CENA BRASIL INTERNACIONAL

 

 

LA VITA FERMA: SGUARDI SUL DOLORE DEL RICORDO

 

Direção e dramaturgia: Lucia Calamaro

CCBB, RJ

por Ruy Filho

 

 

 

Qualquer narrativa que busque se aproximar da morte como tema limita-se a ser somente uma perspectiva subjetiva. Afinal, aquele que narra está vivo, e como tal, a morte é somente uma possibilidade de sua imaginação e transferência de diversas experiências indiretas acumuladas. Por vivermos a morte como dimensão do outro, nunca a própria, traduzí-la ou simbolizá-la implica na inevitável condição de cria-la. Por isso, imagem a ser inventada e sensações concretas e não verificáveis, a morte é na arte tema constante e universo infinito de invenção do próprio homem. Isso, pois, ao escolher como apresentá-la, em sentimentos ou ausências, define-se a si mesmo enquanto artista. E cabe nesse existir criador a qualidade única de como se singulariza frente ao real o próprio ser.A italiana Lucia Camargo volta ao tema em La Vita Ferma. A morte, a perda, o quanto a ausência configura àqueles que permanecem diz muito também de si mesma. Primeiro, por escolher o tema em si; depois, pelo querer abordá-lo através dos personagens presentes. Como se buscasse o mesmo ao teatro qual realiza, Lucia sustenta a cena por uma narrativa revelada aos poucos. São três partes de uma história que retrocede. E, somente assim, olhando o passado daqueles que permaneceram e o quanto aproxima aquela que não mais está viva, é que o espetáculo possibilita redimensionar o assistido.Sendo assim, é fundamental o todo, ir ao máximo desse início. Início esse disponível apenas ao final do espetáculo. E aí surge um enorme dilema. No dia assistido, optou-se por não ter o terceiro ato. Alguns reclamavam da legenda pequena demais, algo um tanto exagerado e preguiçoso por parte desses alguns. No entanto, em um primeiro momento, em um dos dois intervalos, imaginou-se unir os segundo e terceiro e assim correr o tempo. Não foi o escolhido. Simplesmente não se fez o último. Sem qualquer explicação, deixamos o teatro sem o final da história, sem alcançar o início que levaria a entender o todo, sem, por conseguinte, mergulhar à experiência teatral proposta por Lucia.Se a morte é sobretudo uma interrupção a quem fica, visto retirar do real a presença daquele encontrado morto, visto o cotidiano continuar seu percurso; ao não ter o terceiro ato, a sensação é a mesma, a de interrupção como morte da experiência teatral, do convívio com a criação, com a artista. Se morte ou suicídio de Lucia, os espectadores que lá estavam não saberão dizer. Apenas que, ao optar interromper, Lucia se coloca estranhamente como uma artista pouco interessada pelo convívio, e satisfeita com a lembrança efêmera de uma passageira presença que se perdera rapidamente aos interesses de quem lá estava para conhecê-la. Radicalmente, quem morreu foi Lucia. O público continuou pelos cafés e bares. E, provavelmente, ainda que se lembre do ocorrido, já se esqueceu de seu rascunho.Para além de tanto, e ainda sob outros ângulos, fosse por qual motivo fosse, o quanto nisso há de desrespeito ao festival que a convidou, só pode ser quantificado pelo imenso.

 

foto Lucia Baldini

 

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REAL

 

Direção geral: Gustavo Bones e Marcelo Castro.

Textos: Inquérito, de Diogo Liberano. O Todo e as Partes, de Roberto Alvim.

Parada Serpentina é uma criação coletiva do elenco. Maré, de Márcio Abreu.

CCBB, RJ

por Marcio Tito

 

 

De cara, grita o fetiche pelo prosaico. Como fosse o mal acabado e o “imperfeito” uma forma de combater o rigor. Como fosse o rigor um mal a ser combatido pela juventude. Então, abandonando a forma para dar fôlego à militância, surge um teatro sem protocolo e nas palavras um viciado luso-lirismo que incapacita o discurso. O discurso vê-se emparedado pelas soluções visuais. A desconstrução parece mecânica, obrigatória. O teatro não parece autorizado a ser teatro, o coletivo de artistas cobra, a todo instante, que o teatro seja algo mais. Para criar um pacto com a platéia, compromissando o bom gosto da sala, há a constante reiteração da falta de tradição e convenções. Na falta dos dados constituintes de uma obra de arte, a pretensão surge como garantia da autoestima.Os artistas parecem desconcentrados quando encaram a platéia, efeito, é claro. Isso resulta em uma apática sensação de que o público tem o dever de enxertar energia no espetáculo. Talvez, intuo, haja uma estranha apreciação brechtiana que não fui bem capaz de compreender. Buscando propor um teatro contemporâneo e, ao que se nota, autenticamente (?) brasileiro, o que se vê é o invólucro europeu mal entendido enquanto forma. Confunde-se apresentação experimental com abertura de pesquisa ao público. Todos os atores são qualificados, boas vozes e boas construções. Em um melhor momento, para que nem tudo se perca, surge, na ultima dramaturgia, na ultima direção, um raio solar. Nesta, e só nesta, vê-se forma e conteúdo, imagem e discurso em perfeito alinhamento. Temos aqui confirmada a tradicional qualidade do grupo. Antes a última cena fosse referência para o restante do espetáculo. Certamente estaríamos em outro estado de apreensão, e o teatro autorizado a ser teatro, aliviado, brilharia com maior energia.

