Décima segunda peça

May 29, 2016

 

Ao entrarmos no moderno edifício do Centro Cultural Belém, a primeira ação fora mesmo tomar um café. Convites em mãos, adentramos à sala e aguardamos o espetáculo. Desta vez, uma dança. Autointitulada, de Cyriaque Villemaux e João dos Santos Martins, unindo os dois coreógrafos em cena. O movimento inicial dava conta de pensar se seria casual ou proposital os dez centímetros que restava entre a cortina frontal e o palco, o que permitia vazar luz e sombras das movimentações dos dois dançarinos. Difícil dizer. Se sim, há algo interessante no provocar a sensação de imaginação da dança no espectador, uma espécie de jogo de memória, aonde o mover-se de um lado a outro traria a possibilidade de acompanharmos os ritmos dos passos, saltos e corpos juntos ao chão, convidado-nos a encontrar nesse vocabulário invisível as perspectivas da própria história da dança. História essa diferente em cada um dos observadores. Então a cortina é suspensa e o espetáculo em si surge. A sensação inicial pré-cortina é sustentada na procura por coreografias que se limitem às memórias dos ensaios e não dos gestos definitivos, como informam os artistas no programa. Poderia ser de fato uma verticalização ao início, mas não se sustenta plenamente nesse movimento de aprofundamento. Por mais que ora lembrem um ou outro coreógrafo que fizeram da transição do moderno ao pós-moderno suas bases de atuação, o passado que surge ou que é induzido a ser lido assim não é suficiente para que a dança subsequente provoque mais que a condição de sua observação. A proposta de recuperar o passado e validá-lo como estado presente em acontecimento de memória tem sido sistematicamente utilizada tanto no teatro quanto na dança, e a escolha já revela um certo cansaço de tal discurso, sobretudo se não superar os já realizados sobre o mesmo interesse. O espetáculo previsível em seus argumentos, portanto, estava mesmo melhor quando era somente do espectador e a cortina confrontava a imaginação. Talvez porque a memória só funcione mesmo na arte no instante em que lhe é permitida agir na percepção, e raramente dá certo ao ser tratada como jogo do artista cuja observação limita ao outro ao contemplativo afirmativo das escolhas. Nada ali me parecia radicalmente novo, e pouco ali me levava a ter interesse em ver de novo aquilo que se repetia.

foto: José Carlos Duarte

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