FIT Rio Preto 2017

Acompanhe aqui as resenhas de Claucio André e Marcio Tito sobre os espetáculos do festival.

 

__AS CRIADAS

 

Autor: Jean Genet

Direção e adaptação: Radek Rychcik

Com: Bete Coelho, Denise Assunção, Magali Biff

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

O perfume de suas flores não contaminará o arroto de minha pia. Não farei do fogão o meu altar. Quando escravos se amam, isso não é amor. -- No meio do espetáculo escrevo as passagens mais marcantes. É um espetáculo marcante. Não sei o quão marcante para um interior paulista, muito do qual construído em criadagem, perto. Vai ser marcante quando aterrissar no terreno das causas de raça, lá onde o intercâmbio racial se proíbe nos palcos. Pois, afinal, que tipo de reflexão se quer com a inversão? Onde se chega? Longe de ser só isso. A encenação traz duas perspectivas sob o jogo de pequenos poderes, oficiais ou lúdicos, e duas formas imperiosas de percepção. Um, o palco; outro, a câmera, mostrada numa tela escancarada cujo enquadramento não podemos evitar. Vemos a criadagem e o reality show da criadagem; atrizes que atuam também a atuação, além dos jogos e cena. Brincando de Maria Antonieta. Atuantes que intercalam entre a composição do quadro e a cumplicidade do close. Olham para o público sem nunca estar olhando para o público. Hoje há reality show pra tudo, até para inversão de poderes. Há amantes do crime acompanhando as redes sociais. Hoje há reality show nas prefeituras, vestindo por um dia, e para a câmera, o uniforme do escarro. Mesmo culpado, as viúvas o acompanham sob liberdade condicional. E numa padaria da zona oeste paulistana abre-se o slogan: The Queen doesn't go to the kitchen. 

> por Claucio André

 

Centrada na excelência do elenco, encontrando aqui seu valor, a montagem trai a ação e mergulha a plateia na tese do autor. 
Reduzindo para revelar, focando pra abrir, a cena vê-se bem resgatada pelo elevado nível das interpretações. 
Noutras vozes, à depender de outros olhos e mãos, sem  tamanha prática de cena e palco, a dinâmica seria morna. 
Os corpos destas majestosas atrizes, é certo, atualiza nossos sentimentos constantemente, livra-nos de sentimentos vagos. 
Faltaria tração cênica caso o elenco estivesse submisso. O contrário aconteceu. Então, dentro do ar, ao redor de suas vozes e tamanhos, assim, com graça e técnica, produzindo remédio anti-monotonia, o bom teatro aconteceu. 
Jean Genet resistiu, bem disposto e também atual, sem tornar-se elaborado demais ou de menos, ao simplório procedimento cênico estabelecido pela direção.

> por Marcio Tito

 

foto Piotr Lis

 

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__IRACEMA VIA IRACEMA

 

Atriz Criadora: Luciana Ramin

Encenação: Anderson Maurício

Dramaturgia: Suzy Lins de Almeida

Agrupamento Andar7 e Trupe Sinhá Zózima - São Paulo/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Turn around. Acharam o bagulho no banco de trás e agora a história vai se fazer. Turn around. Quem é vivo, participa, com carta, moeda e o que vier. Turn around. A figura do sertão, cafundó do santo judas, que encheu de retalho e cantoria e luzinha o busão. Turn around. Via Iracema, narrativa da mulher que apanhou feio, arrancou bola, deu bebida, deu ferida e o mundão. Turn around. E, de virada em virada, o passageiro acompanha o faroeste cabocla, corredor da morte e vida, uma saga que em repente podia ter sido no vagão de qualquer cidade, e toda cidade terá. Turn around. Uma atriz que pega a bumba pelo chifre, visceral talvez até demais para o tipo de interação intimidante que abre espaço na lotação de mandigas -- será? E para ir mais longe? Vamos de Bonnie. Quem sabe ir mais longe na desconstrução da simbologia desse espaço, a viação, já que o desafio maior é trazer(-nos a)o universo tratado; desafio que necessita desse pulo de abismo, e que fica já cara a cara com o passageiro. São muitas as histórias que acenam no ponto. Muitas viradas à mão da história.

> por Claucio André

 

O Brasil profundo se confunde com a cultura que o sobrepõe. Respira durante o soterramento. Isto incomoda os deslizes intencionais, revela os pré e pós conceitos. Torna o trágico inválido e constrange as opressões. A especulação social significa o mundo, segundo a caricatura . Nunca oferece protagonismo. Inato, este Brasil profundo resiste segundo sua inteligência iletrada, seu aspecto nobre, sua resiliência incondicional. Dissecar um drama, um melodrama, em geral, nos acertos, resulta em tragicomédia. E, aqui, a tragicomédia toca a maioria, empodera os humildes e os arquétipos aparecem rendidos, revistos, antropofagizados através de um possível Brasil. Um estranho país que se enxerga EUA, mas se parece com a Índia. A dramaturgia repensa o repente , encosta na forma do teatro através de uma inteligente elaboração da cartografia geográfica e subjetiva da personagem. Avança . Chacoalha o clássico. Comenta o fantástico. Improvisa segundo bases fixas, escolhe não abortar a forma para desnudar com maior facilidade o discurso. Crê no Teatro. Impõe teatralidade. Embora a motivação do palco estar na forma de transporte ainda me fuja , penso ter acompanhado o embrião de um importante , responsável , complexo e inteligente Movimento.

> por Marcio Tito

 

foto Priscila Reis

 

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__DESASTRO

 

Concepção e direção: Neto Machado

Criação/elenco: Bernardo Stumpf, Isaura Tupiniquim, Jorge Alencar, Jorge Oliveira, Moisés Victório e Neto Machado 

Dimenti - Salvador/BA

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Uma criança pega o sabre de luz, descobre a cor dela, descobre um novo ângulo pra cor dela, a sombra, o degradé de matizes misturados, o sabre agora é uma espada, uómm, agora é um detector, biii, esconde e mostra, contraluz, placa de avião e cauda de cometa. Uma criança pega as microlampadinhas coloridas, é Natal, é via láctea do certame ao tatame, sangue que se cospe, pó de fada, doce, xernorradiação, sonho de uma noite de verão. Uma criança faz do robô vilão, herói, muro, filho e nave especial. Uma criança da esquizobola faz filho, tique, toc, vírus, elétron. Uma criança pega o estojo de maquiagem e descobre David Bowie e nem sabe o que é mais padrão -- e no vácuo negro espacial, um universo todo é possível na velocidade da luz. E onde o astro, do desastro? É uma questão ground-control pros majores Tom da cia. Na descoberta de tantos efeitos de luz, sinto falta da re-descoberta de pontos de vista, pois tais efeitos estão longe de serem esgotados (até mesmo enquanto narrativa dentro das possibilidades da canção). Nem precisava ser Bowie, mas podia ir mais que o de bowinho. Em resumo, ou em lift-off: Pode ser mais criança.

