Josefa Pereira e Patrícia Bergantin
Teatro Centro da Terra - SP

 

 

 

 

Claucio André: Viu alguma coisa recentemente?

 

Ana Carolina Marinho: O mais recente que vi foi o grupo Corpo. Com dois programas "Bach" e "Gira" . E você?

 

CA: Eu vi a pré-estreia da Velha Senhora, no Sesi.

 

ACM: Não sei se lhe acontece isso, mas, às vezes, quando preciso escrever sobre algo e no meio tempo vejo um novo espetáculo, tenho a impressão que as minhas reflexões se alteram sobre o primeiro, que em certa medida o segundo acaba se infiltrando na escrita mesmo sem ser convidado. rs

 

CA: Acontece. Principalmente quando vejo algo relevante. Ou interessante.

 

ACM: sim! e quando cobrimos um festival, a sensação é que precisamos abrir inúmeras gavetas para "preservar" as impressões e sensações.

 

CA: Aconteceu com Égua?

 

ACM: em certa medida, mas nada tão consciente. Vi na semana seguinte outro espetáculo de dança, do grupo Corpo. E sentia que o meu olhar buscava conexões entre os dois, mesmo que sejam completamente distintos. Acho que isso tem relação também com a minha pouca intimidade com a dança.

 

CA: Sobre isso, gavetas, eu preciso aprender. O que acontece é que os primeiros espetáculos de um festival se beneficiam do frescor mental, enquanto os últimos, coitados...

 

ACM: ahhhhh sim, isso acontece também. como manter o frescor do olhar quando ele está cansado? como manter a curiosidade?

 

CA: Acho que nosso olhar busca conexões (e ainda mais você, com um grupo muito ligado a uma questão de integração), porque acabamos sendo a ponte entre nós, o mundo de hoje e o mundo que nós imaginamos possível.

 

ACM: sim! sinto isso também. meu olhar é muito alimentado pela própria pesquisa que desenvolvo com o meu coletivo.

 

CA: Eu ia falar "nós enquanto artistas...", mas vou evitar ao máximo colocar-me em lugar de fala, pra não separar o artistas de meu eu (ou "enquanto homem", "enquanto branco", etc.). Tenho pensado muito sobre isso. Até porque ia ter que escrever sobre Égua.

 

ACM: sobre o lugar de fala, acho importante anunciá-lo, pois me leva a uma reflexão sobre os privilégios ou não desse lugar. Mas sobre "Égua" que imagem persiste pra você?

 

CA: Utilidade.

 

ACM: é mesmo? por quê?

 

CA: Corpo-utilidade, e utilidade do corpo. Em especial sob a ótica de duas artistas. Equino é animal associado a trabalho, utilidade, arar, cavalgar, transporte etc. Cavalos ainda tem uma questão de batalha, de garanhão. Égua, no entanto, ganha função de procriação.

Recentemente estive em Rio Preto e num hotel cheio de Chuck Norris. Perguntei pro recepcionista o motivo daquilo, e ele disse que todo ano o leilão de gado movimenta milhões na cidade. Sabe, cara que não tira o chapéu preto com detalhes dourados nem para tomar chá no café da manhã?

 

ACM: caramba!

 

CA: E aí eu vi as performers de Égua friccionando essas questões. O que é uma égua? (além da gíria paraense?) . Essa moda do fisioculturismo ainda destaca isso, pra mim. O corpo-tração. O corpo-pegada. O que acha dessa associação?

 

ACM: em certa medida, minhas reflexões seguem por esse caminho, mas o tempo inteiro os corpos das performers me direcionavam para uma consciência sobre o corpo feminino na zona urbana. ainda que os equinos estejam na rural.

mas sobre a domesticação dos corpos, sobre a necessidade de seguir, mesmo que não se tenha consciência de como nem por que. cresci com o meu avó sempre reiterando o cuidado quando eu fosse me aproximar de éguas, porque elas são mais arredias que os cavalos, são menos domesticáveis.

 

CA: É mesmo? Não sabia disso, não.

 

ACM: você sabe que na minha cidade (Natal) usamos "arre égua" (agora, fodeu) e "baixo da égua" (lugar longe). rs

 

CA: kkk. Baixo da égua talvez por ser difícil de chegar? Segundo seu avô... rs ...

 

ACM: pois é, não sei se isso é realmente comprovado cientificamente, mas no meu imaginário, as éguas são mais perigosas que os cavalos, elas não se sujeitam facilmente a servir, preciso de uma atenção maior quando for montar nela.

