Acompanhe aqui as resenhas sobre o festival.

 

 

__O Assassinato do presidente

 

 

Direção: Paulo Faria

Elenco: Leona Jhovs e Paulo Faria

Texto: Paulo Faria

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

O colapso de uma relação familiar produz desejos que vislumbram qualquer direção. Sodomizar a cria. Matar o presidente. Cada coisa no seu não-lugar. Pensar a vida política atravancada pela esfera particular parece enredar as motivações de cada uma das personagens. O presidente figura como efeito imaginário, como um vulto do poder, como uma assombração na vida dos “mortais”. A impossibilidade de torná-lo real o torna poderoso. Matar o presidente poderia ser o motor, mas surge como as placas que indicam os desvios da viagem. Sublinhando discursos sociais a leitura insiste no plano-seqüência. Existem poucas estratégias dramatúrgicas e isto parece propor a vocação do triller-dramático. O teatro pode sim estabelecer a representação dos insensatos, pode sim trazer para a luz os revoltosos e os anarquistas de extrema direita, mas é também da predestinação do teatro a elaboração de metáforas que possam tornar tudo isto um contexto. O texto, ao que pude entender da fala do elenco, ainda atravessará olhares e ensaios. Talvez seja o momento ideal para evocar possibilidades de montagem dramatúrgica. É possível pensar que a forma possa emprestar novas expectativas ao material. Os marginais precisam de uma forma não-marginal para que seus atos ultrapassem a barreira do ressentimento e alcancem o discurso social. – A história de um povo é também a história de seus bandidos – Alfonso Romano de Santt’anna.

por Marcio Tito


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__Aqui não é o Lugar Certo

 

 

Direção: Vanessa Bruno

Elenco: Antoniela Canto e Gabriela Fortanell

Texto: Paula Autran

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

O mesmo segredo organiza as duas instâncias que definem a situação. Um possível acidente e uma possível enredação romântica tornam a cena porosa em todas as direções. As duas "viúvas" de alguma situação por nós desconhecida, de forma antagônica, estabelecem Tchecoviana atmosfera. Talvez um som de mar seja aquilo que nos conecte ao além-mar das interpretações. O peso da dupla de atrizes empresta novas configurações ao drama e estabelece uma poderosa primeira cena já começada em terreno agudo. A intensidade dos olhares elabora contornos aos diálogos e é aqui o lugar onde a montagem melhor acontece. Quando as possibilidades da trama encontram os acertos das interpretações, quando o peso das imagens esbarram na energia das possibilidades sugeridas. Engajadas em uma interpretação quase cinematográfica, as duas atrizes tornam-se a primeira camada da cena e o texto encontra aqui a sua mais importante função - possibilitar atmosferas de jogo e, não sem demarcar seu terreno, oferecer sua carga de situações. As palavras armam o ringue para os dois arquétipos que disputam a autoria de um passado enigmático e controverso. Sinto falta e sugiro, para maior complexidade da cena, um efeito menos cronológico ou novas e outras formas de exercitar o tempo-espaço da cena. Os procedimentos de montagem poderão sugerir, como no cinema, outras camadas de significado para aquilo que já está, por ora, posto pela lógica da ação. Ainda é preciso driblar a racionalidade.

por Marcio Tito

 

Ao construir estratégias para uma dramaturgia que se propõe próxima ao real,sejam quais os forem os níveis dessa aproximação, sobretudo se pelo diálogo, duas são as possibilidades essenciais: trazer pela palavra o desvelar narrativo ou a revelação das personagens que sustentam a narrativa. De todo modo, a palavra implica em compor por si mesma a ação de deslocamento ao desenho das personas e das ações. O modelo parece simples, mas não o é. Requer a perspicácia de não antecipar fatos ou traços, o que desmontaria o interesse de modo irrecuperável. Aqui não é um lugar certo supera os obstáculos mais complexos e conquista espaço em ambas as condições, ainda que a cena seja demasiadamente curta para tanto deslocamento narrativo. De todo modo, frase a frase, o enredo surge na mesma intensidade das duas mulheres, sem que um mecanismo se sobreponha ao outro, escapando, assim, da artificialização óbvia de gerar impactos. Ao ser mais sobre o que não é dito do que sobre o diálogo exposto, produz o efeito desejado de mistério e abertura às possibilidades próprias de cada espectador. Em poucos momentos, as palavras parecem escapar da boca e o ritmo de suas interpretações requer das atrizes dramatização exagerada. Nada que seja suficiente para nos afastar por completamente, é verdade, mas cabe uma lapidação de um pouco mais de silêncios, distâncias, olhares, tentativas, recuos e encontros. Muito disso já está presente na delicada direção de Vanessa Bruno, o que faz acreditar que se continuado a cena pode vir a ser um bom espetáculo. O dilema maior, porém, a ser resolvido é a perspectiva de uma única camada sobre aquilo que a narrativa revela ser seu tema ao final: o abuso e violência contra a mulher. Sem trazer sobreposições inesperadas, acaba por ser afirmação de um discurso que, ainda que urgente, pode ser problematizado no teatro de modo mais inesperado inclusive em seus julgamentos. Para que um tema se torne urgente independentemente de sua validade real é fundamental ser também ao exercício de construção teatral, quando assumirá a qualidade de original às vozes das artistas. É o que importa, ao final: ser radicalmente e além de tudo artistas na maneira de elaborar estéticas e conceitos, sistemas cênicos e vocabulários de interpretação. E tudo indica que isso poderá acontecer muito em breve se se permitirem irem além dos próprios objetivos.

por Ruy Filho


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__“AMIGAS…”

 

 