> por Claucio André

 

Curiosa investigação de texturas e atmosferas que, embora repita seus achados cênicos de forma inusitada, justamente por reforçar seus signos fundamentais, termina por retirar a elegância do espanto inicial. Ao referir presente e futuro e, de forma narrativa impôr através de combates intermitentes um viés interpretativo acanhado , o grupo desaloja a fábula, não constitui ponto de vista e abandona sua responsabilidade discursiva. Esta contraditória construção ideológica gera e permite inúmeras fissuras visuais, isto parece satisfazer os anseios da direção. O espetáculo comunica dinâmicas pouco inclusivas e dialéticas. Parece rendido ao carisma da ação. Mantém confortável o desejo dos espectadores.Para tanto, antes que o meu olhar estivesse envolto pela possível predileção ao mundo das palavras, alerto-me e sugiro-me que o silêncio na sala , mesmo cutucado por inúmeras provocações imagéticas , imperou. O público estava quase convidado ao texto, seria possível interferir até recriar o contexto daquelas luzes e corpos, mas nada ali pareceu abrir-se ao campo do diálogo, diante de tantos golpes e golpeados, de olhos abertos, permanecemos calados. Pequenos momentos já existentes poderiam render novos lugares, propostas desdobradas poderiam trazer maior riqueza aos recursos, uma outra sensibilidade sociológica talvez pudesse engrandecer infinitamente a tese defendida pelo coletivo. Houve fetiche.

> por Marcio Tito

 

foto Leonardo França

 

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__CRISE DE GENTE

 

Dramaturgia: Alexandre Manchini Jr., Clarissa Maria e Homero Ferreira

Direção e argumento: Homero Ferreira

Elenco: Alexandre Manchini Jr., Clarissa Maria, Homero Ferreira e Ronaldo Celeguini.

Companhia Hecatombe - São José do Rio Preto/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Experiência performodemográfica; uma espécie de 100% São Paulo, mas mais absoluta na dicotomia estilo bolsomito X bolsonada, bolsofamília X bolsomáfia. E tem que opinar! Até paular o boneco deposto conta a violência. Terminada a introdução, pergunto: ao final da crise, que pergunta deverá ser levantada? OPA, ato falho: ao final do espetáculo, do espetáculo. Dará no mesmo <ponto de interrogação>. Cena a cena -- NÃO, ensaio a ensaio -- a cia. expõe a saturação dos diversos símbolos que foram a notícia mais péssima de todos os tempos da última semana. O garoto da Síria. O arrastão. Mariana. Da crise cênica de tratar a crise quando a ficção não dá mais conta da realidade. Encontram alguns símbolos muito bons para isso: quem tem razão sobre a posse da bandeira nacional? Quantos jornais são necessários para esquecer Mariana da impunidade? Crise de gente cansa. E quando a crise cansa, qual o caminho? Se o símbolo esgota, qual a saída? Que raios é crise? Algumas teorias cons/trans/piratórias já disseram: déficit de atenção epilética programada (com minha licença). Portanto, o que é a crise? Que gente é a crise? O mundo vai mudar? Cri cri cri... Se se se...

> por Claucio André

 

Existem obras que compõe para si um universo particular. Codificam suas convenções e assim o público vê-se tragado ao centro de todas as perguntas. Ao centro de pergunta alguma. Meias perguntas. Perguntas nascentes, malditas, inomináveis, explícitas demais. Isto, de forma que até onde sei apenas a arte é capaz de alcançar, rouba-nos texto e contexto, permite-nos um tipo de apreciação não mediada, torna a forma um objeto em diálogo não com o racional, mas com o tato. É o corpo sente sem palavras, sem sentido, talvez para além da identidade que o compõe. E a forma oblitera a presença do elenco e da obra. Ela, a estrutura cênica, através do jogo, concebe seu corpo e caminha entre nós, entre os mortos, entre os ausentes, muito perto dos presentes e dos vivos. São estas obras que tornam indignos os certos e errados, os bons e ruins. Autoria precede qualidade. Criação precede crítica. Arte precede cognição, raciocínio, entendimento e realidade. Talvez o pecado formal esteja em utilizar um meio muito parecido com o tema. Ou não. Talvez o mérito esteja aí. Talvez a pletora não seja capaz de fixar o alvo. Mas talvez o alvo seja o ar, seja mesmo tudo o que existe ao redor da explosão.

> por Marcio Tito

 

foto Mariana Wang

 

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__GRITOS

 

Dramaturgia, Cenário, Coreografia e Direção: Artur Ribeiro e André Curti.

Interpretação: André Curti e Artur Ribeiro.

Dos à Deux - Rio de Janeiro/RJ

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Lembro quando aprendi a ler filme, com a liberdade azul. Meu mentor disse: presta atenção ao colchão, é simbólico.O colchão guarda a memória, o sono, o sonho, o sexo e a morte. Hypnos, Tânatos, Hades. O lado sombrio dos signos de água. A cia. busca no terror onírico uterino da intimidade entre carcaças de colchões o quadro do grito, a atualização siriana da pintura expressionista do pânico. O grito corpo, o grito malas memória, o grito da espinha rompida no horror de um contexto bruto, a cabeça sem raiz, razão pressuposta, décadas depois mais do que nunca agora. O silêncio-palavra de Gritos é impecável em todos os aspectos, da luz à música, do mínimo ao máximo, das imagens sonoras às vibrações imagéticas. O lamento plástico das almas cujos apocalipses são e foram abafados no horror, no horror, no horror. Obra de arte.

