Boi Ronceiro

November 14, 2016

 

 

 

 

 

 

Texto: Ricardo Inhan

Direção: Luciana Lyra

Elenco: Natália Nery, Pedro Stempniewski e Ricardo Henrique. 

Dramamix

SP Escola de Teatro | 13/11 | 23h30

 

Recentemente participei de uma imersão numa fazenda que, de tão afastada, como em Boi Ronceiro, nem sinal de telefone tinha. Zero. O que nos obrigou a buscar coisas a fazer nas horas vagas. Quando o álcool chegou ao fim, estivemos enfim encarando o silêncio. Não fosse a companhia de tantas pessoas, me pergunto que tipo de fantasmas teriam surgido. Pois o silêncio no campo é assombrosamente engolidor para quem cresceu debaixo das luzes ininterruptas e o microondas da cidade. Também se sabe que as visões, os fantasmas, começam a surgir quando o cérebro não percebe movimento por muito tempo. A solidão no campo é em si uma fábula de horror, se por dentro estivermos ofuscados pelo costume da conexão superficial da vida acelerada.

É o que parece também encarar os personagens urbanos da peça. Recebida a herança do falecido patriarca, filho e namorada vão ocupar a casa e se deparam com as questões do vazio e os fantasmagóricos silêncios da noite rural. Também encontram uma figura, memória de um passado que o homem procura evitar: um ser que fala errado, se comunica de forma não convencional, e por isso desperta curiosidade da mulher, que assumidamente está num relacionamento porque não tinha muito o que fazer.

O texto (ou a direção, não tenho como saber), no entanto, deixa escapar a chance de expor o incômodo dos silêncios -- preenchidos aqui com rubricas ou diálogos apressados -- e as deformações das sombras da luz escassa deste universo; embora isso possa servir para mostrar a inquietude de quem teme esses espaços.

Dizem muitos sábios que enfrentar a solidão é necessária se queremos entrar em contato com nossa essência. O homem moderno parece fugir disso, da solidão e da essência, ou talvez do medo de nada encontrar quando o sinal não o alcançar. Afinal, se não estivermos em contato com nós mesmos e o mundo não estiver ao alcance de nossos dedos, que faremos depois de enlouquecer? Mudar o mundo, talvez?

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