direção: Susanne Kennedy

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O melodrama tipicamente revelado como um sistema de excessos, em que a representação sustenta a existência de todos os personagens, está sobremaneira inscrito em "Por que o Sr. R. enlouqueceu?", e como elemento notório, mais do que sentir, interessa mostrar o que sente. Ainda mais quando a fala se dá por uma classe social que se constrói cheia de limitações: a burguesia está fadada a não falar o que sente, por medo ou por imposição. Porém, o sistema de excessos, aqui, parece posto ao avesso. Se torna jogo de encenação. Quase como um sistema de escassez - o que não deixa de ser o excesso do pouco, do quase nada. O senhor R. está apanhado num universo que priva suas aspirações e limita qualquer movimento contrário que perturbe o que já existe e as instituições como estão. Susanne Kennedy, porém, põe uma problemática fundamental a esse jogo de encenação: distancia o público das paixões que comumente o melodrama evoca no espectador. O excesso das emoções está limitado por outros jogos que a diretora instaura: a máscara que limita as expressões, os movimentos pequenos e reduzidos dos atores, a voz gravada e as longas pausas que reduzem ainda mais o ritmo. O melodrama em Fassbinder e aqui, pontuado pela encenação, não se interessa pela acepção maniqueísta da narrativa, mas pelas possibilidades que complexificam as escolhas dos personagens. Não é fácil, porém, sustentar o interesse: o jogo é claro, porém pouco estimulante. O espetáculo causa um torpor e uma inquietação na plateia que me provoca a pensar as motivações que fazem a cultura de excesso criar paixões e interesse de uma grande plateia.

(ANA CAROLINA MARINHO)

 

Por que o público não enlouqueceu? Por apreciar o sadismo de numa vida burguesa? Porque a influência de Lynch toca a ferida alheia? Porque nem a Guerra Mundial II foi capaz de desviar-nos do que já apontava a aspidistra de George Orwell? Porque é raro encontrar a mistura de Rabits com pastel de banálise? A quem o público assiste por trás da máscara de silicone? Os risos? De quem é o surto? Há descarrego? Contemplamos obra? Forma? Precisão? A necessidade de todas essas existências? -- Eu saio do espetáculo (cujas surpresas circunstancialmente eu já sabia, de rodas de quais participei antecipado, os recursos, o que se toca, e por boca a boca) me perguntando por que EU não enlouqueci. Qualquer imediatismo soa sadismo para comigo diante de um... "?"... que, desconfio, não vem do que vi no palco, mas do imediatismo do que ouvi lá fora, na exaltação do produto. Dá pra jantar depois da carnificina. Dá. Mantenha o sistema.

(Claucio André)

 

 

Raros são os momentos na dramaturgia mundial onde uma revisão da realidade não surge para dar conta de uma auto-verificação , em geral psicológica , das personagens. Vislumbro aqui a inauguração de uma renovada fase do teatro contemporâneo. Não há misericórdia e nem traço de piedade, portanto, um super-objetivo não há, inclusive a ação hora está rebobinada e outrora dispersa no espaço. Não são movidos pelo sexo ou pelo poder, não atendem necessidades sociais, naturais, emocionais. Apenas são movidos pelo estranhamento agônico de uma realidade sob véus. Sentem o simulacro total. Existe apenas um enorme constrangimento por estarem vivos diante de outro ser vivo. Está aqui uma antítese completa da obra de Nelson Rodrigues. Qual humanidade encontramos ali ?

(MARCIO TITO)

 

 

O cotidiano sustenta o indivíduo em sua inação contra o próprio cotidiano. Precisa que seja assim. É o estado de apatia que impede a catarse de instruir no ser um estado desdobrado de percepção crítica fundada apenas pelas sensações e não pelo racional. Perceber o cotidiano, então, seria demasiadamente perigoso à estrutura que o exige. Mas também ao indivíduo que talvez não esteja preparado a viver diferente de suas seguranças. O cotidiano, enfim, é principalmente um constante jogo de diálogo e concessões falseadas. Não para Susanne Kennedy. Não para o seu teatro. Nele não há concessões. O tempo das cenas, a maneira como os atores são trazidos quadro a quadro, o como contar a história. Nada é fácil. E é fundamental que o espectador se provoque ao convívio extremo. A atualidade com que inventa uma linguagem própria provoca também o teatro alemão tão excessivo e acumulativo em seus procedimentos nessas últimas décadas. Susanne supera isso, vai além. Traz o sujeito como algo despovoado de vida, mecanizado, biologicamente artificializado e distante de qualquer sentimento ou sensação capaz de produzir reações naturais. A síntese em cada personagem amplia a um universo impessoal e estranho. Em Por que o sr. R. Enlouqueceu?, a diretora lapida o que tem se tornado sua assinatura e um espetáculo verdadeiramente complexo sobre o cotidiano das vidas medianas de todos nós. Se o incômodo ao ser a linguagem do teatro estendida ao seu limite é grande ao espectador, é de se estranhar como os mesmos, no papel de indivíduos, tão simplesmente aceitam o mesmo nos cotidianos fabricados . Ou resolvemos logo tudo isso, esse tudo que fingimos não acontecer e existir, ou a tendência será chegarmos ao mesmo fim. Para muitos, simbolicamente. Para outros, infelizmente, de modo literal. Fato é que resistir e permanecer ao teatro de Susanne é construir um pouco mais de estruturas novas que inconscientemente nos ajudarão a dar conta da concretude de modo crítico e problematizador. O teatro, então, se torna radicalmente o meio de revelar e superar o insuportável.

(RUY FILHO)

 

foto Ju Ostkreuz

 

 


 

 

Tags:

Please reload