> por Claucio André

 

O teatro, em seu radical mais potente, iluminado pela luz menos plastificada, causa vertigem. Causa vertigem encontrar um Goya que se move, um Bosch vivo. As palavras que surgem para romper o constrangimento do silêncio, e nem por isto narram de forma vulgar os acontecimentos lúcidos, libertam o significado dos passos no ar, nas sombras e nas cores. Os artistas pareceram tão significativos quantos as paredes. As cortinas e o chão condenados ao sagrado ato de significar vida e morte, em uma incontida ebulição de beleza e estranhamento, permaneceram perpétuos durante 70 minutos. Qual mistério não queremos desvendar? O que são as obras de arte que nos furtam a curiosidade e em troca oferecem sublime contemplação? Qual a explicação para que um ser humano, transido por versos visuais, e somente por estes, deixe de pensar? O código do ritmo e das texturas foi mesmo uma estranha arte pensada para tornar público o meu inconsciente? Quantas encenações podem estar contidas em um curto espaço de tempo? Neste tempo intoxicado pela mídia, pelos memes e gifs, por rasas apreciações da experiência humana, por fúteis seriados enlatados, por movimentos sociais que desejam um mundo melhor (segundo valores de um fast food higienista), resta aos sensíveis aguardar a canonização de grupos como este. Resta aos sensíveis depositar fé neste tipo de rigor que age ainda por rebeldia contra a degradação das belas artes.

> por Marcio Tito

 

foto Renato Mangolin

 

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__O PEQUENO PRÍNCIPE - O MUSICAL

 

Texto: Antoine de Saint-Exupéry

Adaptação, direção, letra das músicas e concepção de luz: Bhá Prince

Elenco: Ana Laura Arantes, Andrei Papani, Gabriel Canile, Lucas Felipe, Maria Lúcia Oliveira, Mayara Martinelli, Rafaela Merighi, Samara Menegildo, Sara Neves e Weslei Lima.

Grupo Lígia Aydar - São José do Rio Preto/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

A obra literária tem o apelo da simplicidade e profundidade que é própria dos "infantis preferidos dos adultos". A transposição de um material tão sintético e poético, na literatura, para uma outra linguagem artística, a teatral, levanta o desafio de construir na cena, aos olhos, a analogia e a estrutura poética que só o teatro poderia oferecer. Ou seja, o desafio da "tradução de linguagens". A cia. de Rio Preto busca construir o que é literal da obra, o que acaba sendo seu maior obstáculo. No texto: em alguns momentos por causa da sobreposição sonora (questão técnica do espaço, acredito), em outros por causa do volume integral de informação que tenta dar conta, o musical deixa escapar a alma, a simplicidade de Exupéry. Na parte visual: cenários e penduricalhos com função literal. Na musical: a mesma questão do texto. Ou seja, ao tentar ser fiel ao texto, perde a poesia teatral. Não que não encante, em alguns momentos. O que mostra que essa "chave" de busca já está apontada na encenação; basta olhar para a cena mais popular do espetáculo (as galinhas) e perceber a mágica. Cada episódio da história do pequeno príncipe tem uma pedra filosofal a ser descoberta. Então vale a pena se debruçar sobre o essencial. (Porque o resto a imaginação já completou).

> por Claucio André

 

foto Vivian Gradela

 

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__A CASATÓRIA C'A DEFUNTA

 

Dramaturgia: Romero Oliveira

Direção: Marcos Leonardo

Elenco: Mônica Danuta, Paulo Lima, Raull Araújo, Ligia Kiss, Romero Oliveira.

Cia. Pão Doce de Teatro - Mossoró/RN

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

A fala potiguar me derrete o coração, então sou suspeito. Fora isso, o teatro da cia. Pão Doce é o bem feitinho que encanta de olhar, o erudito feito popular. Um texto cheio de jogos de palavra, alguns jogos de cena (não tantos jogos de plateia), digno como um auto de alto gosto. Um arsenal de recursos simples e teatrais, como pede um bom teatro de rua. Cores de ver, cores de ouvir, e o canto afinado, bom musical. Se não propõe construir o novo, cuida bem de trazer a tradição de um gênero medieval brasileiro. Mas não falemos de gênero, falemos de amor, o tema que, como Afrânio, não defunta, e pede a mão do público.

> por Claucio André

 

Além das três narrativas simultâneas, das atmosferas tão bem manipuladas pela dinâmica da direção, acompanhamos também outras formas de narrar, (como se estivéssemos presenciando gestos de um repertório clássico em estado de graça). Inúmeros desdobramentos para a evolução dos quiorocós, amparados em delicadas alternativas cênicas , convidam os olhos para uma viagem através da obra. Viajam também os ouvidos e a nossa ancestralidade. Sentimos imediatamente um simpático reconhecimento . Nada parece nocivo, tudo pretende o riso, tudo aproxima-nos da experiência. Familiar e reconhecível é o teatro deste grupo. Equilibrar as energias da cena, do texto e do elenco, com o pueril do cenário e dos figurinos, embora pareça tarefa consequente , bastante simples, segundo ideias esquemáticas de montagens bem amarradas, ainda representa desafio árduo para boa parte das cias que conheço. Neste trabalho a dificuldade não se anuncia, contrário disto, vê-se subjugada pelo rigor e complexidade das construções. Ainda poderíamos sugerir maior coesão do procedimentos, enxugamento das partituras ou enriquecimento da dramaturgia nos momentos finais, tudo isto viria para o bem, mas talvez viesse para comprometer o estilo dos artistas. Suas marcas autorais poderiam perder força se o final estivesse mais bem elaborado textualmente, ou mesmo houvesse a redução de algumas canções e o reforço de alguns desenhos de cena. Contudo, quando a obra já acontece por si, todas as sugestões podem passar em branco pelos olhos dos criadores. E, como disse Delacroix : É preciso estragar um pouco o quadro para termina-lo.

> por Marcio Tito

 

foto George Vale

 

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__ABNEGAÇÃO

 

Texto: Alexandre Dal Farra

Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra

Elenco: Alexandra Tavares, Vitor Vieira, Antônio Salvador, André Capuano, Clayton Mariano.