Direção: Rubens Rewald

Elenco: Doró Cross e Lilian Bites

Texto: Rubens Rewald

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Algo faz lembrar " O grande chefe", de Lars Von Trier... Recebemos o relato de um mundo cheio de buracos. A convivência jogada em um abismo de desinformações e o mundo do trabalho cercado por buracos de significado. A despretensão é uma poderosa forma de incluir o olhar do outro na perspectiva da cena. As atrizes articulam inteligentes argumentações sensíveis, através de suas interpretações, para humanizar e aproximar as suas dóceis e não dóceis figuras. Pensar o mundo segundo a falta, e a política segundo a sobra, nos faz perceber quem realmente organiza o que está dentro de todas as relações. A mesquinhez pode parecer um defeito, mas talvez seja apenas o resultado das nossas respostas ao mundo. E a vontade de vencer e de crescer, fatalmente, pode configurar um estranho paradoxo sempre pronto a estrangular aquele que seguir nesta busca. Mover-se no mundo pode significar pisar em algo. Pode significar sair da sombra e matar a função da árvore. Cada movimento, dentro desta estrutura social empapada de regras e correlações, cheia de efeito e reação, é sempre um risco para os que desejam atravessar a vida sem causar frisson. O texto, de forma simples e direta, de forma estética e bem articulada, organizada e consciente das razões de ser de uma dramaturgia, evoca pautas contemporâneas e empresta ao tempo a habilidade de portar-se dentro do presente. Importante reflexão que nos faz pausar as opiniões e acessar os recantos misteriosos daquilo que está posto além de nossa bolha social. Raro encontro dentro do evento. Que estas palavras soprem ar nas velas do desejo e que a montagem encontre seu caminho de realização.

por Marcio Tito

 

Quando os acontecimentos são incompreensíveis, até mesmo as conversas mais triviais acabam preenchidas por subtextos um tanto quanto surreais. Tudo parece estar se deslocar para outra perspectiva de entendimento de modo a ressignificar os gestos mais prováveis. Nessa deformação inesperada da perspectiva, o indivíduo se reapresenta ao outro não como um desconhecido, mas como aquele que não se notou durante todo o tempo. Há nisso a reapropriação de meios próprios do teatro do absurdo de Ionesco. Contudo, não se trata de conduzir pelo imprevisto, e sim de encontrar o imprevisto como realidade palpável. Em Amigas, Rubens Rewald resolve o arcabouço narrativo por meio de falas que cortam o silêncio, como se fosse impossível não falar. Mas o que falar? E o que ainda é preciso falar? As duas amigas de trabalho não respondem uma a outra, mas a si próprias assumindo um estado de conformidade que revigora a relação a cada sentença emitida. São julgamentos silenciosos, são vazios verborrágicos, enquanto o contexto destrói a possibilidade de alcançar saídas. A cena é simples e entregue às atrizes que a validam de modo ímpar nesse jogo de antagonistas sem protagonismo. Ao reativar em áudio, pela voz editada de Michel Temer, as falas que traduzem o ridículo de seu percurso inicial como presidente, os acontecimentos reativam sua qualidade caricatural superando as tentativas das atrizes em fugirem da naturalidade. Nada é capaz de ser mais farsesco do que o real, portanto. E o teatro, ainda que meio escolhido para nos provocar tal percepção, insiste-se em resistir como dispositivo de reinvenção tanto quanto expõe sua incapacidade de ser maior do que os fatos. Amigas consegue equilibrar com aparente facilidade a relação entre o fora e dentro da cena sem precisar utilizar muitos elementos ou grandes estratégias narrativas.

por Ruy Filho


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__Coração de Basalto

 

 

Direção: Celso Cruz

Elenco: Celso Cruz e Dill Magno

Texto: Celso Cruz e Guilherme Freitas

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

O teatro pode ser o instrumento que liga as instâncias da vida. Um tipo de ritual que visita a morte e, dentro deste contexto, cria diálogos com o impossível. É bonito pensar que em raros momentos o teatro deixa de ser a mediação da realidade para tornar-se, de fato, real. E quando isto acontece as coisas surgem para além da forma e do resultado. É urgente oferecermos novos usos para o palco e para o drama, isto nos devolve algo que a produção voltada ao mercado nos furta à todo instante. Nem sempre a arte precisa resultar. Nem sempre a presença é voltada ao espectador. Toda a despretensão foi bem-vinda. Vimos uma homenagem para aquele que se foi - isto basta. Cada um de nós carrega galharufas (voluntárias ou não) que significam um pouco o nosso caminho. Neste caso o teatro agiu como catalisador da memória e da saudade, isto mostrou-se vívido e poderoso e, que o artista tenha tido aqui uma doce evocação de sua história...

por Marcio Tito


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__Leoa na Baia

 

 

Direção: Aline Negra Silva

Elenco: Miriam Limma

Texto: Maria Shu

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Há uma leoa na baia. Sua consciência permite apenas reconhecer o lugar e não o sujeito. Reconhece as tábuas que limitam o seu lugar, mas não se reconhece felina. Equina, talvez. Seu olhar que pouco pode cruzar as baias alheias, cruza com o meu e me reconfigura. Seu olhar atinge o meu ao passo em que desperta em mim um estado de consciência. Há uma força tremenda diante de mim. Me dou conta da complexidade de uma personagem como uma atendente de telemarketing para o teatro: há uma dramaturgia sinuosa em sua existência. Tudo o que ela diz não é o que ela gostaria de dizer. Sua fala é deslocada de suas intenções. O seu drama está, pois, na incapacidade de dizer o que gostaria. Sua fala não segue o pulso do seu pensamento. Uma mulher emudecida pelo excesso de fala. Há um tanto a ser dito. Há a iminência do arroubo. Uma leoa prestes a rugir. A atendente de telemarketing concentra em si o rancor do mundo, quem a suporta? Que rosto tem? Quantas vezes descontei a ira ao telefone com um rosto desconhecido e uma voz que seguia incólume a minha fúria? Como o oco do mundo que absorve todos os problemas e reclamações, a atendente sofre também com o machismo e racismo no ambiente de trabalho. Mas ela está prestes a olhar para si. É possível sentir a iminência do rugido. O animal, que dentro da baia fica acuado, sabe pouco de seu tamanho. É difícil compreender que um espaço é pequeno quando ele é o único que se conhece. Como se constrói a consciência? Como se rompe os limites impostos? Como reconhecer o machismo e o racismo quando não se conhece outra possibilidade de vida? Como estranhar a realidade? Como olhar para além do estábulo? Maria Shu em “Leoa na Baia” traz a discussão sobre racismo e machismo de forma precisa. Deparamo-nos com o percurso de uma atendente de telemarketing alimentando um estado de consciência sobre si, sobre o outro e sobre o mundo. Seguimos o percurso da juba apresentando-se, do rugido em estado de ensaio, da experiência em assumir-se leoa. Há leoas com juba! Miriam Limma convoca a todos a olhar para além de suas baias. Chupa essa Simba!