 

foto Guto Muniz

 

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EM CRIAÇÃO: TRAJETÓRIA SEXUAL (PROCESSO)

 

Texto, direção e performer: Álamo Facó

CCBB, RJ

por Marcio Tito

 

 

A ansiedade qualifica boa parte de nossas ações. Comentá-la requer não apenas disciplina como também autocrítica e assídua vocação à lucidez constante. O sexo, não raro, apresenta-se como possível contorno ao impacto entre a ansiedade e a vida prática. As drogas, as viagens e um implacável sentimento de estrangeirismo tornam a realidade pouco atrativa, então o desbunde seduz e a ilusão surge como possível (e até única) narrativa. Entretanto, o artista, natural companheiro da contemplação e eterno escravo da "metodologização" do real, precisa, necessita para ser artista, encontrar as instâncias que tornam a ansiedade útil e, segundo o instrumento de sua arte, praticar sempre uma forma de transformar este limite em potência, esta potência em forma e este discurso em construção. O artista é um profissional que precisa criar bens compartilháveis. E a poética da performatividade estará sempre à serviço de resolver com a "prática da cena" o que não estiver resolvido na "prática do pensamento". Eis a sua perversa atração... A performatividade, sem saída, tende ao fetiche da forma. A performatividade, sempre capaz de tornar real o irreal, instiga o performer à apossar-se de sua irresistível vaidade autoral, assim, num momento de confusão, termina satisfeita com a própria falta de complexidade. Para todos os efeitos, enxerga rigor em cada gesto displicente. Uma fracassada e descontrolada antítese pode vir a eclipsar a possível tese. Não assusta e nem pode impressionar, nestes tempos visuais, bons atores, boas dicções ou fundamentadas propostas intelectuais, que no fundo são propostas formais esvaziadas. Estas características pertencem ao centro atômico deste tempo povoado por ideologias virtuais e ressentimentos que se pretendem propositivos. Estranho, brilhante e mais cênico seria encontrarmos uma fala autoral sobre a realidade, ainda que metida numa vanguarda passada, que fosse, segundo uma energia atenta ao presente, verdadeiramente libertadora ou menos inocente. Álamo Facó, ainda que tenha como qualidade a busca por algo insuspeitado nas relações poéticas do texto, ainda assim, funciona como o artista reacionário de uma utopia passada.

 

foto Gabi Castro

 

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THE SO-CALLED OUTSIDE MEANS NOTHING TO ME

 

Direção: Sebastian Nübling

Texto: Sibylle Berg.

Maxim Gorki Theatre

CCBB, RJ

por Marcio Tito

 

 

O texto de prodigiosa conexão com seu tempo, em um raro exemplo a se seguir e certamente estudar por aqui, dispara o discurso para além da velocidade da forma. Sofrendo duras penas formais, sem com isto prosseguir ferida, a obra não desacelera e rompe com o teatro, em respeito ao espírito do próprio teatro. Instaura ato, presença, lugar, problema. A obra obriga-se a dizer com palavras o que, certamente, como já presenciei com desgosto, outros grupos buscariam dizer através da imagem midiaticamente construída e idiossincraticamente ignorante dos próprios fundamentos e inspirações. Sua atualidade e impacto, sua potência crítica e espantosa predileção pela realidade fazem da obra uma desconfortável e nada delirante objetificação dos comportamentos. A obra segue criando tribuna cruel por ser real, e tornando palpável o destino de cada ser desimportante, apresenta nítido espelho frente aos narizes do público que aos poucos compreende o jogo até compreender-se implicado na trama. Ainda que o recurso épico deixe marcas muito bem pronunciadas, não nos lembra em nada um tratado inteligente sobre o tema. Para além da explanação surge um teatro de poética eficiente e contradições aparentes. A vida, os viventes e seus vícios, a vida e suas rígidas normas são revistas à sangue frio. Tudo é posto segundo os sonhos de cada miserável no palco ou na vida. De forma bruta, conectando a forma do discurso ao sentido do discurso, humilhando a banalidade e suas crias, o grupo apresenta a localização de bombas atômicas que, hoje, apontam para a inerente devastação, que logo tocará a todos os grupos capitalistas. Então, o que seremos adiante? Cada palavra é célula de uma estrutura funcional, sem tempo para redundar, sem desejo de fazer durar para além do necessário, cada palavra cai diretamente do intransponível teto do teatro. São pedregulhos intermitentes. Notável exemplo sobre como a língua brasileira, em cena, por fetiche, e sou contra, ainda se vê num labirinto entre dizer palavras para esconder a própria incapacidade estética, com isso, resultando num cansado e improdutivo luso-lirismo fugidio.