Cia. Tablado de Arruar - São Paulo/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Carreira: caminho; escalada; corrida; linha de aspirar. A velhinha corcunda, tetas secas, o mercado na cesta, cheia de doença na coluna, reza pelos homens de gravata, cheios de doletas, que cheiram o cangote das minas, cheias de champanhe, que piram e rebolam nos homens, de gravata, que carreiram na coluna envergada da velhinha. Tudo é por ela. E, de associação em associação, o escritório dos segredos vai nos mostrando os bastidores de uma operação, do acidente inegável, inesquecível – e muito nominavel, mas não serei eu quem vai assumir. Um texto metralhadora, pelo qual o elenco cospe fogo e delineia – ou delinega – uma ficção que, como em muito do visto no festival, não dá conta da realidade chamada... não, essa realidade nunca existiu. Aliás, por isso mesmo é ficção. – A direção é asco e mijo, unha arranhando a lousa da boa educação; a interpretação está repleta de picos absolutamente desnecessários, e, no entanto, cabíveis no universo tratado desse gabinete cujo-nome-não-podemos-dizer-mas-você-já-sabe. E se o rasgar é exagero, eu desconfio que os escritórios políticos nunca terão sabido do iceberg, cuja ponta é veroassimilada em Abnegação-I. (continua em Abnegação-II).

> por Claucio André

 

O Marquês de Sade acusou a política de ser uma das formas do deboche. Seguindo tal definição, associando esta ao sentido filosófico das imagens, com renovação retórica e temática, alcançando consequente forma (intimamente conectada com a tradição do teatro brasileiro dos anos 80), o Tablado de Arruar encontrou fina encenação e radical instante "tragicomediépico" para a cena brasileira. Em geral, para manter distantes as críticas, os mais bem realizados trabalhos que tenho acompanhado ou parecem rendidos ao estilo europeu ou desistem de representar brasilidades. É claro que o rigor e a intermitência dos alemães seduz e conecta-nos à uma engenhosa fiação de procedimentos dialéticos. Evidente também que abolir o samba nos afasta dos clichês e das ciladas turísticas. Assim dito, é com satisfação que encontramos aqui um verdadeiro (e positivo) exemplo de apropriação e deglutição. Temos aqui renascido, ou encontrado, ou retomado, alguns aspectos da criação artística do brasileiro. Em acertada fricção com estilos hoje reconhecidos como contemporâneos, o grupo viabiliza sua elaboração sobre uma legítima brasilidade. Esta cena lúdica e ao mesmo tempo agudamente crítica, feito um Teatro Oficina filmado por um Lars Von Trier, ou uma TV Pirata com subtextos mais profundos, de mãos dadas com a revista Chiclete com Banana ou com a Tropicália agressivamente dócil de Tom Zé, há muito, e que saudades do que não vivi, não via-se tão bem posta na cena brasileira. Com o correr dos anos, com a atualização intelectual da vida e dos viventes, estes efeitos estariam cansados, até estéreis caso visitassem a cena sem uma consciente atualização. Assim, acertadamente, o grupo viu-se em posição de afinar certos procedimentos. O deboche formal e dramatúrgico pareceu saído das teses de Darcy Ribeiro - viva o filho da puta brasileiro! Ou como se víssemos Sergio Buarque de Hollanda dirigindo um teatro de revista voltado ao Cabaré Voltaire. Também Caio Prado Jr poderia ter dito muito sobre a construção econômica dessa tragédia programada. Casa Grande e Senzala surgiria como Casa Bêbada que Sempre Cala. O brasileiro cruel e inconsciente de sua fúria, hiper-consciente do lugar que habita, agindo sempre está forma de sambar tudo e todos para livrar-se dos possíveis chicotes, repito, há muito aguardava por esta desnuda montagem. O coração prático do Teatro de Revista, engajado, pulsa. O melhor da dramaturgia de Marcio Abreu também (Nós). Abnegação 1 é uma obra de arte conectada aos mais epifânicos momentos de nossa cultura. Somente o ridículo, na voz de um intelectual desgostoso, ressentido, mas ainda assim provocando publicamente, poderia entregar-nos tamanho retrato de nossa cultura.

> por Marcio Tito

 

foto Marcelo VillasBoas

 

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__ABNEGAÇÃO II

 

Texto: Alexandre Dal Farra

Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra

Elenco: Alexandra Tavares, Vitor Vieira, Paulo Azevedo, André Capuano, Ligia Oliveira.

Cia. Tablado de Arruar - São Paulo/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

A segunda Abnegação acrescenta sequência sem surpreender quem viu a primeira parte, e também sem a afinação/contrapeso de elenco que segura as rédeas dos desvarios do escritório da 1ª parte. Aqui, mantém-se a proposta de interpretação nos limites do abuso químico (pra sintetizar minha percepção) e de ações no palco, como a tentativa de cagar em cena. No abuso da provocação com o lado de cá dos noticiários/espetáculo, parece ser essa a solução para empreender e compreender as engrenagens do poder: com piração, cocaína, putaria a rodo. E, endossando a referência, basta assistir a filmes, biografias e depoimentos para saber como é bem assim que se decide o rumo dos eleitores. — Mas ao contrário da primeira peça, que foi numa esporrada só, a dramaturgia intercala a saga principal, a do assassinato do prefeito, com quadros de realidades tão próximas quanto distantes deste universo. Cenas de crueldade e absoluto desprezo pelo humano, do estupro de garotas ao assalto com transmissão de AIDS. Embora impactantes, elas não o são mais que as próprias manchetes do lado de fora do teatro; com a diferença que, aqui, são também uma metáfora de como é a lógica do estupro e assalto civil. São os paralelos que acontecem do outro lado do muro afetadas pelo pensamento "projeto de 40 anos de poder" — que me lembra os alertas sobre o tal Foro de São Paulo. Ambas as metades são "presença constante, mas desimportante" uma à outra, livres para acessar os esgotos desse todo que constitui a excrelência dos mandatos. O escárnio continua.