 

CA: Sobre o urbano, sim! Eu parto dessa associação mais primitiva, mas trazida a uma analogia urbana. Balada, corpo pilhado, o corpo como função de uma necessidade externa. Mas e pra você, que imagem ficou mais marcante?

 

ACM: pra mim permanece forte a imagem delas "trotando" com a cabeça baixa por um longo tempo pelo palco. como se aquilo tivesse correspondência direta com os usuários de metrô, com a vida frenética do deslocamento urbano. (mas o arredimento é verdade, era uma característica da dança, algo arredio)

 

CA: Pra mim teve isso, mas também elas se mordendo (a imagem de divulgação) e elas pulando ao som do bate-estaca.

 

ACM: isso! e ai "Égua" me provoca nesse lugar. No lugar em que o feminino pode ser contrário às expectativas. Sobre como tornar selvagem os corpos docilizados pela vida urbana. Sobre como explodir, como resistir...

 

CA: Como que a gente fala de Égua? Sobre o que significou pra gente? Sobre imagens e associações? Nunca escrevi sobre dança...

 

ACM: Também não costumo escrever sobre dança, é sempre um desafio. Mas acho que podemos seguir como estamos. Porque na verdade, a dança me provoca nesse lugar de uma explosão de sensações pela imagem. apesar de eu sempre querer recorrer à narrativa.

 

CA: Então, você tocou num ponto que queria explorar. O olhar feminino. Por isso que eu fiquei pensando no arquétipo de "égua", e também partindo da sinopse. Porque o trotar do metrô, o corpo-balada... o que isso diz do feminino? (Não é exclusivo, nessas imagens até agora lembradas).

 

ACM: por exemplo, me sinto bem animal domesticado quando saímos do Terminal Bandeira e vamos em direção ao metrô Anhangabaú. Sinto como uma boiada que segue junta e amorfa atravessando a rua e deslocando-se. Deu pra entender?

 

CA: É que você não fez a conexão Paulista-Consolação, rs

 

ACM: SIIIIM! Essa é foda! eu evito inclusive. não suporto a sensação. mas lá me sinto pinguim. andamos lentos e sincronizados.

 

CA: Dá até impressão que é proposital, sabe? "Não iremos melhorar as conexões porque esse é o lugar de vocês, cidadãos! gado! abate! Mas toma um wifi aí para amenizar as coisas"

 

ACM: isso! isso! Isso!

 

CA: Aliás, wifi... com o celular na mão, como não pensar em trote? Veja como as pessoas andam nas ruas, com a cabeça abaixada, o passo vagaroso...

 

ACM: então, mas sobre o feminino... sobre "Égua", não acredito que seja próprio do feminino, mas me toca no feminino urbano, nas possibilidades em se tornar mais ou menos arredio às convenções, à docilização. e pra mim, "Égua" provoca a percepção para o espaço público e não privado. Não é a égua dentro de casa, é ela no seu habitat - na selva, que aqui é de pedra. e aí, por exemplo, me conduz a pensar sobre os aprisionamentos que o espaço urbano leva o feminino, inclusive a dificuldade de reconhecer outro corpo feminino.

 

CA: Como assim, reconhecer outro corpo feminino? Em que sentido, "reconhecer"?

 

ACM: sinto que nos olhamos pouco, muito porque os olhares estão sempre direcionados ao celular, mas digo reconhecer em relação à: olhar a outra mulher e se reconhecer nela e que nesse trânsito entre as duas existe muita força. acho que se nos reconhecêssemos mais nos fortaleceríamos, no mínimo seriam menos os abusos. Mas não falo como se isso devesse ser exclusivo do feminino. É que "Égua" me provoca nesse lugar, tanto pelo imaginário da égua arredia, quanto pelas duas performers. mas sempre acho que o diálogo se estende todos. e digo isso no espaço público. porque no privado, muitas vezes, somos a única mulher. mas no público estamos espalhadas, somos muitas e em mais número. sinto inclusive que esse processo de tornar-se menos docilizada, menos domesticada tem avançado.

 

CA: Saquei, saquei. Eu concordo contigo. É o movimento de reconhecer as semelhanças nas diferenças, um olhar de dupla mão. Olhar para o que toda mulher tem (e que pode ser ou que é exclusivo dela) para identificar a coisa comum; mas entender que o olhar é sobre toda a sociedade.

 

ACM: isso!

 

CA: Essa semana eu tive uma conversa sobre isso com uma amiga germanobrasileira.

