Esta peça não é conhecida. Nem mesmo pelos dramaturgos que a escrevem. A partir de um inesperado estímulo imagético subjetivo, em fotografia ou vídeo, cada um continua sua escritura direcionando a narrativa à próxima cena. Entendemos que criar uma peça é também lidar com tudo aquilo que a inscreve e não apenas com o que nela pode ser escrito. Intercalando os dramaturgos convidados, a página será atualizada duas vezes na semana, até que a peça chegue ao fim. Mas será mesmo que ela pode ter fim?

 

Realização ___ Antro Positivo

Idealização ___ Ruy Filho

Designer ___ Pat Cividanes

Dramaturgos___

DIEGO ARAMBURO _ Bolívia

RICARDO CABAÇA _ Portugal

RUY FILHO _ Brasil

SILVIA GOMEZ _ Brasil

 

CENA 01

RUY FILHO

Depois de entender não ser mais possível ficar onde estava, ele olhou para sua própria memória e se perguntou onde mais poderia se esconder. Não lembrou. Quis chorar, mas viu que isso seria óbvio demais. E rir não faria qualquer sentido.

 

Não sabia que estava sendo visto. Se soubesse, talvez fingisse algum tipo de elegância.

 

A iluminação de um final de tarde, especificamente durante o outono, quer induzi-lo a acreditar ser esse um momento decisivo, conquistando o inesperado de lhe construir uma percepção em branco e preto.

 

Ele anda como se durasse o movimento algumas horas. E percebe, ao fim, estar no mesmo lugar. Seria melhor se o chão corresse por ele.

 

Você está perdido?, ouve. E responde à pessoa distante o suficiente para não ser possível distinguir quem e como é: não, apenas esperando o momento certo de fugir. Eu também.

 

O que era estranho traz o primeiro impacto de realidade: ouve-se o último grito de um pássaro.  

CENA 02

RICARDO CABAÇA

As pernas movem-se na direção da cabeça numa vertigem sonora.

As mãos nos joelhos anseiam por uma outra possibilidade e o círculo aparenta não ter fim. O corpo é uma sinalização suave dentro de uma direção concreta. Ficar tonto ou endoidecer é uma questão de perspetiva, nenhum elemento é suficientemente honesto para confirmar o nosso lugar.

O movimento não pode ser eterno porque a morte interrompe qualquer tentativa de existência, somos energia e combustão para o vindouro, nada será eterno porque essa é a medida que cabe nos nossos ossos.

Poderá haver um outro movimento?

 

 

Penso na hipótese de parar, bloquear os sons que me cercam. Quero bloquear os movimentos atrás de mim, o peso que me impele para baixo. Sou corpo só e nenhuma outra identidade me pertence, o peso dos outros é matéria morta, o meu movimento é sedentário. Preciso sair daqui, afastar-me do topo que é o lugar mais afastado da saída, o único confortável. Silêncio. Silêncio. Apenas silêncio.

A angústia do cego ou do surdo é para mim como um outro hemisfério, a metade de qualquer coisa. Felicidade? Como uma semente que cai no asfalto, a dois dedos da plantação.

Poderá haver um outro movimento?

 

 

O inferno precisa da greve humana, não devemos alimentar as jaulas da alienação, de todo o lado devem surgir novas palavras para criar novos conceitos.

Quero deixar de existir num inferno que tem uma pele estranhamente familiar. Onde está todo o passado?

Procuro a luz que enobrece a escuridão e sentir que essa definição absorve os meus músculos por um tempo. A necessidade de descobrir um pensamento semelhante seria uma jangada e o sangue na terra. Para onde caminho existe um trajeto subliminar de territórios, fronteiras que são corpos e uma chave no meio da noite pode ser sempre um outro início, sempre o mesmo início.

O inferno é uma metáfora da nossa cobardia, por isso precisa de ser extinto e ganhar um espaço concreto, erguer o Museu do Inferno para comprarmos lembranças e réplicas do nosso medo.

 

 

Pressinto uma alegoria no ar, uma manifestação de indiferença que é uma bandeira deste tempo.