por Ana Carolina Marinho


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__Pornô Pela Manhã

 

 

Direção: Ian Soffredini

Elenco: Karla Bonfá

Texto: Fábio Brandi Torres

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Quando o Estado não assiste a moral de perto, é a mídia quem surge para cumprir este papel. O noticiário convulsiona, afinal, precisa atender muitos interesses e torna-se impossível manter curadoria sobre isto. A atriz pornô é a maconha criminalizada. É o paradoxo que revela o ridículo das nossas preocupações, o ridículo e também o escuso dos interesses... Tudo poderia parecer banal se de fato não o fosse. E, por sê-lo, não é preciso revelar sua banalidade total. Esta sobreposição é a redução da maioridade penal e a criminalização do aborto. E, embora em determinados momentos a retórica não nos ofereça complexidade, duas coisas estão em disputa: a ótima sinopse que nos oferece infinitas possbilidades e o excelente desempenho de Karla Bonfá. Sendo o humor a estratégia da obra, Karla opta pela farsa. Uma elegante escolha para organizar o tempo da atriz e o tempo da personagem em cena. É um equilibrado encontro da técnica com o material. Seu jogo fica evidente quando seus olhos passam a narrar sem que haja uma forte caricatura no palco. Karla nos oferece o mais minucioso e íntegro trabalho de atriz até então. Há fôlego para uma possível montagem.

por Marcio Tito


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__Aula de Reforço

 

 

Direção: Vicente Negrão

Elenco: Álvaro Motta, Guto Almeida, João Luiz Vieira, Jeyne Stakflett, Maira Helen e Nyrce Levin

Texto: João Luiz Vieira

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

“Aula de Reforço” inicia com uma descrição de cenas tão minuciosamente elaboradas que se aproxima de roteiros de cinema. O autor privilegia a descrição de objetos de cena que não serão utilizados, senão para enfeite, o que confere à leitura um preciosismo que conduz a imaginação a pensar no que se ouve como um filme. O excesso de elipse aprofunda a sensação, em uma cena estamos no consultório, na cena seguinte no banheiro e ainda há passagem de tempo – a narrativa avança dois anos. A dramaturgia, porém, excede-se para além das rubricas, as imagens que povoam o imaginário se desmembram com as falas longas e explicativas, que convocam pouco o espectador, tudo é dito sem que se haja contradições e incoerências, até quando pode haver mistério ele se dilui por sempre ser anunciado. O que faz com que a primeira impressão de que a dramaturgia continha elementos cinematográficos se transforme em roteiro televisivo. Os personagens têm muita consciência de si e se enganam pouco, o que torna o suspense previsível. O excesso de descrições, de explicações e de conflitos fragilizam a trama que se apresenta no primeiro instante com muita força. Tudo inquieta ainda mais a plateia quando a dramaturgia volta ao ponto inicial, trocando apenas os gêneros dos personagens. Metade do público desiste, muito pelo desconforto que a narrativa novelesca nos gera e por subestimar nossa capacidade de apreensão da história. A troca dos gêneros cria uma sensação perigosa e equivocada de que as coisas são para homens e mulheres da mesma maneira. É preciso ficar atento e não reduzir as diferenças, elas existem e são numerosas.

por Ana Carolina Marinho


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__Ponto de Fuga – um ensaio

 

 

Direção: Mateus Monteiro.

Texto: Rodrigo Nogueira

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Eis aqui um excelente exemplo de como a forma pode trazer virtude ao conteúdo. Uma classe média desinteressante, borrada por intimidades e ações interiores, poderia agradar pouco. Entretanto, a montagem formal das cenas e a conexão interna dos instantes da trama oferece uma acertada polifonia ao material. A organização é metódica e recheada por rimas internas. Como se os pontos pudessem conectar-se através da presença do publico, o texto oferece claras balizas e obscuras motivações. Isto produz um efeito de suspense que hoje se faz raro no teatro. A brincadeira de contar uma historia e, sabendo contar historias torná-la superior a sua própria estrutura narrativa é um jogo que ainda interessa ao público e ao artista. Válido ressaltar o bom gosto da direção que teve a elegância de priorizar o texto, neste evento que tem foco na análise dos dramas apresentados, mas que tem vivido duros golpes da cena contra a dramaturgia. E, para uma futura montagem, parecerá importante que a direção saiba criar paralelos visuais para dinamizar o que está apontado no material. Tendo intrincada arquitetura, o texto prescinde de um tipo de energia cênica que o torne um móbile encaixável. As edições serão bem vindas, bem como as digressões e possivelmente outras cenas apenas visuais chegarão para que se possa colaborar imagéticamente com a dinâmica formal da edição das cenas.

por Marcio Tito


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__Pó de Estrela

 

 

