FCD - 2017

November 11, 2017

Acompanhe aqui as resenhas de Ruy Filho sobre o festival.

 

 

__(sem título)

 

 

De Jordi Galí

Teatro Sérgio Cardoso, SP

 

Ao não ter o cenário para a apresentação de abertura do Festival Contemporâneo de Dança - retido por uma greve no aeroporto -, Jordi Galí precisou decidir como agir. Um dia e meio, o tempo disponível para resolver o quê e como fazer. Partindo de princípios que estão no espetáculo original (que ocorrerá amanhã, sábado), cria outra obra. O que para ele é um improviso, algo dentro do possível, para o espectador é encantador e completo, como se fosse esse mesmo o trazido ao festival. Ganhamos, assim, dois espetáculos seus. E, aos que estiveram na Sala Paschoal Carlos Magno, a certeza de que apenas uma obra seria demasiadamente pouco. Sorte nossa, portanto. Mas, acima de problemas e sortes, cabe ressalvar o acerto de Amaury Cacciacarro e Adriana Grechi por convidá-lo a esta edição. Aprendi a perceber a materialidade de objetos como princípios narrativos e não apenas simbólicos através de Peter Fischli & David Weiss. Desde então, tais experimentos me interessam. Foi com a dança que compreendi o corpo como materialidade narrativa estética, algo mais simples de se perceber, e também como objeto, então mais complexo como argumentação. Afinal, se o corpo em cena é objeto à dança e não a própria realização da dança, aquele que dança, dança o quê? O espetáculo de hoje (devia ter lhe perguntado se havia improvisado também o nome) funde de maneira perspicaz esses dois aspectos e acaba por respondê-los. É certo que para muitos a ação será lida mais própria das artes visuais. Mas ao perceber as minúcias vê-se a importância de tê-lo em um festival de dança. Manipulando elementos como tábuas e pesos de ferro, pedras pequenas e correias, a estrutura necessita sobretudo do corpo como artifício de suporte, contenção, cálculo, proporção. Parte de ações aparentemente simples para construção da instalação final, que, ao surgir, nos remete a um convívio onírico com a instalação, superada e realizada sua impossibilidade. Peso, equilíbrio, ritmo, tempo, espera, materialidade, gesto, espacialidade, precisão, repetição são alguns dos princípios essenciais da dança; por conseguinte é como se dançasse que Jordi realiza o procedimento em cena, enquanto nos arriscamos ao mínimo da respiração, torcendo para que ela não ponha tudo a perder ao provocar-lhe qualquer distração involuntária. Ao menos era essa a sensação por estar na primeira fila, como estive. Há décadas a dança configura tentativas de desconstruções como artifício de reafirmação de sua linguagem. Dançar sem dançar, quase sempre. Hoje é plausível falarmos de movimentos e escolas sobre isso. Jordi, todavia, não cabe necessariamente na trajetória aberta por nomes como Jérôme Bel e Xavier Le Roy já tão exaustivamente copiados mundo afora. Propõe outra qualidade à investigação dos princípios da dança, não mais por sua segmentação, e sim pela sistematização, através de contextos que os sugiram e assumam como subjetividades fundantes. A insistência pela construção do objeto-instalação expõe o próprio pensamento do artista, como se além do corpo exposto pudéssemos acessar suas ideias a cada instante, em plenas descoberta e transformação. Não há disfarces sobre as decisões, pois são inevitáveis e surgem quase que ao acaso, assim como não é possível fugir da própria presença como meio de trabalho. O corpo materializa o inacessível: o desenvolvimento do pensamento provocado pelo debate entre razão e imprevisibilidade. O quanto estamos no contemporâneo aprisionados a esse mesmo debate, às tentativas de equilibras razões e imprevistos, expõe o encantamento que o espetáculo produz. Ao ser o impossível vencido, resta nos perguntarmos se não podemos nós encontrar equilíbrios ao debate dessa existência em conflituosa e incessante reformulação, em muitos níveis, dos retóricos aos culturais, dos sociais aos simbólicos. Jordi, nos atenta ao fato de que nossos corpos, portanto nossas presenças, são os pontos iniciais desses equilíbrios, quando expostos à construção do todo, e que, a partir disso, tudo pode ser ressignificado a outro estado de relação, o da permanência poética inominável que nos exigirá sempre adaptações e revisões. Se Jordi queria apenas oferecer, generosamente, um encontro ao espectador que lá esteve, também como respeito ao próprio festival, foi mais além, abriu cada um a um estado sensível radicalmente inesperado e singular. Afinal, quando o mínimo gesto involuntário como respirar é demasiadamente arriscado ao outro, percebemos o quanto nos esquecendo da consciência de estarmos vivos. E viver conscientemente nada mais é do que um estado lúdico de experimentar a realidade também em seus mistérios e impossibilidades, e vencê-los. Se hoje foi só improviso, só posso lamentar por amanhã ainda estar longe demais para assistir ao próximo espetáculo de Jordi.