 

ACM: e como foi?

 

CA: O escopo da conversa foi outro; ela trabalha com dança do ventre como processo de descoberta da sensualidade (sensação própria antes de sensação para o outro), como meio de empoderamento, antes de tudo, sobre o próprio corpo, não como ferramenta de sexualidade somente. A sensualidade é vista como algo que denegri o feminismo na Alemanha, onde o movimento lá foca o Yang (ativo), mas repudia o Yin (receptivo). Segundo minha amiga.

 

ACM: nossa, que forte isso.

 

CA: Mas, no fundo, resvala nos mesmos temas de reconhecimento entre mulheres. "Não, calma, não é o absolutismo ideológico (ou arquetípico) que vai resolver, mas sim perceber as possibilidades para além da imposição cultural, e liberdade de escolha para cada um. Incluindo a de ser "do lar", seja ele, seja ela. Mas é um movimento que tem esse sentido que dissemos: Essa re-união feminina, mas que não se fecha para o olhar masculino que também busca uma posição de mudança. (Corpo-cavalo, garanhão, performance, músculo incansável etc.)

 

ACM: é isso. muitas vezes reconhecemos como valoroso ao movimento apenas um ponto de vista. e nessa medida, até a ideologização (ter que ser mais Yang do que Ying, por exemplo) é também uma espécie de domesticação. e acho importante por exemplo esse espírito selvático que a égua me inspira.

 

CA: nossa, esse diálogo aqui já me ajuda muito; bem melhor pensar junto e reconhecer as semelhanças; eu não tinha chegado longe sozinho

 

ACM: concordo contigo. o diálogo sempre me redireciona o lugar, provoca novas reflexões, conduz mais longe.

 

CA: "é também uma espécie de domesticação." – Total, total! É o que penso, também. Até porque a "agenda social" quando é impositiva, desconfie... tem algo por trás mais profundo.

 

ACM: exato! e aquelas duas éguas ali me inspiravam a seguir impulsos de dentro, reconhecer quando eu me torno amorfa diante da multidão, quando me anulo no coletivo e sobre a importância de reconhecer a outra, de parar, olhar, criar novas possibilidades, seguir.

 

CA: Tá no Arte da Guerra: "dividir primeiro, conquistar depois". E quando os movimentos sociais se dividem, pode crer que o interesse não é o social, é do status-quo.

 

ACM: uau, que forte essa frase. "dividir primeiro, conquistar depois"

 

CA: É estratégia de poder. Dividir o inimigo, pra conquistar os pedaços um a um. Ou fragilizar o movimento. Sabe, eu tenho estudado uns assuntos que geral acha diferente. Ocultismo, astrologia etc. E engraçado que esses conhecimentos tão antigos já apontavam: o eu, o outro, o todo. Tá tudo escrito, mas de forma simbólica. O que você falou aí associa com tudo isso: Livre arbítrio, porque a vontade do indivíduo importa.

Consciência do outro, na relação de construção, dialética e evolução. Consciência do todo, para saber pra onde vamos como humanidade. Mesmo os equinos têm senso de coletividade. Quando não domesticados, claro.

 

ACM: que bacana isso, Cláucio. Inclusive, esses dias fui ensaiar na Oswald de Andrade e encontrei um quadro em que você preencheu com palavras, setas, desenhos que passei alguns minutos observando buscando compreender. fiquei bem curiosa com tudo.

 

CA: A gente combina esse papo depois! rs

 

ACM: acho ótimo!

 

CA: A própria relação do artista, que se coloca como metáfora (reflexão ou mesmo reverberação do que rola ao seu redor), tem um pouco disso, dessa relação consigo, com o outro e com o todo. Mas o que mais a dizer sobre Égua?

 

ACM: acho que fico com essas reflexões sobre "Égua", com o desejo de que essas provocações sigam se fortalecendo entre todos nós, porque o diálogo se aprofunda.

E você, quer dizer mais alguma coisa?

 

CA: Não quero, não. Acho que se eu falasse mais seria muito minucioso em divagações que não acrescentam muito ao que discutimos.

 

ACM: rs, entendo. foi ótimo dialogar contigo!

 

CA: Idem! E nessa semana é a 5ª vez que toco nesse assunto. #trendingtopics.

 

ACM: que ótimo! rs

 

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foto Frockita Fotografia

 

O Diálogo X2 é uma reflexão crítica em forma de conversa, realizado diretamente pelo facebook, e inclui as maneiras próprias da escrita solta e livre de cada.

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