Texto: Nina Nóbile e Carol Pitzer

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

A proposta é bastante espacializada em um campo de interesses que devem atender ao gosto das autoras e dos intérpretes. Transmite a impressão de que as questões ali demonstradas tocam os artistas, entretanto, não me sinto capaz de elencar quais seriam os assuntos abordados. Tudo nos remete a alguma possibilidade de narrativa política, mas existem tantos vetores que acabamos tendo dificuldade em compreender a missão da obra. O humor satura. A codificação terminologica satura. A pretensão satura. Tudo ali se pretende para além do que está tudo posto. Nega-se o teatro ao ponto de não restar pontos onde possamos agarrar a atenção. Não sei para quem poderia interessar este tipo de fábula que, além de se organizar pelo clichê do golpe político e da tomada do poder, ainda embala a obra com uma estranha camada de ficção científica afetada. Fica o elogio por ter havido ensaio e também por nos oferecer uma ruptura tão vinda de lugares que desconheço e não sei rastrear. Foi sim um fracasso total, mas existe o mérito de ter sido um fracasso de grande porte.

por Marcio Tito


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__Reforma Política

 

 

Texto: Jô Bilac

Elenco: Tatiana de Lima

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Colocar metáforas em diálogo não é dos mais fáceis exercícios. Praticar metáforas com as metáforas e disto extrair paradoxos é movimento quase heróico. Entender o teatro segundo estas possibilidades tão incomuns quanto radicais oferece fôlego aos novos modelos. Jô Bilac, que no ano passado apresentou Flor Carnívora dentro do mesmo evento e projeto, parece ter apreço pelo risco. A “Reforma Política” é um tipo de empoderamento da utopia brasileira, um reforço de nossos ideais, uma das poucas formas de vermos realizado este estranho projeto de horizontalidade e superação das desigualdades. Por tratar-se de um ousado plano, diretamente conectado com a experimentação, ficam mais evidentes suas fragilidades. Impossível pensar esta cena sem imaginar o que seria dela se cada uma das pautas fosse elaborada de forma mais clara e, talvez, até mesmo contra a idéia de fábula que está implícita no enredo que amarra a situação. É certo que com o avançar do texto e da montagem, havendo horizonte narrativo para as idéias já apontadas, e havendo também uma maior disposição temporal e espacial para as situações, surgirão novas e outras possibilidades de organização pra o que já está posto. Ainda assim, no ponto em que repousamos até então, o que se mostra é uma urgente e peculiar noção de dramaturgia que coloca em xeque não só as idéias políticas e a estrutura brasilis, como também o achatamento das arquiteturas dramatúrgicas contemporâneas. Um trabalho revelador de múltiplas instâncias do teatro e ... para além...

por Marcio Tito

 

Alô? Silêncio. Alô? Não se faça de doido. Pausa. É a última vez que eu insisto. Silêncio. Meu celular está descarregando... Silêncio. Fala alguma coisa. Silêncio. Para com isso, vai. Silêncio. Ela olha para o celular e verifica: a chamada ainda não havia sido efetuada, o touch paralisou. Ela, a Brasileira, reinicia o celular. Digita novamente. Hesita. O tempo suficiente para a conspiração. O telefone toca, ele, o Brasil está na linha. Ela atende. Tudo o que ela havia planejado falar se esvazia diante da surpresa. Conversam trivialidades. Ele avisa que vai passar um tempo longe, precisa respirar um pouco. Ela diz que entende. O telefone descarrega. Ela queria ter dito um tanto mais, mas agora paciência. Ela tenta respirar profundo, mas está numa crise bronquite. Tosse. Diante dela está um casal de colegas - a Reforma Política e o Sistema Político – eles se conheceram em um aplicativo de encontro de casais, mas eles não se lembram ou fingem que não a conhece. Ela decide seguir atrás deles ouvindo a conversa. Reconhece similaridades, mas se entusiasma com a vitalidade da Reforma Política, com o furor com que ela articula o pensamento e suas inquietações, a Reforma não poupa o que diz e se atreve a desobstruir os problemas engasgados, beira o fim da relação. Ela, de soslaio, fica impressionada com a Reforma: quanta altivez! Ambiciona sua autoestima. Dos olhos da Reforma se vê o mundo inteiro em colapso, há um abismo naquela relação. O Sistema Político fala pouco e desarticulado. A Reforma é intensa. Algumas pessoas do outro lado da rua se incomodam com a gritaria, chamam-na de histérica. A Reforma sabe sobre misoginia. A Brasileira se espanta. Não consegue parar de seguir os dois, teme ser reconhecida, mas decide se arriscar. O casal se separa sem despedidas. A Reforma Política entra em um prédio de teatro na Praça Roosevelt, a brasileira a segue.Foi assim, que conheci o furor da Reforma. Eu, a Brasileira, permaneci atenta a ela. Quanto ímpeto! Uma vitalidade necessária a Satyrianas.

por Ana Carolina Marinho


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__A História dos Objetos

 

 

Direção: Lucianno Maza

Elenco: Douglas Simon, Fernando Flaye

Texto: Zen Salles

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

A falta de habilidade para tocar o tempo presente demarca não só a leviandade com que se trata o público, como também o nível de fetiche que alguns artistas empregam ao teatro. A arte, sendo aberta, pública, em constante diálogo com a transformação das coisas, não está autorizada a querer dizer tão pouco. Mesmo a simplicidade formal não atua como escolha, revela mais um limite do tema contra a forma, do que um ideal estético consciente. Por não haver o que ser dito, e aqui está à inerente tragédia, nem a cena se articula para dizer, nem a dramaturgia se organiza ao ponto de romper com o que vemos e não vemos. Tudo absolutamente obscurecido segundo a total ineficiência em contar uma fábula que fosse importante ou relevante. Ainda que o público tenha se mantido disposto e no limite da atenção, o mesmo não se vê na evolução das cenas. O elenco segue o fluxo, mas, neste caso ... É o fluxo quem os enforca. Foi um exercício de estilo? Foi um jogo de recriação de algum filme feito para a TV? Em qual instante o mundo passou a não precisar mais da voz dos artistas? O autor deveria sentir-se um pouco mais importante. O autor deveria saber que é notado e visto. É preciso ultrapassar esta estranha clandestinidade...