Alguém ouve o mesmo que eu?

Atrás de mim, janelas abertas e rádio desligado, uma pessoa em silêncio olha em frente, ou por outro lado, olha para dentro, ou ainda, para um lugar indeterminado, ou por fim, para qualquer coisa que nunca foi. Poderá olhar sem estar a ver nada? O gesto de abrir e fechar os olhos é mecânico, um motor interior que é uma sabotagem, um gesto irrefletido que não significa nada.

Alguém ouve?

O murmúrio, o arrastar, talvez também o vento, um segredo que se solta, a eternidade do ruído.

O silêncio.

O silêncio é o único som perpétuo.

 

CENA 03

DIEGO ARAMBURO

Rumiar. Mascullar. Regurgitar la mañana.
Es que se me sale... eso, la vida.

Las horas de luz eran las que permitían una suerte de horizonte. Ficticio seguramente.Sabía que debía pararse de cara a la luz para disipar aquellos otros pensamientos. Debía abrir una ventana y luego otra y, si aún no resolvía con la segunda, era evidente que vendría lo que intentaba evitar. Y las ventanas abiertas, por decenas y centenas, atraerían el viento que se lo lleva todo, menos a Scarlett -pensaba.

Y no es que sea una persona negativa, para nada, apenas sería alguien que ve uno o dos titulares cada tanto. Sólo lo necesario para...

Y el escondrijo de siempre. El de los aromas. Las fragancias. 
No se le puede mentir a un olor conocido. 
Y entonces la verborragia.

Quizás luego de algo, de alguno, de uno o dos. Cuando el sonido externo ya no interrumpa, cuando tampoco comunique ya y cuando las voces resulten un colchón -no necesariamente mullido. Quizás luego de pensarlo profundamente. De sopesarlo. De mesurar su peso. Cuando se detenga la ebullición ésta y regrese a visitarme el silencio, ese extraño conocido de cada último instante de luz, de preferencia natural, a modo de ocaso. Quizás entonces logre que...

[ português ]

Ruminar. Resmungar. Regurgitar a manhã.
É que ela simplesmente sai de mim... isso, a vida.

As horas de luz eram aquelas que permitiam uma sorte de horizonte. Fictício, certamente. 
Sabia que devia ficar de cara para a luz para dissipar esses outros pensamentos. Devia abrir uma janela e depois outra, e se ainda não resolvesse com a segunda, era óbvio que o que estava tentando evitar chegaria. E as janelas abertas, às dezenas e centenas, atrairiam o vento que leva tudo, exceto Scarlett -pensou.

E não é que seja uma pessoa negativa, de jeito nenhum; seria mais alguém que vê uma ou duas manchetes cada tanto. Apenas o necessário para ...

E o esconderijo habitual. Aquele dos aromas. As fragrâncias.
Não se pode mentir para um cheiro conhecido. 
E então a verborragia.

Talvez depois de algo, de alguns, de um ou dois. Quando o som externo não mais interrompa, quando não comunique ja e quando as vozes sejam um colchão -não necessariamente macio. Talvez depois de uma profunda reflexão. De pesá-lo. De mesurar seu peso. Quando este brote pare e volte a me visitar o silêncio, aquele estranho conhecido de cada último instante de luz, de preferência natural, tipo o pôr do sol. Talvez então eu consiga..

CENA 04

SILVIA GOMEZ

Talvez eu consiga...

...compreender finalmente o valor do silêncio, quer dizer, voltar a ouvir as células – as minhas e as outras –, ouvir a noite na floresta, o rumor da areia da ilha onde nunca alguém pisou, o interior de uma montanha, ou melhor, todas essas coisas que acontecem e continuarão acontecendo a despeito de nós, como céu, terra, Scarlett. 

Talvez. Mas desde que isso começou, todas as coisas guardadas no interior das coisas – células ou montanhas ou areia, não importa –, resolveram acordar. 

Não, não estou pensando nisso, de maneira alguma, pelo contrário, estou muito bem, quer dizer, estou tentando, todos nós estamos, não é? 