 

por Ruy Filho  __ foto Patrícia Cividanes


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__T

 

 

De Jordi Galí

Teatro Sérgio Cardoso, SP

 

Poucos espetáculos são capazes de construir profundas experiências ao espectador. Ainda que o conceito de experienciação possa ser compreendido por diversos ângulos, cabendo como princípio os diálogos cognitivos, emocionais e intelectuais decorrentes do convívio com a obra, mesmo assim, há qualidades efetivas no que se refere às respostas. Quando mais vertical, a experiência com um espetáculo pode chegar a produzir no espectador a ressignificação de como se perceber e, por conseguinte, de se relacionar com a realidade. Essa é a experiência rara que tanto se busca provocar e receber. E também a alcançada por Jordi Galí em T. Elaborando um complexo jogo de construções e sistemas, dessa vez a cena contempla a articulação entre duas partes: a primeira articulada por engrenagens maquínicas feitas com pesos, contrapesos, rodas de bicicletas e cabos, cujo funcionamento exige participação do artista sobretudo para sua organização e acionamento inicial; a segunda implica na dependência completa do artista, responsável por mover, unir, estruturar, equilibrar a instalação cuja proporção de seu corpo é fundamental aos limites e possibilidades entre as peças – tábuas e escadas, principalmente. As duas obras em paralelo revelam-se um instigante pas de deux entre as instalações, quando seus movimentos são oferecidos à observação tanto ao público quanto ao artista por longos minutos. Dançam as máquinas, como dança o homem que, para torna-las possíveis, precisa submeter seu corpo aos gestos de uma coreografia impecável. Mãos, pés, pesos, equilíbrios, posições, tempos se somam lentamente em estudos ininterruptos de quais as melhores possibilidades de movimento. Assim, a dança é menos o que se dança e mais a substância do corpo inventado e coreografado a cada nova necessidade. Falávamos, no início, sobre a qualidade da experiência, e essa é verdadeiramente especial em T. A maneira como a estrutura rítmica ocorre provoca o deslocamento da percepção do tempo em seu convenção cronológica produzindo outro estado de recepção à partitura, suficiente para que esta se assuma também como narrativa. Como se nos afastássemos da realidade, Jordi conduz o espectador ao que pode ser o mais próximo à experiência de construção do sonho, caso fosse possível acompanha-la consciente. As duas instalações, máquina e humana, fundem a perspectiva de haver outro dispositivo de consciência, portanto. Surge, assim, outro, um dispositivo poético. Vem dele a experiência final. Como se nos deslocássemos também de nossa consciência, tal qual reconhecemos em segurança, como se nos distanciássemos da realidade, assumindo o existir poético, ainda que matemático e estrutural, experienciamos o esquecimento de ambos, e o corpo, dimensão mais efetiva de pertencimento ao real e a consciência, deixa de fazer sentido e de existir. T, de Jordi Garlí, provoca a experiência sensível de perda da materialidade do corpo ao sublimar a perspectiva temporal, enquanto oferece a sensação de sonhar como sendo outra realidade a partir de um existir poético. Ao final, enquanto a máquina ao fundo do palco lentamente diminui o ruído que se assemelha a uma profunda e íntima respiração, o espectador é trazido de volta ao real de modo delicado e sem traumas. Não há violência ao nos devolver a consciência e o presente. Mas é impossível, uma vez tocado o sonho, deixar de ter no corpo a experiência de uma poesia inesperadamente impossível.

 

por Ruy Filho  __ foto Eva Zubero


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__A Emparedada da Rua Nova

 

 

De Eliana Santana

Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo

 