por Marcio Tito


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__Don't Stop Me Now

 

 

Direção: Renato Andrade

Elenco: Gustavo Merigui, Inês Aranha, Lucas Romano e Mari Rocha

Texto: Renato Andrade

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

O que exige criar e o que traduz essa necessidade um percurso que conduz o artista ao palco ainda é um mistério. Deve ser assim, de fato. Nada impõe o conhecimento pleno dos interesses e necessidades, sobretudo em arte. No entanto, as premissas, por mais individuais que sejam, dialogam com o espectador por caminhos não planejado, uma vez se efetivar um espetáculo no encontro com o outro. Esse é o grande paradoxo quase sempre não compreendido. Ao não se ter o outro como interesse final, o teatro se salva das tentativas de tradução, explicação, demonstração, resumos e lições. Sem que faça assim, o apresentado firma sua limitação servil ao desenho de um argumento e de suas contextualizações. Inevitavelmente, o resultado é menor como teatro, enquanto insiste em se justificar pela mensagem embutida. Cabe, então, encontrar aqueles que podem trazer mensagens inesperadas, estruturas de pensamentos imprudentes e ousadas ao ponto de se arriscarem ao equívoco. Se, mesmo assim, nada disso fundamenta os argumentos, então surge o problema de ser óbvio e desnecessário. Don´t stop me now perde-se nessa armadilha. Ao tempo em que busca ser relevante na maneira como expõe os problemas comuns, entendendo-os comuns e inevitáveis – a saber a realização de si e o próprio conhecimento, tendo o desejo como parâmetro de satisfação -, não amplia a abordagem, mesmo com a boa qualidade da escrita. Parece sempre a mesma narrativa, os mesmos fatos, os mesmos problemas, as mesmas respostas. E por se parecer assim, tanto do teatro se faz idêntico ao que existe já em excesso, quando da televisão, que, em parte, superou esses mesmos argumentos. O espetáculo não vai além da mesma fala e, por conseguinte, da mesma experiência. Descobrir o quanto nisso é ingenuidade ou desperdício é impossível, pois exigiria conhecer o que levou os artistas a criarem mais do mesmo, visto ser evidente a vontade em fazê-lo. Não basta sinceridade ao querer, é preciso desconfiar das facilidades dos interesses e o quanto ele é moldado por ondas que se contaminam, de modo a conduzir a criação à confirmação do fluxo que aí está. Cabe mais. Mas para isso é fundamental estar aberto a ir além da necessidade de se falar e conquistar o outro, enquanto se perde perigosamente ao risco de ter o teatro como escuridão.

por Ruy Filho

 

Caetano Veloso algum dia perguntou – O que será do Brasil quando esta geração chegar ao poder? Com relação à posse da república, vivendo a ressaca, já podemos intuir. Com relação ao teatro, não sem dor, estamos confirmando. O que temos visto é uma sequência de cenas que, primeiro, não mostram qualquer disposição dramática – quero dizer- dramatúrgica. Tudo parece depender da personalidade do autor. Das vontades e ocasiões que o autor viveu. A de falta ficção abastece o teatro. Se por vezes as personagens visitam estereótipos, outras vezes o épico surge para dar fôlego ao que sufoca o enredo e as ações. E, neste caso em específico, nesta peça, o que mais impressiona é a banalidade do que se diz. Seja o horóscopo como fórceps para arrancar risadas, seja a relação desencontrada entre um sujeito gay e outro sujeito hétero – pobre daquele que vislumbrar nesta trama qualquer possibilidade de reorganização da moral, da sociedade ou deste tempo. Tudo compõe sempre o mesmo enredo que, talvez por apavoramento, ilustra a realidade sempre à distância. Necessitamos de revisões ousadas, de propostas até mesmo cruéis. Não se pode falar sobre a urgência do material, pois tudo parece bem estabelecido segundo a segurança do palco. Dentro do palco, dentro daquelas palavras, nada pretende o risco, tudo está completamente passivo perante a história do teatro brasileiro e da política atual. Criar uma forma ou combater outra, pensar o teatro ou destruí-lo conceitualmente para recria-lo a seguir, combater os discursos ou reforça-los, nenhum destes paradoxos apresenta-se e, assim, portanto, tudo que está posto apresenta uma única camada, um único direcionamento e nenhuma petulância a respeito do tempo presente. Me diga. Se for para isto... Qual a necessidade do teatro?

por Marcio Tito

 

Quatro personagens presas em inquietações de classe, em problemáticas pálidas, em dramas distantes da realidade e da urgência dos nossos tempos. Não que a arte deva servir ou deva nascer com algum propósito, mas há que se inquietar com aquilo que surge com o fim de falar sobre "urgências" e não passa de dramaturgias televisivas – a que se considerar que as novelas compreenderam que é preciso tornar as personagens mais complexas e o enredo menos previsível. Afinal, com qual urgência "Don't stop me now" quer dialogar? Os padrões heteronormativos são reproduzidos ainda que se queira falar sobre relacionamentos homoafetivos, plurais e poligâmicos. Há que buscar entender porque a dramaturgia aqui apresentada apresenta-se com grande semelhança e opta pelas mesmas escolhas que outras vistas no mesmo dia: astrologia, jogo da verdade, uso do telefone em cena, por exemplo. As cenas são todas introduzidas por frases que buscam situar o espectador, como se subestimasse a capacidade do público em compreender os saltos no tempo e espaço. A quem vê interessa construir os percursos que não são oferecidos facilmente. Dessa forma, não se faz necessário que da boca do personagem saia o que é possível se ver ou construir na imaginação, se não para propor contrapontos, intensidades. Frases como “o Pedro está chegando, depois a gente conversa...” antecedendo a chegada do Pedro só reforça esse desconforto em acreditar na capacidade criativa do espectador. Não nos privem de pensar, de questionar, de suspeitar! Deixem o teatro acontecer.

por Ana Carolina Marinho


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__Uma Certa Fome

 