> por Claucio André

 

Provando que a arte não funciona segundo fórmulas, abnegação dois, utilizando-se dos certos da primeira parte, por razão de cola entre as cenas, diálogos e conjunto das dinâmicas cênicas, resulta em uma arrastada e pouco coesa montagem. O sexo surge como uma despropositada virada atmosférica. O partido, esta utopia arrasada ou impulsiva, a tortura e os acordos parecem não existir do lado de fora da boca dos atores. Embora o problema não esteja no elenco, é este quem mais debate-se contra as pobres convenções propostas nesta parte da trilogia. Destaque para Victor Vieira, no papel de Jorge, por sua elegante técnica, elaborada construção e impetuosa euforia racional. Permaneço curioso. O que teria fracassado na viagem? Utilizando-se da mesma barca e navegando em condições tão similares , qual foi a curadoria dos deuses do teatro para que a primeira esteja em um ilustre panteão das obras de arte, enquanto a segunda, filha do mesmo estilo, da mesma tradição e talvez até do mesmo rigor, viu-se capaz de configurar apenas uma afetada tese, uma morna montagem e uma desorientada direção. Dionísio é um Deus cruel - já alertava-nos o brilhante Alberto Guzik.

> por Marcio Tito

 

foto Anelizze Tozetto

 

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__ABNEGAÇÃO III

 

Texto: Alexandre Dal Farra

Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra

Elenco: Alexandra Tavares, Vitor Vieira, André Capuano, Antonio Salvador, Ligia Oliveira, Janaína Leite

Cia. Tablado de Arruar - São Paulo/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Abnegação I mostra o escritório de advocacia de um partido. O II a extensão desse escritório às casas e chácaras de figuras análogas, intercalado com quadros de um universo do outro lado dos muros, afetado pelo pensamento de poder, em metáforas para o abuso civil. A terceira parte da trilogia mostra, por fim, esse universo familiar em situações que tangenciam as questões lá fora dos gabinetes, como uma onda que chega à praia trazendo espuma, e nada acontece de fato. Ou seja, a trilogia vai do público-em-privado e termina num privado que é público, pois de ocorrência comum. -- A direção de atores e do próprio espetáculo também segue uma vetor semelhante, pois diminui a sua "amplitude" ao extremo. Se num primeiro abnegar há numa só esporrada todo um frenesi cocainado, na terceira vemos uma espécie de leitura dramática em cadeiras à face do público, em quadros que vão se intercalando nas histórias com uma interpretação previsível. Isoladamente, Restos da trilogia tem valor irrisório, um alcance abaixo do que se propõe. Já com a conjuntura da trilogia, é possível perceber o sarcasmo de uma ideia. Restos de Abnegação é a ponta da rabeira de pessoas e relações que têm em si a potência dos políticos do topo. A apresentação desta parte aconteceu horas após a condenação de um ex-presidente cujo partido tem a cor da luz que fica o tempo todo em cena, ao fundo. Pulsa uma latência de uma intervenção que não acontece, mas há uma coerência nisso, já que a rabeira é rabeira justamente porque prefere se colar ao sistema do que mudá-lo. -- A sensação é que falta muito à obra, ao mesmo tempo que é parece ser essa a pessimista proposta.

> por Claucio André

 

Ao final da trilogia, bem fundada em Abnegação 1 e gravemente ferida em Abnegação 2, Abnegação 3 confirma o quão fora da curva esteve a parte inicial deste trabalho. Vulgarmente assemelha-se a uma leitura dramática, embora, fosse isto, estaríamos em bons termos cênicos. No entanto, enquadrado pelo desinteressante cenário, que nem expande e nem contém o contexto, o trabalho despenca por entre tiradas (agonicamente) politizadas, não dialéticas e radicalmente ideológicas. O que em Abnegação 1 surgia como efeito cínico da condição política nacional, aqui aparece enquanto melodrama esquemático e ressentido. Até mesmo a unicidade do elenco sofre deste impacto formal. Perdemos todas as balizas. Nos vemos sem lugares de conduta, sem alcance racional. Assim, aflitos por encontrar o efeito da parte inicial, assistimos por entre imposições e acusações sobrecarregadas, outra vez, cenas marcadamente ideológicas e até mesmo pautadas por termos da mídia hegemônica.

> por Marcio Tito

 

foto Felipe Stucchi 

 

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__PROJETO BRASIL

 

Dramaturgia: Giovana Soar, Marcio Abreu, Nadja Naira, Rodrigo Bolzan

Direção: Marcio Abreu

Elenco: Giovana Soar, Nadja Naira e Rodrigo Bolzan

Companhia Brasileira de Teatro

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Entre É o Tchan! das lajes e a bossa nova das varandas existe uma intersecção. Entre o som de bexigas estourando nos buffets e as metralhadoras estourando na favela há uma intersecção. Entre Marcelo Rossi e Belo há uma intersecção. Entre Brasília, o camarote sertanejo universitário e o bairro proibido de Rio Preto existe uma intersecção. – Nessa zona, uma mulher pede socorro e leva a paulada, a igualdade civil avança por meio de concessões convencionadas e a lama de Mariana chega à praia para o Brasil pular sete ondinhas. – Então pára, pára tudo. Também não será esta crítica a equação adequada. Porque a tecnologia já avançou e a civilidade não a alcança. Porque o agora não cabe num noticiário do dia. Porque a Era de Aquário não esteve aí para dar nome a musicais nos teatros com nomes de especulação. Porque O Índio já foi cantado; o Amanhã, sobre o passado, já foi levantado; John Lennon baleado. – Esta voz grita por mais agentes. Começou com um, que pegou dois, que abraçaram mais dois cada, adiante. A evolução é geométrica, mas ainda não tocou a massa crítica. Abracemo-lo sem monologia. Então Projeto Brasil é válido para além de um festival de teatro. Começa e termina vindo dos palcos; nos convida aos beijos, pulos e goles de cachaça, além de outras intervenções-chamamento; e o faz para não apenas comentarmos e fazermos a avaliação, mesmo informal, do espetáculo. O discurso cênico em algumas partes é mais discurso que curso, no entanto o mesclado da ação palco-plateia (do ator que se propõe ser eu-público) é a guerrilha que precisa estar fora do espaço-teatro, tirando o tapete do transeunte que vê o país pela tela. Mas, fica a questão: a mudança será convencionada? Por amor ou pela dor? E se a arte não chega aos Chuck Norris dos leilões de (le)gado, como fazer para os incluir na geometria da evolução? Projeto Brasil tem muitos acertos e erros, mas, certeza mesmo, é que é preciso borrar as margens que nos separam dos arautos.

