Quanto mais você olhar para a mesma coisa mais o significado vai embora

August 19, 2017

Dorothé Depeauw

Sesc Pinheiros - SP

 

 

 

 

Em Quanto mais você olhar para a mesma coisa mais o significado vai embora o público tem liberdade de sentar-se onde quiser, inclusive no palco, e poder interagir no solo de Dorothé Depeauw. A dança-performance em si, como indica o programa, é sobre nada – e, nisso, a possibilidade de acontecer alguma coisa. Qualquer coisa. A artista dança livre pelo palco cru, em movimentos pequenos, improvisados, descobertos e influenciados pela disposição (ambos os sentidos) dos espectadores e a forma como estes decidem interagir na experiência. E depois interrompe; recomeça; ou ensaia um recomeço; enfim, não há texto, apenas estímulo. Os dispositivos apresentados são dados: levantar a mão se gosta; levantar a mão se não gosta (paradoxo que em si me inibiu); ficar livre para ir e vir, quando bem entender, tomar água, trocar de lugar, ir embora etc. Mas quase não se fez isso. Ao contrário: uma longa, sádica e silenciosa observação, ou apreciação do acontecendo. Eu mesmo preferi não levantar a mão, pois não entendi aquele lugar como lugar de gostos e sim de experiências. Afinal, quais os limites reais da proposta? Quais seriam os topos? E se o Sesc permitisse a extensão? O que daria, se não soubéssemos a hora de acabar? Confesso que demorou uma dúzia de minutos para perceber que a artista se deixava influenciar pelo arquétipo da figura do espectador. Eu, por exemplo, experimentei soltar o cabelo, trocar de perna inúmeras vezes, espreguiçar-me, sentar de índio... e era bem fina a nuance que aquilo reverberava na artista, criando em si uma “mímese” (com minha grosseira licença poética!) do corpo que a movimentava. – Mas nunca levantar a mão, pois eu, como observador, queria testar os limites da observação, descobrir quando o tédio fica interessante e quando a coisa observada, por ser observada, ganha um sentido mais amplo do que sua própria forma a priori significa. Um sem-sentido que ganha sentido e perde no desmontar inquieto da performance. E é o que promete o título.Eu queria mais, mas será que ela queria? Ou o público? Naqueles sessenta minutos cravados de instantes, houve um estado de presença interessante, a liberdade concedida, mas ao mesmo tempo um status-quo de inação e observação passiva: o lugar do pagante. Mas quem havia dito isso? Nosso ego?

 

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