 

Direção: Carlos Baldim

Elenco: Ricardo Ripa

Texto: Flávio Goldman

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

“Não conseguia parar de pensar no livro “Nos cumes do desespero” do filósofo romeno Emil Cioran. Aquela certa fome era da mesma matéria que a insônia, que a angústia que acomete o estômago na madrugada e não consegue silenciar. Um sussurro constante pela dor de existir. Uma busca incessante por reconhecer a si e ao outro, em enquadrar o que se vê, em frear o pensamento. Mas não é possível, muito menos amanhã. O amanhã se enche de mais gente, mais histórias, mais invenções e mais possibilidades. Há sempre algo para suspeitar, algo para observar. A internet que permitiu ao mesmo tempo o acesso a inúmeras informações criou a cultura do pensamento estruturado em hiperlinks, em uma fala que tem dificuldades de existir longe da polifonia. Em “Uma certa fome”, o ator é veículo para essa pulsão de vida e morte que habita a existência da tecnologia que permanece até que uma nova a supere. A abundância que emudece a fome é perigosa, ela amansa o oco do estômago com frivolidades. Não se percebe a fome pela ingestão de amortecedores. Mas uma hora as vísceras hão de rugir. E quando, enfim, o celular descarregar será possível olhar para si refletido naquele espelho preto e seremos, então, um projeto de gente numa tela morta.

por Ana Carolina Marinho


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__A Cantora do 5º andar

 

 

Direção: Denio Maués

Elenco: Eloisa Leão e José Maria Cardoso

Texto: Denio Maués

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Ali, onde insistentemente muitos constroem discursos apoiados pelo realismo, em suas tentativas de solucionar o cotidiano sufocante, surge, inesperada e agradavelmente, outra qualidade ao palco. Nele, o canto lírico, o ator em gesto rígido e o texto onírico oferecem outra qualidade de experiência ao espectador, atraindo sua sensibilidade, traindo suas treinadas expectativas. Trata-se somente de um pouco de poesia. Algo tão distante dos interesses de ambos os lados do palco. Infelizmente. Não significa, porém, diminuir ou escapar das urgências desse tempo. O cálculo irrespondível que preparar o homem que ouve a cantora na sacada, suas frases iniciadas com dúvidas sobre as probabilidades ou possibilidades, expõe outra qualidade ao retrato daquele que, frente à violência e falência urbana, busca escapes através de sua ressignificação simbólica mais do que ao seu pertencimento pragmático. Consiste nessa tentativa em desespero contínuo, a vontade por recuperar a própria humanidade por meio do reconhecimento emotivo do que possa ser aceito como pertencimento. Mas pertencer a algo implica em reconhece-lo, e é esse o distanciamento maior apontado por aqueles em estado de solidão. A falta do outro, a falta do todo, a falta de sentido, a falta de possibilidade; aspectos de eliminação da humanidade que grita em crise por um homem atingido pela bela voz da cantora, tanto quanto grita na mulher que expõe ao vazio criado pelo excesso de ruídos a condição de uma presença poética. A cena é um alento ao que vem se apresentando nas Satyrianas. E o é, principalmente, por tornar pela escolha de ser poético a resposta sobre se cabe a arte a este momento. É incrível como a arte, ao ser trazida sem pretensão e com verdade, é suficientemente capaz de nos invadir de modo tão perturbador e delicioso.

por Ruy Filho

 

Uma poética para além do que se pode encontrar no grosso das montagens, de forma clara e direta, encarando suas questões estéticas, nos oferece um rompante de euforia visual. A arte, esta coisa que segue vivendo riscos desde sua primeira aparição, quando encontra repouso seguro tende a causar desinteresse, portanto esta apresentação trouxe contigo o mérito do não-lugar, do trânsito entre reflexão e execução. Neste caso, para além desta cena, porém elaborando um pensamento que parte dela, digo que a Performance existe para nos lembrar como a arte segue em resistência. Em A Cantora do 5º Andar o que se vê é um retorno ao clássico. O clássico teatro que reinterpreta a vida, que reconduz a realidade ao sonho, que cria imagens como simples jogo de estampar a vida real. O teatro, enquanto possibilidade de encontro com aquilo que não se pode ver ou vender ou catalogar, aos amantes da beleza, tem deixado saudades. Este gesto cênico oferece um segundo para pensarmos de fato estas questões importantes – A arte é isso? E o que fazer com ela? Qual sua vocação e interesse? Qual seu lugar no mundo, na vida, na gente? Ao teatro interessa a fricção entre produto e proposta, e cada vez que a cena beirava o abismo, e cada vez que a encenação parecia derrapar, era aí que surgia o encontro mais poderoso – o encontro do criador com a experiência real e concreta da vida, do teatro, outra vez... da gente...

por Marcio Tito


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__Mal.ditas

 

 

Direção: Emilio Rogé

Elenco:Alexandre Apolinário, Beatriz Belintani, Felipe Estevão, Luis Felipe Feltrin, Rodrigo Barros, Victor Gomes.

