BRANCO: o cheiro do lírio e do formol

 

direção: Alexandre Dal Farra e Janaina Leite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A plateia visivelmente incomodada durante e ao fim da peça revela algo sobre a experiência do cheiro do formol. Talvez tenha sido a forma, em parte em diálogos de um "Beckett da série C" (e me refiro as questões desses diálogos, seu local, sem pejoração); ou talvez tenha sido o outro pilar do espetáculo, a revelação do processo, metateatro, a mea culpa dos artistas perante as pedras na mão, e o toque pessoal do autor. Ainda podem ser os elementos estranhos, como a baba, os tapetes de couro, o gestual descolado, a descolagem em si, causando quase um nojo. De qualquer forma, saio do CCSP ainda buscando respostas sobre o meu local de fala, expressão que ainda veremos popularizada, estigmatizada e esvaziada, como atualmente em "empoderamento"; ainda assim, sem saber meu lugar de fala, eu que sou HCBHCM (homem cis branco hétero classe média, próximas siglas e códigos de barra); ainda assim sem saber meu lugar de fala, porque de repente caímos num rodar em falso.

(CLAUCIO ANDRÉ)

 

 

É difícil quando você está dentro não viciar o olhar. Aliás, é disso também, trocando em miúdos, que a peça trata. Quando fala em lugar de fala, é justamente o lugar que você ocupa dentro de um contexto. Acompanhar o processo da peça me faz ter um olhar generoso, quase cúmplice do que acontece no palco. De certa forma, é também um pouco meu aquele lugar de fala. Ainda mais como branca e cis. Mas eu não estou ali. Eu vejo de outro lugar de fala. De outra perspectiva. O constrangimento de algumas cenas provoca risos, muitas vezes de nervoso, um pouco de vergonha - de se reconhecer ainda que discretamente naquilo que está sendo encenado - um incômodo latente. A peça é desconfortável. E paradoxalmente é aí onde reside o perigo dela que a torna tão necessária. A peça toca no racismo, mas não é sobre racismo. É sobre como pode ser confortável nos omitirmos diante do que incomoda, do que nos é dessemelhante. A postura aparentemente generosa de deixar a quem é de direito discutir determinado assunto é, na verdade, covarde. E tem certa dose de arrogância. Mergulhar no terreno pantanoso - como aquela gosma branca no meio da sala da família nonsense - que é discutir privilégios sendo um privilegiado é um ato de coragem. Aliás, aquela família, aquela casa, na minha visão, podem ser encaradas como uma representação da cabeça de todo aquele que prefere se omitir a se queimar. É mais cômodo.

(MARIA TERESA CRUZ)

 

foto André Cherri

 


 

 

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