 

crédito fotográfico não encontrado

 

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MA

 

Direção e performance: Tadashi Endo

CCBB, RJ

por Marcio Tito

 

 

O ser humano anda em baixa. Seja por conta da corrupção que devora a ordem civilizada, da moral política infantilizada, polarizada e sempre estreita, ou por conta da virtualidade ideológica, do apreço pela mediocridade discursiva, do sucateamento do público, ou do sucateamento dos curadores e das dinâmicas das belas artes. O sapiens-sapiens não anda confirmando bem a sua auto-declaração de superioridade, e isso nos deprime, envolve-nos em uma incapacitante bolha ansiosa. Fato é que a virada conservadora deste começo de milênio, como também as desconstruções irresponsáveis e viciadas , seja da cultura de esquerda ou direita , seja do mercado, boicotam viagens intelectuais menos ressentidas e acabam por inviabilizar a possibilidade de criarmos dinâmicas éticas, filosóficas, mercadológicas e estéticas ainda insuspeitadas. O rebaixamento cria contextos menos inclusivos e torna escorregadio o campo da invenção e do reconhecimento das invenções. Este cenário dificulta a percepção de uma vanguarda sólida ou a validação de uma tradição pertinente. Pareceria natural a uma obra filha da razão e em prospecto com um ideal de longa vida de sua complexidade estabelecida, uma recusa ao pop. Posto que nossas poucas rupturas criativas cada vez mais precisam cercar-se de um aparato intelectual que proteja as idéias da "vulgaridade cotidiana". Mas, Tadashi, consciente da força conjectural de sua proposta ancestral, absoluto e profissional em captar inconscientes, imortal por excelência do gesto, atropela fronteiras de ordem rasa e modula a cena conforme o positivo autoritarismo da beleza. Sendo belo, é conveniente ao projeto do artista. Sua dança é tão autêntica e pertinente quanto esquemática, sem tornar-se previsível, não opta pelo ineditismo, atravessa o tempo. É e não é nova. É bela sem ostentar pirotecnia estética. E na presença da obra, por sermos capazes de vê-la e sentindo-a, simplesmente reconhecê-la, sem que seja necessária a utilização de instrumentos eruditos, toda a sofisticação tomba desmistificada. O sapiens-sapiens, fatalmente, cresce. Nada está autorizado à parecer vulgar diante dos signos de Tadashi. O artista eleva a época em que habita através da experiência que propõe. Suas mãos e olhos editam, cortam, fazem ver. "Tadashi mãos de cinema" oferece um pequeno brinquedo que conforme dança cria figuras, atrai o olhar e magnetiza o instante. É tudo absolutamente inexplicável, seu rosto enigmático é a própria teoria da arte. Enxerga o humano e complica sua função, então, sendo arte em estado puro, omite seu significado sem deixar de comporta-se como insubstituível, fundamental e primordial.

 

crédito fotográfico não encontrado

 

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MABOROSHI

 

Direção e performance: Tadashi Endo

CCBB, RJ

por Marcio Tito

 

 

Endo expande até a imagem até onde quer, até onde suporta a corda da íris. O público, sem notar, carrega a obra. Sem o público não existiria luz. Tadashi cria, de forma incompressível, uma estrutura porosa ao ponto de adentrarmos a obra com nossos símbolos inconscientes. É preciso dizer que Tadashi não parece melodramático ou consciente da emoção que produz. Talvez seja como um macaco livre que ao saltar emociona o homem. Tadashi é um animal que, em seu território, junto de suas folhas e riachos, executa beleza sem (aparentar) compreender as estruturas do belo. A dança me parece coisa complicada de definir. Ao passo que teatro é a representação de algo que não está presente, seja personagem ou lugar; a dança, nem sempre se define pelo movimento de um corpo em sincronia com uma canção. Então Tadashi e seus silêncios, de forma singular, dança até que toda a sala pareça imóvel. Um raro artista que carrega em si o poder de deflagrar fenômenos. Indescritível, sacro, único. Fica a sensação de que esse artista dança para resistir contra algo. Contra um fim. Contra distopias, contra o final da beleza.

 

crédito fotográfico não encontrado

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