Um corpo e dois atos que repartem o tempo. O fogo observa a performer e a performer cria íntimos diálogos entre a chama e o mundo. Poderia eu elaborar sobre o butô e a canção brasileira que atravessou a sala - talvez esta fricção excitasse o leitor. Entretanto estou ciente que seria apenas a pobre articulação de artifícios que roubariam a despretensiosa beleza do que está posto em cena. É preciso dizer que, na primeira parte, o que está configurado é um delicado administrar de energias e aquele corpo que toca a imobilidade e liberta a expansão cria, com naturalidade orgânica e paciência existencial, elevadas doses de tensão e outrora leveza. É curioso que se fale da violência com tamanha ternura pelo violentado e tão pouca agressão ao gesto daquele que matou. É preciso que haja profunda elucubração sobre o que é que se deve parir e deixar no mundo. A artista parece ter consciência total daquilo que deseja deixar escorrer, enquanto memória, para seu público.A síntese do que se é possível realizar, quando a arte encontra o corpo e o corpo está realmente em diálogo com a mente, é colocada no mundo de forma perene e "infinitamente pessoal", como outrora pronunciou Caetano Veloso. Parar o tempo já seria feito que saltaria aos olhos dos contemporâneos, mas pausar a alma é sim qualquer coisa que nos revisa enquanto espectadores. Fecha-se uma sala, e dentro dela o artista pode exercitar a crueldade de sua lerdeza ou de sua disparada. Sem concessões ou meios-termos estéticos. Nem sempre a arte e o artista encontram o ponto exato desta ruptura. E é por isto que esta obra se faz tão avassaladora. Ao encontrar e sugerir tantos procedimentos estrangeiros ao tradicional desta prática, a performer cria uma poderosa homenagem à tradição (talvez) do butô. No segundo momento tudo está no rosto e no ar que rodeia seu crânio. É possível dizer que esta feiticeira tem um estranho pacto com a atmosfera da sala. Nada escapa impune ao seu ímpeto, por sentir e fazer sentir as dimensões daquele espaço. Tudo queima em paralelo aos pavios. Hoje, eu não lhes darei conceitos. Não ficarei brincando fingir que não fui radicalmente atravessado pelo ritual de beleza que vivi. É preciso saber a hora de não pensar demais acerca daquilo que não perguntou nossa opinião. Este é um daqueles trabalhos que gostaríamos de indicar aos vivos, dedicar aos mortos e exibir aos alienígenas. É preciso avisar toda gente. É preciso informar ao mundo que a dança está exercitando sua responsabilidade. O caminho de fogo é inerente ao projeto dos artistas. O calor nos cerca. Tudo pode de uma hora para a outra simplesmente queimar diante de nós. Ainda assim é preciso que o artista prossiga através de seus lentos passos ficando os pés na terra e deixando-se sorrir quando chega o segundo ato. E sempre haverá segundo ato, se assim insistirmos. Eliana Santana é uma grande artista.

 

por Marcio Tito  __ foto Rodrigo Eloi Leão


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__We are still watching

 

 

De Ivana Muller (Zagrebe/Paris)

SESC 24 de Maio

 

Apenas um único procedimento preenche tempo, espaço e ação ao longo de, talvez, uma hora. Sua verdade e modus operandi despertam possibilidades mediadas, previstas, controladas. O público, os atores, nós, agora, aqui, somos os eleitos e toda a vida dependerá de nossa participação. Talvez seja um bom instante para lembrarmos que os grandes artistas raramente são manipulados e, quase sempre, involuntariamente ou não, tendem à manipulação total da realidade. Seja a produção de um mercado de arte, seja a influencia social, política, ética, comportamental. O artista está mais para o megafone do que para o anonimato. Embora esta vocação esteja em crise, é importante que ela aos poucos se regenere e tome para si as responsabilidades que lhe cabem. O procedimento deste trabalho torna-se cruel, pois não oferece escape. Torna-se belo porque seduz. Torna-se cruel porque seduz para que não se possa dele escapar. Dentro da estrutura, aonde é o público quem encena o trabalho, o artista, trabalhando a própria ausência, paradoxalmente ganha total controle da situação. Se dizemos que grande parte da obra está na reação do público, o que dizer de uma obra que acontece apenas na ação dos agentes que assistem e, ao mesmo tempo, agem? Quebrou-se a quarta parede. Quebrou-se a plateia. Quebrou-se o palco. O espetáculo encontra aqui um limite claro - talvez uma de suas maiores contradições na arte moderna - o que seria da arte, caso a arte entrasse em um processo de autodeglutição de seus processos? Faxineiros limpariam expressões abstracionistas, o público tomaria o lugar dos atores, não-atores ganhariam Cannes, Carolina de Jesus seria uma das mais importantes autoras da literatura brasileira. Todos estes exemplos configuram um novo tempo. Ou uma estranha forma que sempre se renova e viaja através dos tempos. Estes exemplos são obras de um Duchamp chamado Deus, um curador-criador sempre disposto à metódica revisão dos conceitos da arte estabelecida e hegemônica. Tudo pode causar estranhamento, mas nem tudo pode romper dentro de nós a beleza. Está aí fora um mundo que é autoritário para que tudo se mantenha como está. Na arte a autoridade se configura para que tudo se transforme e deixe de ser como sempre foi. Este é sem dúvidas um dos mais importantes trabalhos que pude presenciar neste ano. Sua força de invenção e investigação e sua peculiaridade apresentam lugares insuspeitados que raramente o artista é capaz de visitar. É preciso sair de si para encontrar tão desavisadamente o outro. O que é que faremos com tantas novas perguntas? Estamos em boa fase para tal ruptura? Agora já foi. Tudo quebrou-se durante a apresentação desse elementar espetáculo. E como não bastasse a ousadia, ainda está sugerido que o gênero é a dança. Dança? Eu desisto. Não aguento mais perguntas. Ficarei aqui pensando que vivi alguns instantes de beleza e criação diante de uma das mais complexas e revigorantes estruturas que a Arte pôde me oferecer. Existe aqui a bravura bilateral, a bravura que se retroalimenta da bravura inesperada...

 

por Marcio Tito  __ foto Ian Douglas


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Ruy Filho e Marcio Tito escrevem a convite do festival.

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