FIT Rio Preto 2017


Acompanhe aqui as resenhas de Claucio André e Marcio Tito sobre os espetáculos do festival.

__AS CRIADAS

Autor: Jean Genet

Direção e adaptação: Radek Rychcik

Com: Bete Coelho, Denise Assunção, Magali Biff

São José do Rio Preto - SP

O perfume de suas flores não contaminará o arroto de minha pia. Não farei do fogão o meu altar. Quando escravos se amam, isso não é amor. -- No meio do espetáculo escrevo as passagens mais marcantes. É um espetáculo marcante. Não sei o quão marcante para um interior paulista, muito do qual construído em criadagem, perto. Vai ser marcante quando aterrissar no terreno das causas de raça, lá onde o intercâmbio racial se proíbe nos palcos. Pois, afinal, que tipo de reflexão se quer com a inversão? Onde se chega? Longe de ser só isso. A encenação traz duas perspectivas sob o jogo de pequenos poderes, oficiais ou lúdicos, e duas formas imperiosas de percepção. Um, o palco; outro, a câmera, mostrada numa tela escancarada cujo enquadramento não podemos evitar. Vemos a criadagem e o reality show da criadagem; atrizes que atuam também a atuação, além dos jogos e cena. Brincando de Maria Antonieta. Atuantes que intercalam entre a composição do quadro e a cumplicidade do close. Olham para o público sem nunca estar olhando para o público. Hoje há reality show pra tudo, até para inversão de poderes. Há amantes do crime acompanhando as redes sociais. Hoje há reality show nas prefeituras, vestindo por um dia, e para a câmera, o uniforme do escarro. Mesmo culpado, as viúvas o acompanham sob liberdade condicional. E numa padaria da zona oeste paulistana abre-se o slogan: The Queen doesn't go to the kitchen.

> por Claucio André

Centrada na excelência do elenco, encontrando aqui seu valor, a montagem trai a ação e mergulha a plateia na tese do autor. Reduzindo para revelar, focando pra abrir, a cena vê-se bem resgatada pelo elevado nível das interpretações. Noutras vozes, à depender de outros olhos e mãos, sem tamanha prática de cena e palco, a dinâmica seria morna. Os corpos destas majestosas atrizes, é certo, atualiza nossos sentimentos constantemente, livra-nos de sentimentos vagos. Faltaria tração cênica caso o elenco estivesse submisso. O contrário aconteceu. Então, dentro do ar, ao redor de suas vozes e tamanhos, assim, com graça e técnica, produzindo remédio anti-monotonia, o bom teatro aconteceu. Jean Genet resistiu, bem disposto e também atual, sem tornar-se elaborado demais ou de menos, ao simplório procedimento cênico estabelecido pela direção.

> por Marcio Tito

foto Piotr Lis

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__IRACEMA VIA IRACEMA

Atriz Criadora: Luciana Ramin

Encenação: Anderson Maurício

Dramaturgia: Suzy Lins de Almeida

Agrupamento Andar7 e Trupe Sinhá Zózima - São Paulo/SP

São José do Rio Preto - SP

Turn around. Acharam o bagulho no banco de trás e agora a história vai se fazer. Turn around. Quem é vivo, participa, com carta, moeda e o que vier. Turn around. A figura do sertão, cafundó do santo judas, que encheu de retalho e cantoria e luzinha o busão. Turn around. Via Iracema, narrativa da mulher que apanhou feio, arrancou bola, deu bebida, deu ferida e o mundão. Turn around. E, de virada em virada, o passageiro acompanha o faroeste cabocla, corredor da morte e vida, uma saga que em repente podia ter sido no vagão de qualquer cidade, e toda cidade terá. Turn around. Uma atriz que pega a bumba pelo chifre, visceral talvez até demais para o tipo de interação intimidante que abre espaço na lotação de mandigas -- será? E para ir mais longe? Vamos de Bonnie. Quem sabe ir mais longe na desconstrução da simbologia desse espaço, a viação, já que o desafio maior é trazer(-nos a)o universo tratado; desafio que necessita desse pulo de abismo, e que fica já cara a cara com o passageiro. São muitas as histórias que acenam no ponto. Muitas viradas à mão da história.