> por Claucio André

 

Claude Levi-Strauss vaticinou - No Brasil tudo parece construção e já é ruína. Esta fala pareceu abrir os caminhos para Projeto Brasil. O curto-circuito inicial, os cortes e as colagens, o caleidoscópio sociológico, toda a estrutura narrativa da primeira parte parece associada ao princípio de falência. Como se todas as coerências precisassem encontrar a morte para ressurgirem outrora legitimadas pelo lastro, pela dureza do caminho. Embora algumas cenas não convençam, seja por um despropositado banho ou por um espanhol que não me pareceu somar camadas aos bem elaborados procedimentos passados, o trabalho e é evidentemente programado para ser poroso. Inteligentes armadilhas nos fazem ver afrouxar a direção, para logo adiante percebemos que o risco foi premeditado. Sobretudo é uma montagem que anuncia-se mediada pelo amor pela diferença, isto de fato está realizado na cena. Marcio Abreu é sim um dos 5 mais complexos dramaturgxs-encenadorxs, abaixo dos setenta anos, que o país possui. Sua destreza para dizer com nós, para fazer ver na "bagunça", para clarificar através da verborragia e para hipnotizar através dos corpos, é rara. Extrapola o talento e torna evidente sua engajada vocação.

> por Marcio Tito

 

foto Nana Moraes

 

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__OGROLETO

 

Autora: Suzanne Lebeau

Tradução: Jorge Bastos

Direção: Miguel Vellinho

Elenco: Nelson Albuquerque e Silvianne Lima.

Pavilhão da Magnólia - Fortaleza/CE

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Ogroleto, a história, é como os contos originais dos irmãos Grimm. Sabemos, ao fim, que não tem o final feliz esperado. No caso dos Grimm, não se separa o tenebroso da criança, e as próprias histórias de pavor, resgatadas das tradições orais em torno da fogueira nas longas noites de inverno, tinham intenção de causar o calafrio na meninada e alimentar o imaginário. — Efeito que a encenação de Ogroleto deixa em cima do muro, portanto, ao optar por elementos visuais que mais caminham para o conto de fada idealizado que pelo sombrio. Além disso, a direção de atores não arrisca nuances do grotesco ou do grosseiro, já que, à moda clássica, toda a ação acontece fora da cena e é narrada em diálogo. Com isso, o sentimento de inadequação do garoto não ganha força em contraste com o todo o seu entorno, a rica cenografia e limpeza do encantador belo florestal. No fim, quase não se duvida da capacidade de Simão-filho de superar os desafios de sua condição, portanto a revelação final soa mais um Ué do que um Uau — sensação que tive com a criançada ao redor, com seus pais sem saber justificar o que havia acontecido.

> por Claucio André

 

Embora as vozes parecessem seguras, deixaram a desejar no quesito clareza. Bem coordenada, porém pensada através de uma contida imaginação, a montagem aponta o tradicional conflito das diferenças, e como estratégia utilizasse da tradicional dramaturgia dramática. A inventividade vista no cenário, ainda que este também sugerisse alguma falta de movimento e variedade, não viu-se repetida no texto ou na direção. Com um foco único, seguindo disciplinada apatia temática, achatando as nuances das personagens, temos como mais brilhante e último foco de criatividade a fala final, momento onde pela primeira vez há uma inédita proposta narrativa. Canções frágeis, figurinos simplistas, cenário interessante. A sensação que fica-nos é que as primeiras ideias foram senhoras da cena. Tudo resolvido e nada aprofundado. Ficou o desejo de que as boas intenções encontrem em breve seu equivalente formal. E que o rigor possa incendiar este morno espetáculo que, nem por isto deixou de expôr algumas potências adormecidas.

> por Marcio Tito

 

foto Carol Veras

 

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__BLANCHE

 

Direção Geral: Antunes Filho

Elenco: Stella Prata, Vânia Bowê, Felipe Hofstatter, Alexandre Ferreira, Fagundes Emanuel, Andressa Cabral, Marcos de Andrade, Bruno Di Trento, Fagundes Emanuel, Antonio Carlos de Almeida Campos, Guta Magnani.

Grupo Macunaíma e CPT - Centro de Pesquisa Teatral Sesc - São Paulo/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Do fundo da plateia, ao anúncio do intervalo a animada música ambiente contrasta com o ânimo do público. A direção de atores, competentes e guerreiros, é minuciosa no gestual, e em alguns momentos dispensa a palavra sem cair na mímica. O trabalho sobre a(o) protagonista ainda é uma atração à parte, tornando Blanche um sad clown que, na composição inteiro, gera simpatia e estranheza; uma resposta interessante na encenação à complexidade da figura, peixe psicológico fora da água. Mas isso tudo somado ainda é menos do que o estranho fetiche da direção pelo "fonemol" com roupagem realista. Não fica claro o motivo-raiz dessa escolha — se é trabalho sobre o ruído (e o porquê disso em Blanche?) ou é apenas enfoque para trabalho de ator — e esforço de plateia, ainda mais em cadeiras impróprias. O espetáculo parece uma obra que parou no tempo de uma língua que não mais tem relevância, embora os traços de seus personagens nos provoque curiosidade melancólica.

> por Claucio André

 

Experimentar é uma nobre demanda destinada também aos artistas. Positivar ou negativar seus achados por vezes, quando o rigor estabelece balizas claras, pode vir à tornar-se uma vulgaridade racional, intelectualoide demais. Bastará dizer que o elenco afinado, vigoroso, extremamente consciente, contagiado pela enorme vocação do trio de protagonistas, encontra sim, até ultrapassar as propostas da direção, uma forma ímpar para realizar as dificuldades. Os corpos alcançam algum tipo de ciência única, uma vantagem acima dos movimentos, qualquer coisa que rompe o gesto, que atravessa a língua. A luz, o fonemol, certa predileção pelo cru dos artefatos e a duração, composições que poderiam incomodar ainda mais, vê-se resgatada neste grupo de atores engajados, através desta dramaturgia de fatos extremamente críticos e ainda atuais. Aqui é que surge o ouro. Este minério cênico atinge os objetivos mais rigorosos. Cada partitura desenha um mundo. As mulheres e seus corpos frágeis e mentes sãs. Os homens, seu desleixo e orgulho. O futuro sempre nas mãos das oprimidas. O conservadorismo e a violência repousando severamente nas mãos dos opressores. O desespero do "mais forte" e a angústia dos mais "conscientes". A clara sensação de que existem estruturas ao redor, arrisco, é a tônica para as personagens femininas. A direção merece todo o reconhecimento por experimentar radicalmente. O elenco recebe o mérito por tornar válido o experimento. Tenesse prova atualidade e denota não haver fundo falso em sua obra. Como em um efeito Shakespereano, que irrompe elegantemente da cena, configurando tese e antítese, temos uma poderosa tribuna que surge para questionar passado e vanguarda, manutenção e ruptura. Dentro disto, com energia que parece driblar o código estabelecido, mas sem recusar os signos até então utilizados, a excelente Andressa Cabral desenvolve certa interpretação épica, alcança talvez o nível mais sofisticado para esta personagem. Através do drama esta rouba-nos o espírito e somos todos aquela mulher, aquela irmã e aquele momento.