Todos nós estamos tentando não lembrar que Scarlett fará aniversário amanhã, todos nós estamos tentando não lembrar de seu nome quando a eletricidade acaba ou de seu rosto iluminado pela chama de uma vela. Também não lembrei de suas mãos

quando quis comentar com alguém a notícia das baleias –

“Scarlett, pelo primeiro verão em décadas, foi possível registrar a voz das baleias nas águas fundas do Sudeste do Alasca sem a perturbação dos barcos cheios de turistas mastigando coisas crocantes” – eu não disse. 

Também não disse “às vezes, eu sonho com você, agora muito mais. Na verdade, são pesadelos”. 

“Perdeu-se no silêncio? Não se pode mentir para ele, não é?”.

A figura difusa agora parecia mais próxima.

CENA 05

RUY FILHO

Scarlett não entendeu a raiva e ele não pretendia lhe explicar. Um após o outro, como se pudesse se desfazer da realidade com pequenos gestos de violência, todo um acervo de acontecimentos deixava de existir. A destruição não fazia sentido, diante a tranquilidade incomum

exposta do lado de fora. Sem pessoas nas ruas, sem carros acelerando e buzinas aleatórias, sem máquinas, vozes, ruídos. Sem pássaros. Enfim, o mundo parecia melhor. Não no quarto. A explosão lhe trouxera a feição de um animal. Outro dele mesmo ou nele mesmo. As coisas estavam confusa. E nada dava impressão de melhorar em poucos minutos. Era quanto tinham. O tempo corria contra os dois, atropelando desespero e calma com igual urgência. Ela sabia do perigo. Ele também, mas parecia preferir o pior. Interrompê-lo? Como? Ao apagar as luzes, um estrondo seco, duro, tão próximo de sua cabeça, que Scarlett tinha certeza ter sido atingida. Mexer-se não era uma possibilidade. Tampouco tinha coragem para reacender a luz. A chave em seu bolso poderia ser uma solução, se tivesse certeza onde estar a porta. Então arriscou: você... E guardou por um minuto, dois, dez, horas. Foi o sol escapando pelas frestas da janela apodrecida que lhe trouxe a manhã. Não

pensou mais em nada. Seu corpo violentado pela expectativa de ser atacado não tinha forças nem para impedir nem para acreditar. Scarlett apenas levantou e deu as duas

voltas na fechadura que livrariam a ambos. Acendeu a lâmpada. Sem ele, nem os jornais, e nem mesmo era ali o seu quarto. Também não havia porta. Não sabia quem eram aquelas pessoas, nem onde estava. Assistiu ao que lhe parecia um ritual primitivo e sem propósito. Então piscou os olhos. De volta ao quarto e ele. Piscou outra vez recuperando a multidão. E, após piscar de novo, eram somente ela e o pequeno pássaro, em algum lugar irreconhecível. Mesmo que inacreditavelmente real.

CENA 06

RICARDO CABAÇA

Scarlett estava num lugar desconhecido, só ela e o pássaro dentro do bolso. Depois do cantar do animal, ouviria uma língua que possivelmente não conhecia.

A música não lhe trouxe qualquer indicação de existência, mas de repente sentiu saudades de ouvir a sua língua. Na verdade, há muito que Scarlett não falava com ninguém, talvez por isso já não soubesse qual era a sua língua. Pensava em vários idiomas, mas sonhava todas as noites com o canto das baleias.

Naquele bar, levada pela música instrumental, ela leu a notícia de que as baleias voltaram a ser ouvidas no Alasca. Partilhou essa notícia com o pássaro que respirava no seu bolso, pequeno príncipe aconchegado nos aromas do passado. Scarlett guardava tudo nos bolsos, não havia espaço para as suas mãos.

Num instante melancólico, Scarlett sentiu uma profunda tristeza por ninguém lhe ter falado daquelas baleias.

Ali não havia multidão que pudesse assustar Scarlett, mas o medo de não saber falar para além do pensamento levava-a a querer conversar. Por vezes levava o bolso à boca e procurava sussurrar os seus sonhos ao pássaro. Um cantar silenciado pela música, era tudo o que restava.