> por Claucio André

O Brasil profundo se confunde com a cultura que o sobrepõe. Respira durante o soterramento. Isto incomoda os deslizes intencionais, revela os pré e pós conceitos. Torna o trágico inválido e constrange as opressões. A especulação social significa o mundo, segundo a caricatura . Nunca oferece protagonismo. Inato, este Brasil profundo resiste segundo sua inteligência iletrada, seu aspecto nobre, sua resiliência incondicional. Dissecar um drama, um melodrama, em geral, nos acertos, resulta em tragicomédia. E, aqui, a tragicomédia toca a maioria, empodera os humildes e os arquétipos aparecem rendidos, revistos, antropofagizados através de um possível Brasil. Um estranho país que se enxerga EUA, mas se parece com a Índia. A dramaturgia repensa o repente , encosta na forma do teatro através de uma inteligente elaboração da cartografia geográfica e subjetiva da personagem. Avança . Chacoalha o clássico. Comenta o fantástico. Improvisa segundo bases fixas, escolhe não abortar a forma para desnudar com maior facilidade o discurso. Crê no Teatro. Impõe teatralidade. Embora a motivação do palco estar na forma de transporte ainda me fuja , penso ter acompanhado o embrião de um importante , responsável , complexo e inteligente Movimento.

> por Marcio Tito

foto Priscila Reis

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__DESASTRO

Concepção e direção: Neto Machado

Criação/elenco: Bernardo Stumpf, Isaura Tupiniquim, Jorge Alencar, Jorge Oliveira, Moisés Victório e Neto Machado

Dimenti - Salvador/BA

São José do Rio Preto - SP

Uma criança pega o sabre de luz, descobre a cor dela, descobre um novo ângulo pra cor dela, a sombra, o degradé de matizes misturados, o sabre agora é uma espada, uómm, agora é um detector, biii, esconde e mostra, contraluz, placa de avião e cauda de cometa. Uma criança pega as microlampadinhas coloridas, é Natal, é via láctea do certame ao tatame, sangue que se cospe, pó de fada, doce, xernorradiação, sonho de uma noite de verão. Uma criança faz do robô vilão, herói, muro, filho e nave especial. Uma criança da esquizobola faz filho, tique, toc, vírus, elétron. Uma criança pega o estojo de maquiagem e descobre David Bowie e nem sabe o que é mais padrão -- e no vácuo negro espacial, um universo todo é possível na velocidade da luz. E onde o astro, do desastro? É uma questão ground-control pros majores Tom da cia. Na descoberta de tantos efeitos de luz, sinto falta da re-descoberta de pontos de vista, pois tais efeitos estão longe de serem esgotados (até mesmo enquanto narrativa dentro das possibilidades da canção). Nem precisava ser Bowie, mas podia ir mais que o de bowinho. Em resumo, ou em lift-off: Pode ser mais criança.

> por Claucio André

Curiosa investigação de texturas e atmosferas que, embora repita seus achados cênicos de forma inusitada, justamente por reforçar seus signos fundamentais, termina por retirar a elegância do espanto inicial. Ao referir presente e futuro e, de forma narrativa impôr através de combates intermitentes um viés interpretativo acanhado , o grupo desaloja a fábula, não constitui ponto de vista e abandona sua responsabilidade discursiva. Esta contraditória construção ideológica gera e permite inúmeras fissuras visuais, isto parece satisfazer os anseios da direção. O espetáculo comunica dinâmicas pouco inclusivas e dialéticas. Parece rendido ao carisma da ação. Mantém confortável o desejo dos espectadores.Para tanto, antes que o meu olhar estivesse envolto pela possível predileção ao mundo das palavras, alerto-me e sugiro-me que o silêncio na sala , mesmo cutucado por inúmeras provocações imagéticas , imperou. O público estava quase convidado ao texto, seria possível interferir até recriar o contexto daquelas luzes e corpos, mas nada ali pareceu abrir-se ao campo do diálogo, diante de tantos golpes e golpeados, de olhos abertos, permanecemos calados. Pequenos momentos já existentes poderiam render novos lugares, propostas desdobradas poderiam trazer maior riqueza aos recursos, uma outra sensibilidade sociológica talvez pudesse engrandecer infinitamente a tese defendida pelo coletivo. Houve fetiche.

