les ballets C de la B

direção: Frank Van Laecke, Alain Platel e Steven Prengels

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

C de la BThe show must go on. A dor acumulada, a vida amorfinada, os pés de pé calados, show must go on. Toque de cor. Sempre toque de cor. A regra fluída, vir e ver do coração, vejam só também é lei. If music is food of life, play must go on. Os companheiros vão torcer mesmo que poucos, ainda velhas cheerleaders avant marche que todos chair leaders volonté marché, e sem esperar por mais Miniethers, show, show, go on. Bailam juntas juventude e velhice, com sempre um whiplash a esperar por sua vez solada, e mesmo que o ritmo seja quite no one's tempo -- on one, go on. chillno one's rightto mustto show to stay too go Just go off.

(CLAUCIO ANDRÉ)

 

 

A profusão de narrativas dissonantes elegeu a experiência em lugar do espetáculo. De início há um homem à sós, é um ensaio imerso na solidão. Ao término acompanhamos um homem à sós com seu final. Avanço daquilo que insiste contra aquilo que termina. Nenhuma das dimensões narrativas, com exceção da voz off, deixa de conter o caráter diegético das cenas. Ao teatro brasileiro fica um exemplo sobre ser possível, para além das fábulas, espalhar experiência por cada canto do teatro. Isto, não só pelo vigor das cores e tons melódicos, mas também por conter a presença de um ator que sem melindres e achaques, com profundidade e altivez protagoniza como fosse este um gesto simples. Foi uma universalmente icônica interpretação.

(MARCIO TITO)

 

 

O corpo como possibilidade. Por essa razão, a experiência é aberta. O corpo convida a experiência. De meio para o gesto, a encenação, o significado e a narrativa, o corpo é, na verdade início, meio e fim. E ele aparece em alguns signos: do individual ao coletivo. A energia vital - e a falta dela - aparecem de maneira caricata, por vezes quase ingênua, na narrativa daquele indivíduo para o qual um ciclo se cumpriu. É hora de seguir, porque a marcha precisa avançar. O corpo se move, se afeta, mostra a intenção, sente. O constrangimento por se reconhecer em um corpo é evidente. Por estar fora dele, talvez menos. E ao mesmo tempo o maior sinal de pertencimento àquele grupo que se mostra equânime quando executando uma música, mas que também é falível. O verbo é pastiche, é recurso retórico, é efeito sonoro. Não chegará nem perto do que é o corpo para a narrativa. A orquestra também se conforma em corpo. Nada pode estar proeminente. A harmonia entre os instrumentos faz da orquestra um corpo. É múltiplo, é todo, mas é uno, é corpo. E se move em uníssono. E nada pode soar muito diferente. Mas soa. O movimento desafina. Incomoda, constrange, provoca acesso de riso. Tudo proposital. A consciência de que seguir em frente, só, talvez seja a única solução, é a força motriz para o movimento catártico, que se segue. Inunda palco e plateia para mostrar que corpo é um, mas pode ser muitos.

(MARIA TERESA CRUZ)

 

 

Assisto ao início da peça e logo percebo o quanto a temporalidade da expectativa na atuação de Wim Opbrouck se assemelha à “Veronique Doisneau” do Jerôme Bel – quando corpo de baile aguarda ansiosamente pela virada da música só para transferir o tendu derriére para o devant. Na sequência, o delírio do protagonista remete ao livro “O Perseguidor”, do Cortázar – onde o personagem Johnny é um saxofonista no fim de sua carreira, já perdendo o senso de sua fala, em conflito e depressão. “Toca ou estaremos perdidos”, ele exclama – claramente se referindo à aclamada frase da Pina Bausch, substituindo o verbo dançar por tocar. O próprio modo como seu pensamento se organiza, não só pelo jogo poliglota “my mouth ist kaputt”, mas pelo conteúdo de seu discurso, também reiteram essa mescla que é a já inevitável coexistência de pensamentos e linguagens. Instrumentos de sopro viram de percussão, atores cantam, músicos dançam, e até um dançarino dança. Dança? Quando "o dançarino dança” com o percussionista de fato duvidei quem era o dançarino ali. Ou por que meu olhar já viciado reconhecia ele enquanto “o que dança”, sendo que a presença, disponibilidade e mobilidade do percussionista eram tão mais hábeis do que as do “dançarino que dança”. Essas são breves reflexões sobre o muito que foi dito a respeito de "Avante Marche!", considerando-o “híbrido”, como se estampasse sobre ele um holofote peculiar, do tipo “imperdível” ou “inovador”. Mas na contemporaneidade a hibridez se tornou já tanto uma característica inerente, que parece incabível fragmentar e encaixar modelos, seja no meio artístico ou não. O que, hoje, é de fato puro? Dança é quando tem corpos em uníssono? Música é quando tem instrumento e canto? Teatro é quando tem fala? Só nos questionando sobre essas purezas poderemos designar sua mistura de caráter híbrido. Será este ainda um parâmetro para se qualificar um trabalho artístico contemporâneo?

(PATRÍCIA BERGANTYN)

 

 

Um homem não respira. São seus pulmões, eles estão próximos ao fim. O pouco ar compõe um corpo que por vezes se contorce, por vezes desiste. Ele, o homem em si, não. Ao seu lado, a orquestra, de qual é parte, é praticamente formada por sopros. Como se o ar estivesse disponível a todos, menos para ele. Sobrou-lhe os pratos como instrumento, então. E o que pode ser pouco e ridículo é também a possibilidade de liberdade e ação. Sobraram-lhe as tentativas de continuar, mas é cada vez menos viável. Avante, Marche! é como uma ordem que estrutura o movimento até torná-lo militarizado, mas é também um sentido em outra direção. O quanto nos cabe insistir e resistir é a questão a ser debatida. A música que percorre o espetáculo e substitui os sentimentos mais íntimos é confrontada com a palavra nada objetiva, contudo igualmente determinante e conclusiva. Um homem não existe sem o ar que o preenche, sabemos. A não ser pelo som, pela dança, pelo desejo, pelo amar, desde que não sozinho. O outro expande o gesto e possibilidade do homem como se fosse a respiração que lhe falta. É seu respiro, sua vitória momentânea. O espetáculo se faz, ao fim, um poético manifesto à favor do pertencimento e da resistência. Um ótimo início para um festival que começou aos gritos de "fora temer" e "descongela a cultura já".

(RUY FILHO) 

 

foto phil edeprez

 

 


 

 

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