uma dessas bobagens que sempre dizemos sem qualquer lastro de realidade ou necessidade de conexão com a possível verdade, eu diria que, ao lado do espetáculo RACE, Nós figura como o trabalho mais interessante do ano. E o ano ainda não acabou...

 

foto Adalberto Lima

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