Antes de qualquer catástrofe, Scarlett conseguiu fugir para perto daquele palco, tinha a sensação que naquela noite conheceria alguém muito importante. Ou mesmo que nunca chegasse a conhecer outra pessoa, ter tido esse pressentimento já teria sido uma vontade extrema de rebeldia.

A música continuava a tocar e nenhuma voz geográfica aparecia como um mapa humano.

Por vezes, a confusão de idiomas no seu pensamento, levava Scarlett a roer as unhas, um gesto que ela abominava, mas que na verdade alimentava os seus solilóquios. O pássaro ocupava o espaço que poderia ser das mãos.

Procurou nos bolsos alguma chave de um carro, sem saber se tinha de facto um carro, não se lembrava como tinha chegado àquele lugar incerto. Nos bolsos não havia nenhuma chave.

Scarlett, como sempre, tinha vindo a pé e agora não tinha nenhuma certeza para onde ir.

Scarlett, como sempre, tinha saudades do seu futuro e a angústia do tempo que demorava até chegar era a chave necessária para parar e esperar por ele.

CENA 07

DIEGO ARAMBURO

Entre tanto, él no supo del bar surreal ni del pájaro en el bolso ni de los idiomas incomprensibles.
Él se encontró a sí mismo en la habitación en la que había otro de él o en él. 
Y continuó aquel tumulto en la habitación en la que el miedo al silencio eterno borraba las piezas del mundo, o quizás lo hacía la violencia del ritual bullicioso.
Scarlett? –Retumbó en su cabeza herida por sonidos que golpeaban a pesar de la repentina ausencia de personas, máquinas y movimientos alrededor.
Y viendo que el ritual se había extinguido, decidió no moverse ni procurar nada.
Una pequeña ventana, por la que pudo obtener un poco de aire que respirar, le permitía ver la normalidad del mundo exterior superficialmente detenido, pero en el que las luces azules titilantes denunciaban presencias aisladas, alguna tras una persiana paranoide que tampoco se animaba a expresarse, otras con la ventana abierta y alguna lámpara delatora tímidamente encendida con pavor de afirmar su existencia huidiza.
El estruendoso silencio infernal vibraba pleno de ausencias. 
Sobretodo la de Scarlett.
La luz nos pintaba de rojo, tengo certeza, ella estaba aquí. ¿Cierto? –Consultó al otro de sí o en sí.
Quizás es el golpe el que genera tal idea. –Fue la respuesta.
Pero la idea era una certeza que, de no obtener alguna suerte de confirmación, luego se podría poner en cuestión.
De pronto recordó la llave, pero no la puerta.
¿Tendré que salir por la ventana? –Se preguntó.
Tenemos que salir, tenemos que buscar a…
A… 
¿Ella?
Pero la cabeza ya había comenzado su labor dupla.
No, puede ser peor; siempre que se va en busca de alguien, apenas unos minutos después, esa persona llega a ese lugar, y así es que ellos no se encuentran.
“Esa persona”, ¿qué persona?
Un zumbido agudo en su oído estalló en tres tonalidades a la vez, conformando un grito que podía asemejarse al canto de una ballena.
¿Y salir de este lugar para ir hacia ese afuera donde todo parece borrarse en medio de ese silencio hecho de voces sin cuerpo?
Salir…
Tenía que decidirlo.
Poner los pies en ese mundo extraño que hace tanto no pisaba. Explorarlo.
Sonaba a una aventura a ser vivida. A solas.
¿A solas?

[ português ]