> por Marcio Tito

foto Leonardo França

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__CRISE DE GENTE

Dramaturgia: Alexandre Manchini Jr., Clarissa Maria e Homero Ferreira

Direção e argumento: Homero Ferreira

Elenco: Alexandre Manchini Jr., Clarissa Maria, Homero Ferreira e Ronaldo Celeguini.

Companhia Hecatombe - São José do Rio Preto/SP

São José do Rio Preto - SP

Experiência performodemográfica; uma espécie de 100% São Paulo, mas mais absoluta na dicotomia estilo bolsomito X bolsonada, bolsofamília X bolsomáfia. E tem que opinar! Até paular o boneco deposto conta a violência. Terminada a introdução, pergunto: ao final da crise, que pergunta deverá ser levantada? OPA, ato falho: ao final do espetáculo, do espetáculo. Dará no mesmo <ponto de interrogação>. Cena a cena -- NÃO, ensaio a ensaio -- a cia. expõe a saturação dos diversos símbolos que foram a notícia mais péssima de todos os tempos da última semana. O garoto da Síria. O arrastão. Mariana. Da crise cênica de tratar a crise quando a ficção não dá mais conta da realidade. Encontram alguns símbolos muito bons para isso: quem tem razão sobre a posse da bandeira nacional? Quantos jornais são necessários para esquecer Mariana da impunidade? Crise de gente cansa. E quando a crise cansa, qual o caminho? Se o símbolo esgota, qual a saída? Que raios é crise? Algumas teorias cons/trans/piratórias já disseram: déficit de atenção epilética programada (com minha licença). Portanto, o que é a crise? Que gente é a crise? O mundo vai mudar? Cri cri cri... Se se se...

> por Claucio André

Existem obras que compõe para si um universo particular. Codificam suas convenções e assim o público vê-se tragado ao centro de todas as perguntas. Ao centro de pergunta alguma. Meias perguntas. Perguntas nascentes, malditas, inomináveis, explícitas demais. Isto, de forma que até onde sei apenas a arte é capaz de alcançar, rouba-nos texto e contexto, permite-nos um tipo de apreciação não mediada, torna a forma um objeto em diálogo não com o racional, mas com o tato. É o corpo sente sem palavras, sem sentido, talvez para além da identidade que o compõe. E a forma oblitera a presença do elenco e da obra. Ela, a estrutura cênica, através do jogo, concebe seu corpo e caminha entre nós, entre os mortos, entre os ausentes, muito perto dos presentes e dos vivos. São estas obras que tornam indignos os certos e errados, os bons e ruins. Autoria precede qualidade. Criação precede crítica. Arte precede cognição, raciocínio, entendimento e realidade. Talvez o pecado formal esteja em utilizar um meio muito parecido com o tema. Ou não. Talvez o mérito esteja aí. Talvez a pletora não seja capaz de fixar o alvo. Mas talvez o alvo seja o ar, seja mesmo tudo o que existe ao redor da explosão.

> por Marcio Tito

foto Mariana Wang

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__GRITOS

Dramaturgia, Cenário, Coreografia e Direção: Artur Ribeiro e André Curti.

Interpretação: André Curti e Artur Ribeiro.