> por Marcio Tito

 

foto Inez Correa

 

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__TERRA ABAIXO, RIO ACIMA

 

Dramaturgia: Graziela Delalibera e Fagner Rodrigues

Direção: Fagner Rodrigues

Elenco e músicos: Cássia Heleno, Clara Tremura, Diego Guirado, Fabiano Amigucci, Glauco Garcia, Márcia Morelli e Simone Moerdaui

Cia. Cênica - São José do Rio Preto/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Crianças, idosos e um mendigo do público incorporados na história itinerante apontam a razão de existir de um espetáculo de rua como T.A.R.A. Sem muito arriscar ou inovar, a encenação explora a tradicional mitologia brasileira e o mágico sobrenatural como viradas da dramaturgia (o boi, a menina velha, o galo de ombro) -- embora as viradas sejam mais uma necessidade de continuidade do que construção cênica. E o trajeto ao longo do leito de um rio de esgoto não parece ser mais que um capricho, embora simbólico na referência à ancestralidade, ao uso que se faz da natureza, da terra, Mariana etc. Mas aí que está. Pra mim, nenhuma novidade, nenhuma surpresa pelo folclore. Para a criança, a velhinha e o mendigo, quem sabe? Tal qual o boi que muda a chave do capanga, entendo esse espetáculo como aquela que conta a história e resgata a memória a um público popular que, de repente, como por magia que a erudição não abarca, muda aí um comportamento, uma opinião, uma visão de mundo mais inclusivo, abrangente, conectado à humanidade. Falta mais "boi" neste folclore, mesmo com pretensões mais simples da cia. na abrangência de uma ampla diversidade (ou acesso) cultural.

> por Claucio André

 

Embora a pesquisa esteja evidente e os atores estejam bastante inseridos nas imagens, o que mais salta aos olhos é a tentativa de trazer o caso Mariana ao material. Atualizar a obra através de tamanha qualidade do presente, aquilatando tão monumental tragédia, não redime os problemas de ritmo, mas faz o espectador sentir-se mais convocado ao teor público do trabalho. O teatro que se propõe ao encontro com as alegorias de seu tempo, valendo-se das dinâmicas cênicas e dos jogos de imaginar, pode com isto encontrar balizas firmes para, caso cometa deslizes na encenação, possa comete-los em paz. E, mesmo com as canções trazendo certa dívida e o sentido da rua estando oculto e cobrando-nos encontrar justificativas pessoais para estarmos ali, é possível notar os ganhos do texto e das interpretações.

> por Marcio Tito

 

foto Everton Campanhã

 

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__O CANTO DAS MULHERES DO ASFALTO

 

Texto: Carlos Canhameiro

Direção: Georgette Faddel

Elenco: Cris Rocha, Michele Navarro, Paula Carrara, Paula Serra, André Capuano e Weber Fonseca.

São Paulo/SP

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Embora o brasileiro ande lendo pouquíssimo, coisa de dois livros ao ano, não penso que tenha chegado a hora de vivermos um golpe da literatura contra o espaço do teatro. O que temos acompanhado, de forma geral, e mais diretamente neste trabalho, é uma supressão do equipamento cênico em detrimento de palavras conectadas não por ações, mas por vírgulas, poesia, frases de efeito e termos ideológicos. Então busca-se a instalação visual, quão desesperador é quando nos damos conta de que nem isto podemos mais alcançar. Claro, afinal, o que surge para tapar o sol com peneira, não raro, termina por bronzear-nos ainda mais. A produção mal resolvida, resultando em figurinos pouco narrativos e excessivamente afrontosos, como se afrontar a estética pudesse situar melhor a cena, deixa no fundo da boca um sabor de palavras impostas, de teatro na marra. A cia buscou criar um espaço de fala. Não conseguiu. O que tivemos criado foi um palanque de versos e uma desorganizada trajetória através de um bosque sem sentido, desembocando em um desamparado discurso que embora eu esteja (em partes) de acordo, sou capaz apenas de negar sua forma direta, crua, armada como um exército e, incandescente como um sentimento de violência. Um trilhão de opressões justificam a fúria , mas a arte ainda pode ser o campo dos acordos e dos perdões e da estratégia. Duchamp (segundo Ferreira Gullar) viu-se como um criador situado em um mundo pós-apocalíptico, construindo obras com paus, pedras e objetos encontrados, mas nem por isto seu Vaso Sanitário estava sujo, quebrado ou roído por bactérias. Mesmo as rupturas merecem apuro estético. Afinal, o público precisa ser capaz de minimamente - participar.

> por Marcio Tito

 

foto Mariana Chama

 

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__JACY

 

Textos: Henrique Fontes, Pablo Capistrano e Iracema Macedo

Dramaturgia: Henrique Fontes e Pablo Capistrano

Direção: Henrique Fontes

Elenco: Quitéria Kelly e Henrique Fontes

Grupo Carmin - Natal/RN

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Os desdobramentos de um fato ocorrido ao acaso podem revelar histórias e alguma poesia. É o que nos falam Quitéria e Henrique, do elenco, sobre como iniciaram a jornada atrás de Jacy, dona da frasqueira encontrada no entulho de uma avenida. E é revelando-nos o processo de investigação sobre a saga desta mulher, que nunca conheceram viva, que a cia. Carmin, com N de Natal, nos presenteia com um teatro documental cheio de poesia e suas interessantes descobertas no uso de projeção. Mesmo sendo um estilo fortalecido recentemente (o documental), o curioso (mas não casual) é que o público desfruta uma narrativa pura e simples, como os mais tradicionais teatros. É uma qualidade que tem sido escapada (ou evitada) no teatro contemporâneo. É uma história, é teatral no sentido puro, e, tcharan, não é ausente de uma visão política. Jacy seduz por um arsenal de sutilezas catadas uma a uma como de dentro de uma frasqueira, para encanto do público que viaja na história e na História, com direito a um idoso da plateia pedindo bis. 