Entretanto, ele não sabia sobre o bar surreal ou o pássaro no bolso ou as línguas incompreensíveis.
Ele se encontrou naquele quarto, onde havia outro dele ou nele.
E aquele tumulto continuou no quarto onde o medo do silêncio eterno apagava as peças do mundo, ou talvez era a violência do ritual barulhento que fazia isso.
Scarlett? –Retumbou na cabeça ferida dele, por sons que a atingiam, apesar da súbita ausência de pessoas, máquinas e movimentos ao seu redor.
E, vendo que o ritual havia sido extinto, ele decidiu não se mexer nem procurar nada.
Uma pequena janela, através da qual ele conseguiu obter um pouco de ar para respirar, permitia que ele visse a normalidade do mundo exterior, superficialmente parado, mas onde as luzes azuis titilantes denunciavam presenças isoladas, algumas atrás de uma cortina paranóica que também não ousava se expressar, outras com a janela aberta e algum abajur delator timidamente aceso com medo de afirmar sua existência fugaz.
O silêncio infernal estrondoso vibrava cheio de ausências.
Especialmente da Scarlett.
A luz nos pintava de vermelho, tenho certeza, ela estava aqui. Não é? – Ele consultou ao outro dele ou nele.
Talvez seja o golpe que gera essa ideia. – Foi a resposta.
Mas a ideia era uma certeza que, se não obtivesse algum tipo de confirmação, poderia ser posta em dúvida.
De repente, lembrou-se da chave, mas não da porta.
Terei que sair pela janela? – Se pergunto.
Temos que sair, temos que procurar à...
À…
Ela?
Mas a cabeça já havia começado seu trabalho duplo.
Não, pode ser pior; sempre que você procura alguém, apenas alguns minutos depois, essa pessoa chega a esse local, e assim é que eles não se encontram.
"Essa pessoa", qual pessoa?
Um zumbido agudo em seu ouvido irrompeu em três tons ao mesmo tempo, formando um grito que poderia se assemelhar ao canto de uma baleia.
E sair deste lugar para ir àquele fora, onde tudo parece ser apagado no meio daquele silêncio feito de vozes sem corpo?
Sair…
Eu tinha que decidir.
Por os pés naquele mundo estranho em que não pisava há tanto tempo. Explorar aquele mundo.
Parecia uma aventura a ser vivida.

A sós.
A sós?

CENA 8

SILVIA GOMEZ

A música daquele bar sem a presença de um rosto familiar tornou-se subitamente uma espécie de opressão. Scarlett procurou o banheiro. Pelo menos, poderia ver algo humano no espelho, onde então viu a frase escrita com batom: “Estou viva”. Agora entendia como era sentir-se sem um lugar para voltar ou sem roupas para trocar ou sem alguém para contar sobre sua nova e extraordinária habilidade de acomodar um pássaro como quem guarda um segredo e toda sorte de outras grandes e pequenas coisas nos bolsos: a risada da irmã, rolos e agulhas de tricô, uma garrafa de água, um poema de Conceição Evaristo, música, o gesto sobre seu cabelo daquelas mãos, sorvete, a memória da casa, pasta de dente ultrafresh, um grito abafado, fósforos, louca insana esperança.  
Ou pela primeira vez entendeu como era não ter alguém para contar – mas isso era melhor guardar para si, mesmo que encontrasse a quem dizer – sobre a repentina capacidade de estar em um lugar sem saber como tinha chegado até ele. Não que pudesse controlar isso nem tivesse certeza de que estava acontecendo. Piscou novamente, com um quase-medo-híbrido-de-excitação de onde veria seu corpo ao abrir os olhos. 
Estava agora em movimento.
Dentro de um trem.
O sol se despedia da paisagem que era como ela a partir daquele momento para si mesma: desconhecida.
Pensou NELE quando o pássaro no bolso reclamou afago.
Para onde estava indo?

CENA 9

RUY FILHO

Oi.

Como foi a viagem?

Deve parecer estranho não ter te esperado, mas é melhor assim. Não faz sentido eu estar aqui. Assim como não vejo sentido você ter ido embora. Nada disso tem importância agora. Talvez tenha sido mesmo o melhor, depois do que aconteceu.

A chave da casa está escondida no lugar de sempre. Você se lembra, não é? Bom, vai ser divertido se não.

Fiquei pensando na nossa última conversa. Dois anos é muito tempo para se concluir algo. As ideias mudam de lugar sem parar e as respostas acabam se confundindo. Aquele momento foi tão assustador e triste. Só que o que conclui é pior: foi perigoso.

Alguém poderia ter nos ouvido. Alguém poderia ter gravado.

E se descobrissem? Você consegue imaginar as consequências de tudo se tornar público?

