Nona peça

May 24, 2016

 

A mistura entre dança e teatro pode ser sofrer de alguns dilemas. Melhor ter um ator dançando ou um dançarino representando? A questão é que, com o convívio com ambas as linguagens, percebe-se muito rapidamente quando aquele que dança-fala ou fala-dança é de uma ou de outra. A sutileza do ator em como construir uma frase e apresentar os recursos dramáticos para melhor manipulá-la é consequente ao foco de seu interesse por tais aspectos técnicos. Assim, como também é diferente o treinamento dado ao corpo por um dançarino, visivelmente mais elaborado na maneira com afirma ou não a presença de um gesto, sua objetividade durante a ação, e os recursos de seu vasto vocabulário. Convidados à voltarmos ao Shaubühne, a peça dessa vez seria Trust, uma mistura de texto, dança, presença, ambiência cênica, teatro. Há mais valor no texto escrito por Falk Richter do que na compelida da encenação, ainda que essa tenha excelentes momentos e surpresas realmente inteligentes e instigantes. No entanto, volto ao início, a dança, o teatro, os perfomers. Falta a um ou outro aprimorar para ser completo. Assistimos um pouco incomodado com isso. Mas, ao final, conversando enquanto jantávamos, falávamos o quanto tal ator era bom, a tal atriz era incrível, e chegamos mesmo a nos dar conta que praticamente todos no elenco tinham nos conquistados em algum momento do espetáculo. Se o texto era bom, se os intérpretes nos provocaram, se o espetáculo era inteligente, então qual o dilema? A resposta estava mais em nós no que neles. Na expectativa que o espetáculo anterior da companhia havia construído. Ainda que eles não tenham nada com isso, é verdade, também é certo não ser possível controlar a ansiedade de cada um. Quer saber, concluímos, o espetáculo é realmente interessantíssimo, com problemas aqui e ali, mas longe de ser previsível e de ser qualquer coisa. Schaubüne consegue isso, conquistar e convencer mesmo quando não se está convencido de termos sido conquistados. Nossa última peça em Berlim. Amanhã iremos embora. E levaremos conosco uma quantidade infindável de experiências formidável. Até mais, Berlim. Até... Bom, deixemos os planos seguirem seu fluxo. O mundo está aí, o amanhã foi construído hoje e algumas respostas já vieram. Foi foda.

Foto: Heiko Schäfer

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