> por Claucio André

 

foto Daniel Torres

 

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__TEKOHA

 

Dramaturgia: Teatro Imaginário Maracangalha

Direção: Fernando Cruz

Elenco: Estefânia Martins, Fernando Cruz, Fran Corona, Moreno Mourão e Renderson Valentim

Teatro Imaginário Maracangalha - Campo Grande/MS

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

O espetáculo de rua apresentado é um manifesto pela memória de Marçal de Souza, líder e ativista indígena morto em luta poucos dias depois de falar da condição de seu povo para o então papa João Paulo II. Tekoha tem relevância enquanto discurso num país cuja população não toma real conscientização da violência, genocídio, ruralismo e capitaneamento de interesses latifundiários. — Já enquanto teatro, é uma declamação com uma estrutura muito frágil, contentada com alguns efeitos visuais pouco expressivos para dar conta da mensagem. A cia. parece acreditar que o chamamento em si, ou seja, o manifesto puro e simples contra a morte do índio, da mulher, do negro, da criança, do idoso, do trabalhador (e por aí vai) é o bastante para engajar o público ao seu redor. Que, em contrapartida, obviamente se motiva porque, afinal, tamo junto! Quer goste, quer não, é a mesma bandeira, o mesmo time, o mesmo Fora Temer na garganta. — Mas e a arte, fica onde?! — Falta ao espetáculo construir uma poética própria, que seja mais que palavras. Os símbolos necessitam de alguma profundidade e dimensão, porque assim que são apontados, em seguida são abandonados; o cortejo inicial, por exemplo, e a instauração da atmosfera pelas batidas do tambor, parece seguir a uma contagem ideal desconectada do espaço, pois caminha dando voltas enquanto o público já está reunido; atmosfera, aliás, que assim que é instaurada, é quebrada por uma apresentação já cheia de bandeiras. Nem o "minuto de silêncio" espera pelos outros 55 segundos faltantes. Na mesma linha vão os recursos teatrais (perna de pau, chocalhos, apitos, um pano vermelho avoado) e a dramaturgia, sem nos oferecer qualquer surpresa, e que só não é mais linear por causa da inflamação ativista. — E, com todo o coração, é uma pena que isso ocorra. O que a cia. de Campo Grande busca é um teatro documental e de rua, ou seja, uma mistura cheia de possibilidades, principalmente se for buscar na própria tradição indígena a terra firme e a conexão ancestral com a terra. Os Maracangalha nitidamente são e estão apaixonados pelo trabalho, com sangue nos olhos, mas falta construir a ponte para também nos apaixonarmos, e não apenas concordarmos.

> por Claucio André

 

Equilibrado e inventivo, cercado por dinâmicas tradicionais do teatro de rua, a direção surge formalmente resolvida. Continuando a vanguarda de peças que escorregam no próprio modo de contar, que embaralham a dramaturgia e recorrem ao lirismo na busca por interessar a plateia, o trabalho ainda poderia orientar-se com maior segurança discursiva e dramatúrgica. Embora esteja clarificado o tema e também a pesquisa, a carpintaria das contradições e reviravoltas carece de maior rigor. Atores competentes e bem entregues ao radical espaço público, denotando domínio dos gestos e medida relação com a plateia, dão conta de ritmar e concluir bem o espetáculo. A figura central do revolucionário anuncia sua sombra mas não efetiva sua imagem diante de nós. Em cena ficam diversos laços desejosos. Vale pontuar a inteligente fruição dos adereços e figurinos, o positivo espanto dos intérpretes perante as situações elencadas e a ainda morna, porém simbólica, precisa e narrativa, trilha sonora original. 

> por Marcio Tito

 

foto Uári Arruda

 

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__AND SO YOU SEE

 

Projeto de Robyn Orlin

Elenco: Albert Silindokuhle Ibokwe Khoza.

Robyn Orlin - África do Sul

São José do Rio Preto - SP

 

 

 

Corpo embalado, plástico rolha, buracos. Corpo laranja, faca na boca, sucão. Corpo opulência, dilofossauro, ui. Corpo, corpo, corpo. No espetáculo sul-africano o corpo do performer é palco, tela e verso. Tudo é sexo, o gemido ao chicote, a volúpia dos diamantes. Tudo é carne, a dança com meme, a dança pavona, a lavagem e o avatar. Tudo é frêmito, na trilha sonora clássica em fricção com o negro, obeso, andrógino e nada clássico no trato tradicional do belo. Uma imagem belíssima, independente e abstrata na projeção de três canhões de luz RGB. Até a tradução e as legendas louvam o caos. Ao fim, o menino-fada-feto segura um rifle diante de uma multidão ao fundo da pança. Bravo ou não, é dos casos em que só a abstração pode dar conta da experiência concreta.

> por Claucio André

 

EImagens casadas com uma partitura performática, a linguagem enquanto desejo do discurso, gestos que sintetizam textos e causas e momentos. A performatividade é um tipo de coragem da ação, através desta podemos rever o mundo segundo o corpo, segundo os significados da carne. E a matéria pode ser densa, vocal, virtual. A maestria em dançar as imagens "presas" na projeção e o império de variações observáveis no papel dado ao vídeo, tornou menos esquemática é imprevisível a apresentação. O ocidente, retorno de uma mundana tradição, torna exótico tudo aquilo que salta dos livros de História. Entretanto, a inicialmente nada doce radicalidade do trabalho produz efeito contrário. Somos nós os exotizados. Os sem ligar ali. Perante algum tipo de verdade do corpo e da imagem, inseridos em uma estrutural presença política, sentimos um descompasso entre os olhos e as opiniões. Um experimento que luta por encontrar sua função é forma, sua coragem singular é prenuncio que em breve haverá total consciência e catarse inevitável.

> por Marcio Tito

 

foto Jérome Séron

 

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Claucio André e Marcio Tito viajam a convite do festival.

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