Eu não encontrei a arma. Sumiu. E se não está com você, então, ele deve ter levado.

Outro dia ouvi tiros. Não deviam ser de verdade. Os pássaros se assustam sempre com as caçadas. Ouvi dentro de mim. Como se tentassem atingir algo escondido. Só você sabe o que foi escondido. Pensei se não estaria tentando matar a você.

Gostei de sentir essa vontade.

Por isso não te esperei. Acho que você entenderá.

Vou aproveitar você estar aqui e ir até sua casa deixar a chave e o que me pediu. Pode ficar. Não quero ter qualquer lembrança daquele dia. Na verdade, não quero me lembrar de mais nada. Apenas deixar sumir as coisas e desaparecer junto à falta de memória, pelas quais me reconhecia.

Pensei que, se eu deixar de lembrar, talvez possa ser outro.

Teria sido mais simples se não fossemos quem somos. Eu não te escolhi, nem você a mim, e passo o dia pensando o quanto em mim é também seu.

Nunca gostei de ter família, você sabe.

Ele vem de tempos em tempos. Não entra, fica por horas olhando a porta, às vezes grita até cansar. Não se assuste. Vá para o quarto e se tranque. Talvez ele esteja mesmo com a arma. Talvez ele grite e desapareça. Ele não precisa saber de você. Não tente nada, por favor.

Apesar de preferir você longe, seria horrível encontrar seu corpo no meio da cozinha.
Deixei um pão no forno. Tem cerveja na geladeira e, antes que me escreva uma carta imensa com sermões, saiba terem sido compradas para você. Eu não voltei a beber. Essa foi a única coisa boa que aconteceu a partir daquele nosso último momento.

Tem também uma geléia horrível deixada aqui. Acho que foi a velha da casa do final da rua. Provavelmente está vencida.

Os teus pássaros morreram.
Espero que esteja bem.

E que nunca mais volte.

CENA 10

RICARDO CABAÇA

Hesitei muito antes de abrir a carta.

Na noite passada tive um sonho estranho e não consigo distinguir o que realmente se passava nele: pessoas voavam ou uma grua que chegava centenas de metros acima do chão.

Pensei também que pudesse ser a realidade, dois homens limpavam que as janelas do prédio onde trabalho. Mas estou de licença.

No frigorífico encontro algumas cervejas. Hesito. Será que são minhas? Bom, estão na minha casa. Abro a primeira lata, a tua carta continua por abrir, e enquanto bebo a cerveja de repente sinto uma ligação entre o meu gesto de beber e a tua carta, ou alguma coisa que poderás ter escrito.

Abro a segunda lata e continuo a ver os homens do meu sonho. Agora ouço alguma coisa e não entendo nada, uma língua exótica. Existe alguma coisa de especial nesta história, aqueles homens não são comuns.

Estou muito cansada da viagem.

Vejo que os meus pássaros morreram. Eu morri com eles, abandonei-os à sua sorte. Eu devia ter morrido com eles. Não me sinto abalada pela melancolia, antes sou invadida por um vazio que me consola. Esta sensação dá-me estranhamente o conforto de que agora necessito.

Abro a terceira cerveja e meto música para me distrair, a tua carta, em cima da bancada, pesa uma tonelada e eu sei que devo abri-la, respeitar-te.

Os pássaros caídos dentro da gaiola, homens que se erguem no céu, eu que me afundo no sofá.

Provo uma geleia terrível, cuspo para a pia. No chão vejo uma marca, uma fenda. Alguém andou a arrastar um móvel. Seria apenas isso?

Começo a ficar tonta, sei que esta é a minha casa, mas sinto-me a ser expulsa dela, aquela marca no chão e a tua carta por abrir.

Prometo a mim mesma que vou abrir a última cerveja e ler a tua carta.

Sento-me no sofá e digo Oi.

Devia ter lido cada uma das tuas palavras antes de ter bebido todas aquelas cervejas, sinto-me entorpecida o suficiente para adormecer no sofá. Eu vou ficar bem. Preciso descansar da viagem. A viagem. Eu vou voar um dia.