Dos à Deux - Rio de Janeiro/RJ

São José do Rio Preto - SP

Lembro quando aprendi a ler filme, com a liberdade azul. Meu mentor disse: presta atenção ao colchão, é simbólico.O colchão guarda a memória, o sono, o sonho, o sexo e a morte. Hypnos, Tânatos, Hades. O lado sombrio dos signos de água. A cia. busca no terror onírico uterino da intimidade entre carcaças de colchões o quadro do grito, a atualização siriana da pintura expressionista do pânico. O grito corpo, o grito malas memória, o grito da espinha rompida no horror de um contexto bruto, a cabeça sem raiz, razão pressuposta, décadas depois mais do que nunca agora. O silêncio-palavra de Gritos é impecável em todos os aspectos, da luz à música, do mínimo ao máximo, das imagens sonoras às vibrações imagéticas. O lamento plástico das almas cujos apocalipses são e foram abafados no horror, no horror, no horror. Obra de arte.

> por Claucio André

O teatro, em seu radical mais potente, iluminado pela luz menos plastificada, causa vertigem. Causa vertigem encontrar um Goya que se move, um Bosch vivo. As palavras que surgem para romper o constrangimento do silêncio, e nem por isto narram de forma vulgar os acontecimentos lúcidos, libertam o significado dos passos no ar, nas sombras e nas cores. Os artistas pareceram tão significativos quantos as paredes. As cortinas e o chão condenados ao sagrado ato de significar vida e morte, em uma incontida ebulição de beleza e estranhamento, permaneceram perpétuos durante 70 minutos. Qual mistério não queremos desvendar? O que são as obras de arte que nos furtam a curiosidade e em troca oferecem sublime contemplação? Qual a explicação para que um ser humano, transido por versos visuais, e somente por estes, deixe de pensar? O código do ritmo e das texturas foi mesmo uma estranha arte pensada para tornar público o meu inconsciente? Quantas encenações podem estar contidas em um curto espaço de tempo? Neste tempo intoxicado pela mídia, pelos memes e gifs, por rasas apreciações da experiência humana, por fúteis seriados enlatados, por movimentos sociais que desejam um mundo melhor (segundo valores de um fast food higienista), resta aos sensíveis aguardar a canonização de grupos como este. Resta aos sensíveis depositar fé neste tipo de rigor que age ainda por rebeldia contra a degradação das belas artes.

> por Marcio Tito

foto Renato Mangolin

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__O PEQUENO PRÍNCIPE - O MUSICAL

Texto: Antoine de Saint-Exupéry

Adaptação, direção, letra das músicas e concepção de luz: Bhá Prince

Elenco: Ana Laura Arantes, Andrei Papani, Gabriel Canile, Lucas Felipe, Maria Lúcia Oliveira, Mayara Martinelli, Rafaela Merighi, Samara Menegildo, Sara Neves e Weslei Lima.

Grupo Lígia Aydar - São José do Rio Preto/SP

São José do Rio Preto - SP

A obra literária tem o apelo da simplicidade e profundidade que é própria dos "infantis preferidos dos adultos". A transposição de um material tão sintético e poético, na literatura, para uma outra linguagem artística, a teatral, levanta o desafio de construir na cena, aos olhos, a analogia e a estrutura poética que só o teatro poderia oferecer. Ou seja, o desafio da "tradução de linguagens". A cia. de Rio Preto busca construir o que é literal da obra, o que acaba sendo seu maior obstáculo. No texto: em alguns momentos por causa da sobreposição sonora (questão técnica do espaço, acredito), em outros por causa do volume integral de informação que tenta dar conta, o musical deixa escapar a alma, a simplicidade de Exupéry. Na parte visual: cenários e penduricalhos com função literal. Na musical: a mesma questão do texto. Ou seja, ao tentar ser fiel ao texto, perde a poesia teatral. Não que não encante, em alguns momentos. O que mostra que essa "chave" de busca já está apontada na encenação; basta olhar para a cena mais popular do espetáculo (as galinhas) e perceber a mágica. Cada episódio da história do pequeno príncipe tem uma pedra filosofal a ser descoberta. Então vale a pena se debruçar sobre o essencial. (Porque o resto a imaginação já completou).

> por Claucio André

foto Vivian Gradela