Texto: Lucas Arantes

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Ao reler a peça, para aqueles que a assistiram em outro momento, percebe-se dois pontos fundamentais: o primeiro, o quanto Lucas deu às palavras objetividade mais rude e determinista, impondo uma sensação trágica que se confirmará ao final; o segundo, também por essa palavra em ataque, a dimensão culpada da mulher, que agora assume de vez sua condição destrutiva. No entanto, enquanto a primeira valoriza o texto e sua tragicidade, o segundo induz a uma leitura de um único ângulo: o de ser a mulher culpada por passar aids conscientemente aos rapazes, e o de serem os mesmos aceitáveis quando se vingam espancando-a até a morte. É plausível na estrutura clássica da tragédia a existência do julgamento estar desde sempre condicionado ao sujeito, cujas transformações de nada impedirão de sofrer as consequências profetizadas. No entanto, não se trata de determinar sobre o personagem nessa posição uma única camada. As grandes tragédias eram capazes de nos induzir a acreditar ser possível escapar do destino, comprovando um engano ingênuo quanto mais a narrativa se enrola sobre si mesma surpreendente e intransferível. Assim, é de se perguntar o quanto a figura feminina, e sendo ela a única dentre tantos homens, não é demasiadamente achatada sob a perspectiva de sua culpa e responsabilidade, e se não caberia oferecer-lhe desvios que nos trouxesse empatia e menor julgamento. O quanto a tragédia contemporânea ainda necessita estar condicionada aos preceitos da tragédia clássica deve permear com igual proporção a dúvida sobre a validade desses preceitos. Ao erotizar a palavra em cena, direção e elenco constroem dois arcabouços a serem vencidos. Como não traduzir, portanto antecipar, pelo corpo e gestos os subtextos de palavras já tão objetivas, para que o espectador não permaneça apenas como ouvinte. Construir uma plateia em círculo inclui e constrange em iguais medidas, o que elabora desde o início um preceito cúmplice e impositivo ao espectador. Torna-lo, pois, observador destituindo-lhe também de sua capacidade imaginativa diminui a expectativa e sucumbe o espetáculo a um estado de espera. Até onde chegará, até onde os atores irão, até quando... Imaginar esses movimentos e subtextos é mais profundo do que qualquer representação, sobretudo quando não realizada a toda sua erotização. Real ou não, fazer ou não, tocar ou não, são questões que impõem o quanto próximo se quer o espectador da realidade do instante cênico. O círculo provoca essa expectativa; a cena, no entanto, foge de ir até às ultimas consequências. De verdade, o realismo seria uma exorbitância desnecessária, mas então é preciso rever os procedimentos para não tornar dúbias as intenções. Assim como o texto pode construir maiores riscos aos nossos pensamentos e julgamentos, a cena pode ir mais longe ao tornar arriscado estarmos no teatro. O erótico só faz sentido ser exposto quando não protegido. E as proteções só se justificam quando tornadas fetiches a uma falsa sedução. 

por Ruy Filho


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__Silêncio .DOC

 

 

(a apresentação não consta na programação e não possui ficha técnica)

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Embora seja precisa em suas pontuações e bem articulada lingüisticamente, a dramaturgia, sem constrangimento, visita lugares bastante delicados. O narrador elabora teses sobre sua ex-esposa e parece ter prazer em cometer alguns deslizes de fala. Politicamente incorreto ou não, o texto provoca sem oferecer possibilidades para que possamos conflitar suas intenções. É preciso repensar a voz do homem. Repensar o que dizem os homens. Cada questão é sempre calçada em inúmeras determinações ao redor, artistas precisam lembrar-se disso. Cabeça fresca infelizmente não resolve causa, leveza não atravessa vendaval. O ator foi bastante competente em humanizar sua personagem que não nos oferecia 360 graus, mas nem isto nos possibilitou refazer o percurso daquele sujeito e encontrá-lo em nós. Em cena, ali, resolvido no palco, todo o drama pareceu estar distante do mundo real. Naquele instante o teatro resolveu o mundo, mas esta solução custou a negativa da experiência prática da vida. Eu ainda assisto teatro e penso se as intenções ali são conscientes, ideológicas, ressentidas, culturais, inerentes. Talvez eu esteja empregando um excesso de filtros ao material, ou talvez alguns materiais estejam precisando rever suas certezas e suas verdadeiras inquietações. É preciso estar quase sempre insatisfeito...

por Marcio Tito


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__Desolador

 

 

De Gabriela Mellão

Elenco: Clóvis Torres

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Não é fácil trazer Artaud ao palco. Por mais que o pensador francês seja prolixo e amplo em propostas ao teatro, em qualquer representação parece sempre escapar algo que fora próprio apenas dele. Inclui esse algo a lucidez de sua loucura e a insanidade com que explode a realidade tornando-a algo maior do que o próprio homem. Ainda assim, de tempos em tempos Artaud é anunciado. Menos até pelos jovens artistas querem investigar suas proposições, e sim por ser ele a voz coerente ao niilismo e descrença que a todos se faz impositivo. Montar uma cena de Artaud é, portanto, vencer o desafio de não ser apenas a si mesmo, conquistando a oportunidade de ser ele durante o processo de sua reinvenção. Nada simples. Como se Artaud encontrasse Kazuo Ohno, o corpo surge em cena como argumento de ser a própria cena, enquanto a palavra traz a identidade que requer ser revivida. A materialidade é parte desse corpo que não se nega e esfacela em camadas, ao tempo que a consciência vomita o dizer como espaço irrecuperável. Não há volta ao corpo que se recria; não há retorno à consciência que se expande. E Clóvis Torres oferece qualidade ímpar aos dois por meio de uma expressividade não literal e estendendo o tempo das sentenças para que essas cheguem ao espectador como se atravessassem um deserto. De fato, a cumplicidade exigida é sobretudo emocional e as palavras não estacionam os presentes, atravessam. Há algo nesse percurso que nos coloca não no fim. Estamos no centro desse atravessamento. Por não escolher questões fáceis e artistas simples, Gabriela Mellão tem produzido alguns dos melhores momentos nas Satyrianas. E não só por isso. É visível seu interesse pelo teatro. E a paixão, quando assim exposta, compõe um tempo de manifesto sobre o quanto a arte pode elaborar interesse à transformação de todos nós. Poucos são os espetáculos que partem de poéticas para chegar a tanto, não pelas poéticas, mas pelas distâncias que muitos artistas se colocam dos riscos de se assumir poéticas. Gabriela corre os riscos sem qualquer dificuldade e vem superando um a um. É sempre encantador assistir esse gesto de respeito e invento. Desolador é, sem dúvida, uma obra a ser assistida por apaixonados por arte, por teatro, por atores e por artistas.