Alguém acaba de bater à porta. Não tive tempo de responder à tua carta. Pararam de bater.

Adormeço. Não sei durante quanto tempo, mas sou acordada por alguém que volta a bater à porta.

Hesito. Pela primeira vez estou com medo.

Grupo Cena 11 Cia. de dança em tele ensaio via Zoom / OBS

Edição e direção de vídeo: ALEJANDRO AHMED

CENA 11

GRUPO CENA 11 CIA. DE DANÇA

ruído narrativo

CENA 12

DIEGO ARAMBURO

clique no canto inferior direito do vídeo para ampliar e aumente o som.

CENA 13

SILVIA GOMEZ

“A pedra é obra de milênios”, alguém disse
Lá fora, contam-se números
Que não são números
Os telefones ainda funcionam, mas não lembro mais o meu 
Ainda assim, alguém o tem na memória, pois ele toca
Sim?
“Você é capaz de escrever sobre isso?”
Não.
“Alguém precisa escrever sobre isso”.
Não.
(Como dizer a ele que as palavras não são suficientes, nunca serão?)
“É preciso que se escreva sobre isso, que isso fique registrado em algum lugar ainda que em uma carta escondida sob um degrau de pedra pisado por milênios na esperança de que seja encontrada no futuro, que alguém um dia a descubra e saiba, pois mesmo que a História tenha então sido contada por eles e seus degraus e seus territórios de destruição e massacre e indiferença e ruínas de monumentos erguidos em nome de suas partes íntimas, mesmo assim, uma pequena carta escrita à mão” 
Eu sei.
“Gritará”.
Eu sei.
“Você é capaz de escrever sobre isso?”

 

E se você não fugisse?

Ele perguntou assim, sem rodeio?

Talvez. Não sei se me lembro certo.

Havia algo certo?

O pássaro.

Morto.

Não, ele estava bem.

Não te entendo.

Guardei comigo essa sensação de ser errado ele viver.

Então matou os meus.

Todos.

Você os deu.

Porque não os queria no nosso quarto.

Teu quarto.

Sempre o imaginei nosso.

Matou ele também.

Não.

Mas ele está morto, não está?

Está.

É o melhor, não é?

Talvez. Não sei se me lembro certo.

Havia algo possível?

O trem.

Fugir.

Não, apenas escapar.

Não te entendo.

Guardei escondida essa sensação de ser errado ele viver.

Largou os seus.

Alguns.

Então você os vendeu.

Porque eu precisava refazer o teu quarto.

Teu quarto.

Sempre a imaginei de volta.

Desistiu dele também.

Sim.

Mas ele está pronto, não está?

Está.

É um erro, não é?

Talvez. Não sei dizer ao certo.

Havia algo mais impossível?

Jazz.

Ou escrever.

Não, ou sim, apenas criar algo.

Não te entendo.

Guardei perdida a sensação de ser ridículo.

Mais do que eu.

Às vezes.

Então você tentou.

Porque eu precisava de outro quarto.

Apenas teu.

Sempre precisei de espaço.

Inventou isso também.

Sim. De certo modo.

Ou o tempo todo.

É medo, não é?

Talvez. Por não haver nada mais certo.

Houve algum momento possível?

Não.

Talvez não.

Apenas fugir.

Eu te entendo, meu irmão.

Odeio estar vivo.

Mais do que eu?

Às vezes.

Você imaginou?

Porque eu precisava matar alguém.

Qualquer alguém?

Mesmo que fossem pássaros.

Mesmo que fossem meus?

Mesmo que só fosse eles. Eu precisava matar alguém.

Ou destruir.

Você sabe que são as mesmas coisas.

E você?

Não me importo mais.

E você sabe o que você começou?
 

CENA 14

RUY FILHO

Foram duas semanas. Ele surgia sempre no mesmo momento. Parecia que a madrugada lhe era uma boa desculpa para enlouquecer. Sempre embriagado, nunca cheirando álcool. O transtorno era interno. Ele vivia bêbado dele mesmo. Você nunca foi com a gente atirar no meio da floresta. O sangue daqueles animais o fazia rir. Era uma felicidade monstruosa que não cabia só em seu corpo. Ele queria o meu. Eu era sua extensão. Queria meus olhos como quem precisava contemplar o horror com mais do que apenas dois. Até começar a apontar a arma também para mim. Primeiro comigo de costas. Depois sem nenhum disfarce. E ria. Muito. Eu só tinha oito anos. Você menos. Na noite em que você acordou com os gritos, não eram animais. Ou era. Ele, bêbado em seu esconderijo, tinha a arma virada para você dormindo. Gritei. Ele gritou. A violência se tornou em desespero. Tive a sensação de que naquele instante se viu como nunca tinha se preocupado em se ver. Ele gritou. Eu chorei. Você corria. Ele gritava. Eu corria. Queria abraça-lo, mas não dava mais. Ele me deu um último beijo na testa, entregou o revólver e saiu. Durante todos esses anos, surgiu nas madrugadas. Principalmente nas silenciosas. Foi impossível aguentar os silêncios. E eu agi. Sem a floresta não haveria mais os animais para ele. Você me entende, agora?

 

Menos ainda. 

CENA 15

RICARDO CABAÇA

Eu precisava daquilo, matar era como amar com ciúmes. Eles não podiam viver e se alguém os tinha de matar, então que fosse eu a fazê-lo. E fui eu a maioria das vezes.

O sangue é algo tão belo e visceral que passei a sentir-lhe o cheiro ainda dentro dos corpos intactos, protegido pela pele sufocante. Alguma coisa tinha de escorrer, eu precisava de assistir ao fim da vida. Sou anti-criacionista. Sou o anticristo da vida.

Sim? Consegui ver ao longe o fumo que subia, a terra transformada numa gigantesca chaminé. Que imagem sublime, o privilégio da posição. Eu estava num lugar perfeito para matar, eles viriam ao meu encontro e eu só precisava de disparar as armas.

Eu gosto de matar porque tenho medo de ser morto. Não de morrer, isso não me assusta. Não tenho medo de ser morto, veria isso mais como uma humilhação. Nem suicídio nem homicídio. Eu vou morrer de doença natural. Morrer de velhice. Que sintomas serão esses?

Nem sempre fui assim.

Sou a favor da extinção.

Nem sempre fui assim.

No princípio eu era um homem bom, independentemente do que isso signifique, eu sentia-me um homem bom. E de súbito, os meus alvos passaram a ser outros, os animais não me satisfaziam mais.

Acho que nunca quis verdadeiramente matar os meus filhos, era apenas um jogo, um teste. Apontava a arma para ver se algum dia teria a coragem para matá-los.

Apontava-lhes a arma como se estivesse dentro de um barco, o meu braço subia e descia, eu perdia o horizonte, eu desequilibrava-me para cair na vida miserável que tinha. O que salvou os meus filhos foi o meu eterno desequilíbrio.

As minhas mãos andavam sempre ocupadas pelas armas e garrafas, não podia deixar nenhuma para trás, eu era um soldado permanente. A minha vida era uma vigília permanente porque todos se transformaram nos meus inimigos. A minha família era o meu principal inimigo.

Nunca mais estive com os meus filhos nem com a minha mulher, mas vigiei-os durante toda a vida. Agora lavo as mãos cheias de sangue.

Anos depois libertei a minha mulher e a minha filha.

CENA 16

DIEGO ARAMBURO

Eu sei que você odeia minha caligrafia, se você me mandar uma palavra que você não entende, eu te respondo.

diego.aramburo@gmail.com

CENA 17

RUY FILHO

FRANZ KAFKA.

CENA 18

RICARDO CABAÇA

EM BREVE!

CENA 20

CENA 19

DIEGO ARAMBURO

Tempo maldito.
Maldito tempo, Scarlett.
...
A peça que falta é o "quando".
(E acabei me-faltando eu. Também)
Maldição, Scarlett. Você fugiu com o outro de mim em mim, embora eu tenha me livrado dele quando ele ainda era ……… ?

Eu realmente não queria chegar a isto
Não queria