por Ruy Filho


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__Fecha os Olhos e me Beija Enquanto Ainda Há Tempo

 

 

Direção: Tati Marinho

Elenco: Alfredo Tambeiro e Pedro Henrique Coutinho

Texto: Franz Keppler

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Os fatos correm segundo aspectos que ultrapassam os fatos. Tudo é muito mais. Inúmeras ideologias circundam o que poderia ser real. Neste caso, refém de outras prioridades, o amor apresenta-se como possibilidade de partilha e refúgio. O amor, acuado, ameaçado pela mentira ou pela morte, pela violência ou pela inquietante doutrinação e manipulação da paz, configura talvez a única e última ilha de entendimento entre os que pensam no contrário da hegemonia. O medo pode sim disparar processos, pode mesmo organizar respostas, mas ainda assim, contudo, o medo é flagrante daquilo que nos coloca contra a parede. Sim, estamos colocados contra a parede e o relógio está nas mãos de outros senhores. Nossas respostas estéticas estão inviabilizadas, castradas, mediadas por um poderoso véu de interesses. Nossos discursos estão desviados segundo criptografias intencionais. Algoritmos estão sempre uns passos adiante. Quais as nossas reais estratégias? Qual a nossa real possibilidade dentro deste esquema? O amor que nos livra, que nos sublima, também pode ser o nosso alienador? As respostas chegarão segundo qual viés? Mansidão pode ser um tipo de passividade? O que nós esperamos de nós? O monopólio da violência talvez seja a questão invisível para esta pergunta inventada (por eles)...

por Marcio Tito


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__Lady Tapioca

 

 

Direção: Fernanda D’Umbra

Elenco: Paula Cohen e Angela Figueiredo

Texto: Mario Viana

Praça Roosevelt - SP Escola de Teatro - Dramamix - SP

 

Sendo este o meu último comentário que dará conta dos trabalhos aqui mostrados, supondo valer aqui uma breve reflexão sobre o que foram estes dias e noites de cenas e proposições, aproveito para inserir este texto, Lady Tapioca, ao lado de outros inspiradores acertos.Durante o Dramamix os trabalhos que com maior responsabilidade visitaram seu tempo foram os que estiveram preocupados com duas problemáticas centrais – o trabalho e a pauta dos jornais (bem como seus escândalos e dejetos).O Dramamix, importante momento em que alguns dramaturgos experimentam textos novos diante de uma platéia que surfou diversos estilos durante o festival, funciona, para muitos dramaturgos, como um primeiro encontro da obra do autor com a organização cênica do material.Assim sendo, não negando sua vocação primeira, aproveitando o que há de positivo em processos urgentes, os autores podem, de forma informal, mas nunca irresponsável, responder com maior precisão ao enunciado do festival e do projeto Dramamix. Este movimento não é mais do que uma oportunidade para o público apreender em cena o que tem acontecido na vida. O palco funciona como uma urgente explanação daquilo que até onde esteve preso nas telas da TV e nas páginas das revistas. É o instante em que o teatro corre mais depressa do que sua forma. E isto interessa ao teatro, interessa ao público e ao debate social.Os trabalhos mais frágeis, que trouxeram menores experiências e poucas provocações foram os que de fato os que negaram sua condição. Os que não estavam presentes no tempo presente. Os que compreendem o Agora como uma opção, e não como uma predestinação da arte.Já os que souberam acessar a importância da arte falar da própria arte neste instante, os que quiseram ver como as reformas políticas estão no tocante de nosso cotidiano, estes, acompanhados de suas equipes igualmente atentas, flertaram com instâncias realmente interessantes ao teatro e realmente conectadas com o sentido deste festival.Lady Tapioca coroa a responsabilidade de alguns dos dramaturgos outrora aqui citados. O texto bem escrito, claro e coeso, de opiniões diretas e organizadas segundo uma estrutura dramatúrgica precisa, além de extremamente bem defendido por Paula Cohen em detalhada e vibrante interpretação, funcionou como um bonito fechamento para um festival que nos ofereceu iluminados chamados ao contemporâneo. E que o teatro não se esqueça de sua responsabilidade, de sua autoridade na construção de novas e outras possibilidades de PENSAMENTO...

por Marcio Tito


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final

Termino outra Satyrianas

 

 

Um ano em que muito aconteceu ao país, envolvendo decepções, corrupções, violências de tantas ordens, crescimento do conservadorismo, ataque aberto aos artistas e cultura, a indiscutível já real censura e auto-censura nas instituições, a instituição do projeto de desumanização como política de estado. Ainda assim, foi estranho que muito pouco disso estivesse nos discursos, nos textos, nas cenas, nas escolhas. De alguma maneira, a mostra - com tantos trabalhos que se limitaram aos relacionamentos, aos dilemas sexuais, ao desejo, às disputas emocionais - inquieta sobre o quanto os assuntos urgentes foram ignorados e qual a real importância do teatro que há de vir, afinal, as Satyrianas sempre serviram de um termómetro sobre possíveis pesquisas, interesses, projetos, possibilidades ao ano seguinte. É quando os artistas se voltam às suas vontades e não apenas realizam espetáculos para conquistar espaço e cumprir demandas. Não significa, contudo, que deveríamos ter apenas peças políticas, mas que tanto a problematização dos temas quanto as respostas poéticas não surgiram. Por que? Não sei dizer. Talvez cansaço ou de fato fomos vencidos pelo excesso de opressão que nos tornou pobres e dispensáveis. De todo modo, as Satyrianas aconteceram e isso é, por si só, uma ação fundamental como contracultura e rebeldia. Então há nela uma certa vitória. parabéns a todos dos Satyros - Rodolfo, Ivam, Gustavo e muitos outros - por mais essa festa. Aos artistas, um pedido ou sugestão: acordem, estejam, reajam, apareçam.

por Ruy Filho


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A Antro Positivo participa oficialmente do Satyrianas desde 2010, com o projeto DIÁLOGOS.

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